Brasília (DF) – O cacique Megaron Txucarramãe é uma das mais importantes lideranças Kayapó da Terra Indígena do Xingu, no Mato Grosso. Junto com seu tio, o cacique Raoni, tornou-se um ícone no país e no mundo da luta pelos direitos dos povos indígenas. Também se notabilizou por ser um dos maiores opositores da Usina de Belo Monte, no Pará.

Ela fala pausadamente, com a voz um pouco rouca. Estava gripado quando a reportagem da agência Amazônia Real o encontrou no Acampamento Terra Livre, na tarde do dia 26 de abril, em Brasília. Megaron, cujo vigor físico é evidente, também estava cansado. Pela manhã, ele caminhou quase seis quilômetros sob o sol seco de Brasília, do local em que o acampamento se encontrava, na Praça do Buriti, ao redor do Memorial dos Povos Indígenas, até o Ministério da Justiça, na Esplanada dos Ministérios. O objetivo da marcha foi deixar um rastro de “sangue”, denunciando o genocídio indígena e clamando por demarcações de terras e o respeito a direitos constitucionais.

Depois da marcha, no começo da noite, Megaron participou da última plenária do ATL em que foram apresentados ao público presente os candidatos e as candidatas indígenas que irão concorrer nas eleições gerais deste ano. Entre as pré-candidatas estavam Sonia Guajajara, que é vice na chapa à presidência da República com Guilherme Boulos, do PSOL, e Joênia Wapichana, como deputado federal pela REDE, em Roraima.

O líder Kayapó está inquieto com a campanha eleitoral dos brancos, em especial, com o pré-candidato do PSL à presidência da República, deputado federal Jair Bolsonaro. “Por que ele tem essa ideia de acabar com terra indígena? Acabar com terra indígena?”, questiona, que também fala sobre o filho do político, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Não são bons para nós”, diz Megaron Txucarramãe no depoimento à Amazônia Real:

Cacique Megaron Txucarramãe no ATL 2018 (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

“No primeiro dia de acampamento, eu falei da minha preocupação… Uma série de coisas estão acontecendo no Brasil. Tem muito tempo que eu venho acompanhando, as mudanças dos Presidentes da República, que prejudicam a Funai. A Funai foi criada para cuidar do índio, da saúde do índio, da demarcação de terras, preservar a terra e a cultura dos índios.

E agora vêm pessoas que são pré-candidatas à presidência da República… Vou falar o nome. O capitão do Exército Jair Bolsonaro: fala que se ele for eleito, não vai demarcar um centímetro de terra para os indígenas. Se ele for eleito Presidente da República, ele diz que vai integrar o índio na sociedade dele. E isso nos preocupa… Pessoas que são contra a nossa terra, vêm planejando e falando esse tipo de coisas.

Isso preocupa, pois se ele integrar o índio na sociedade do branco, o índio vai viver pior do que as pessoas que moram na favela, do que sem teto, do que sem terra… assim que eu vejo. Muitos índios não têm preparo ou estudo para sustentar a sua família [na cidade]. Na aldeia, na terra dele, o índio sabe fazer as coisas que tradicionalmente aprende e vem fazendo até hoje. Na sua terra, no seu lugar. Mas agora, com essa ameaça, é muito perigoso, para o futuro dos nossos povos indígenas… E é isso que me preocupa.

Ele [Jair Bolsonaro], e todos os candidatos, poderiam falar para a opinião pública para resolver outros problemas, problemas que estão acontecendo na cidade grande, no interior, dividir terra pra todo mundo, sem mexer na nossa terra. Tem muita terra. Por que ele tem essa ideia de acabar com terra indígena? Acabar com terra indígena?! Ele tem (eleva o tom indagatório) que prometer que, se ele for eleito, ele vai acabar com problemas de corrupção, assalto, problemas da vida nas favelas, de sem teto, de sem terra, do povo que está sofrendo.

Por que ele quer fazer isso com nós indígenas? Ele é muito perigoso para nós. Só porque ele quer usar nós indígenas… falar publicamente, e aí muitos brancos que não gostam de nós, vão votar nele. Integrar o índio na sociedade?! Vai morrer índio, índio vai acabar. Ele, Jair Bolsonaro, e Eduardo Bolsonaro (deputado federal pelo PSL), que é o filho dele, não são bons para nós. O que é que nós fizemos para ele? Índio não invadiu o apartamento dele. Índio não invadiu a fazenda dele. Por que ele tem que invadir, acabar com nossa terra?

Megaron na marcha do protesto no Ministério da Justiça (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

Pergunta – O que o senhor pensa da juventude indígena organizada politicamente?

Essa é a segunda vez que eu estou participando do Acampamento Terra Livre. E eu vejo a necessidade da juventude inteira, de todo o Brasil, se unir. Com uma geração que entende melhor o português, tem que se unir para discutir os problemas de cada uma de suas comunidades. Muitos jovens já têm estudo, têm faculdade. É importante ter um líder que possa unir todo mundo, e nós, da base, vamos dar o apoio a eles. Mas é importante eles se unirem para discutirem problemas de saúde, de terra, de gente que não gosta de índio, de preconceito. O que nós (refere-se, indignado, aos que não gostam dos indígenas) fizemos contra eles?

Ouvi um deputado falando que índios Cinta-Larga estavam roubando os diamantes dele. Mas de quem é o diamante!? Hum… Quem está roubando? Que é isso… roubando? Não aceito isso! Por essas coisas que a juventude tem que unir. E o Acampamento Terra Livre precisa perguntar a cada povo indígena, a cada liderança, como está a situação em sua terra, como está essa divisão com indígenas, que se aproximam de ruralistas.

Eu queria mandar essa mensagem ao povo brasileiro. Se puderem me escutar, me escutem. Muitos brasileiros não conhecem os indígenas, não sabem quem é o meu povo. Por isso tinha que ter uma educação, história de verdade. Ensinar quem são os índios, quem estava aqui primeiro… É isso o que eu tinha pra falar.”

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Fonte: http://amazoniareal.com.br/os-bolsonaro-segundo-o-cacique-megaron-txucarramae/

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