Por Guilherme Cavalli, da assessoria de comunicação – Cimi

No último domingo (19), a Terra Indígena (TI) Guarani Morro dos Cavalos, localizada em Palhoça, há 30 quilômetros de Florianópolis (SC), sofreu outro ataque em três localidades simultaneamente – Tekoá Itaty, Tekoá Yaka Porã e o Centro de Formação Tataendy Rupa. “Mensagens chegavam em nosso grupo de WhatsApp relatando os tiros contra os indígenas que faziam ronda no território. Foram todos ao mesmo tempo. Isso é uma prova que estão articulados e querem nos massacras”, afirma liderança Guarani Mbya que terá sua identidade preservada. É o terceiro ataque em um ano. Ninguém ficou ferido, mas indígenas revivem clima tenso na região.

“Quando chega vésperas de feriados e finais de semana nosso medo aumenta. É um clima de temor que permanece na aldeia, sempre da meia noite até a cinco da manhã”, denuncia. Segundo o entrevistado, as violências ocorrem em dias e horários que dificultem as denúncias e ação da polícia. “Não temos aonde recorrer. É agonizante. Sabem que se atacarem nesses dias, a política não atenderá os nossos chamados”.

Diante impunidade, “abre-se brecha para futuros ataques”. “Foram muitas denúncias que já realizamos. Recorremos a todos os órgãos possíveis: Polícia Federal, Ministério Público, Funai. Não podemos contar com ninguém”, lamenta. “Tem muitos anos que isso acontece. Não é de hoje que as violências contra nossa comunidade existem”.

A inoperância dos órgãos governamentais responsáveis por investigar e promover a segurança da aldeia, juntamente com a acometida pejorativa da imprensa local, dilata o ambiente de possíveis ataques. “Estamos com medos de denunciar. Podemos sofrer por falar”, comenta ao relatar vazamento à imprensa dos depoimentos apresentados sobre caso de violência contra a comunidade.

Diante aos recorrentes ataques, as lideranças da TI Morro dos Cavalos organizaram um grupo de apoiadores para percorrer a aldeia em guardamento.

Histórico de Violência

No dia 2 de novembro, há 19 dias, o ataque foi contra uma senhora de 59 anos. A indígena recebeu alta médica hoje (21), três dias após a comunidade sofrer nova ofensiva de grupos que pedem a retirada dos indígenas de suas terras tradicionais. “O medo é uma realidade na aldeia, principalmente depois do ataque à senhora que teve sua mão decepada e parte do corpo esfaqueado”.

Em protestos ocorridos em junho, moradores da comunidade Enseada de Brito, que fica próxima à terra Guarani, no Morro dos Cavalos, questionavam a presença dos indígenas. Cartazes caracterizavam a aldeia como “invasão” promovida pela Fundação Nacional do Índio (Funai). O protesto foi organizado por alguns políticos da região, liderados pelo vereador Pitanta (DEM). “São políticos que, com a imprensa local, trabalham para provocar a discórdia. Tentam de todo jeito jogar a comunidade de Enseada contra nós”, explica a liderança que teve a identidade preservada.

No dia 5 de agosto, o tekoha – lugar onde se é – Yaka Porã foi invadido e os barcos dos Guarani Mbya incendiados. Os indígenas registraram queixa na Polícia Civil e solicitaram o encaminhamento das investigações para a Polícia Federal e Ministério Público Federal (MPF). Onze dias depois, a Câmara de Vereadores de Palhoça promoveu uma Audiência Pública para discutir a demarcação das Terras Indígenas  Morro dos Cavalos. “A Funai está trazendo índio de fora para ocupar as nossas terras. Invadem áreas da comunidade da Enseada do Brito”, declara o vereador em convite para a audiência divulgado pela Câmara Municipal de Palhoça.

“O problema começou a aumentar depois da audiência pública na Câmara de Vereadores. Os vereadores chamam pra violências contra a gente de dentro da Prefeitura com informações que não são verdadeiras”, afirmou a liderança Guarani.

As violências se estendem por anos. No dia 2 de novembro de 2015, um grupo ocupou a terra tradicional e expulsou as famílias indígenas, apossando-se de suas casas. O ocorrido encontra-se no Relatório de Violência contra Povos Indígenas no Brasil – dados 2015.

Em 2013, a casa de um indígena foi invadida por um não indígena que insistia de forma violenta em saber sobre o processo de demarcação. No mesmo ano, a mangueira que conduzia água para abastecer a terra indígena foi cortada em 38 pedaços. O Ministério Público Federal foi avisado e encaminhou a denúncia a Polícia Federal para investigação do crime.

*Print de tela feito em 21 de novembro de 2017 às 12h17

FONTE: http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=9574

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