O mês de setembro já é tradicional para as etnoregiões da Raposa e Surumu, localizadas na terra indígena Raposa Serra do Sol, pois é o mês em que promovem as Feiras Regionais de Produção Sustentável. Ocorridas na mesma data, 7 a 9 de setembro, mas em locais diferentes, a feira regional da Raposa, foi no Centro Regional Lago Caracaranã e do Surumu, na comunidade indígena do Barro.

O coordenador geral do CIR, Enock Barroso Tenente, participou da abertura da feira regional da Raposa. ( Foto: J.Filho)

São atividades regionais planejadas e utilizadas como um espaço de exposição, vendas e trocas de produtos agrícolas, mas também um espaço de fortalecimento do trabalho coletivo realizado durante todo o ano. A iniciativa também busca incentivar não só comunidades indígenas da Raposa Serra do Sol, mas de outras terras indígenas do estado de Roraima.

A feira regional é um trabalho coletivo das comunidades indígenas. ( Foto: J.Filho)

Os eventos, também ocorrem em um cenário importante para os povos indígenas, que avançam na gestão da terra indígena Raposa Serra do Sol, tendo como principal incentivo à construção e estruturação dos Centros Regionais, utilizados para a organização, articulação e efetivação do planejamento regional, principalmente, das feiras regionais.

Produção agrícola de qualidade das comunidades indígenas da Raposa
( Foto: J.Filho)

Com uma diversidade produtiva, melancia, batata, banana, carne bovina, farinha, artesanatos e outros produtos compartilhados na feira, a região da Raposa realizou a IV edição. Apesar das dificuldades, estradas esburacadas, pontes danificadas, falta de transporte para escoar a produção e outros, inclusive o período chuvoso que dificultou o acesso de muitas comunidades, conforme relatou o coordenador regional da Raposa, Valério Eurico, mas as comunidades indígenas conseguiram chegar com seus produtos agrícolas.

Como alternativa da geração de renda na região, ao longo dos três dias de evento, as comunidades indígenas também aderiram à modalidade esportiva, que compõe a programação da feira, além da programação cultural com danças e cantos tradicionais.

A Feira da região Surumu, trouxe como destaque de produção agrícola, a banana, produção do agricultor e líder indígena Walter de Oliveira, da comunidade indígena São Miguel da Cachoeira, localizada na fronteira entre o Brasil e Venezuela. Para a feira, o líder trouxe uma boa safra de banana, tanto para venda quanto para doação durante o evento, um total de 62 cachos de banana diversas.

O líder Walter de Oliveira e sua esposa dona Santinha, com orgulho comercializam a produção de banana.
( Foto: Mayra Wapichana)

Walter de Oliveira, contou que tiveram a iniciativa de realizar a feira em 2015, ele e outras lideranças indígenas da região, para unir mais as comunidades indígenas, fortalecer o trabalho coletivo e outras ações, como forma de avançarem nos trabalhos após a homologação da Raposa Serra do Sol. Lembrou-se dos discursos anti-indígenas de que “depois da homologação os indígenas iriam passar fome”, então resolveram promover as feiras regionais.

“Estamos realizando a IV edição da feira e as pessoas que diziam que a gente não tinha condições de produzir, chegam até a comprar a produção das comunidades indígenas”, pontuou Walter, sobre a movimentação em torno da feira realizada na comunidade indígena Barro, um local marcado pelo conflito, mas que já respira uma convivência mais tranquila.

Oliveira pontuou também as dificuldades enfrentadas pelas comunidades indígenas, tais como o acesso precário para o escoamento da produção, pontes danificadas e até a própria fronteira, por onde comunidades indígenas do Centro Pedreira, que passam por três barreiras de fiscalização tanto no lado venezuelano quanto no Brasil. Às vezes, os indígenas são impedidos de escoar a produção de banana por conta da fiscalização que há nos dois lados.

Estudantes do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol e o líder Walter de Oliveira, na Feira Regional. ( Foto: Mayra Wapichana)

Como produtor de banana, um dos potenciais da região, Walter de Oliveira e toda família pediram apoio para superar essas dificuldades de escoamento da produção, principalmente, em relação à fiscalização na fronteira, que tem sido uma das principais dificuldades. Ano passado, a comunidade indígena São Miguel realizou o I Festival da Banana e a perspectiva é que haja a segunda edição no próximo ano.

“A terra para nós é um passo fundamental e importante, porque sem a terra definida a gente não tinha segurança de trabalhar. Mas, hoje, a gente tem um olhar firme porque a terra já é nossa, então a gente pode trabalhar de forma planejada, para não estragar a nossa terra. Ter a nossa área de produção, para que escola, a comunidade e todos se sintam satisfeitos com a produção que vem da terra. Então, a terra é fundamental para a produção agrícola e animal, porque também nós temos uma boa criação de animais”, refletiu o líder sobre a importância da terra para o povo indígena.

Durante a feira, houve também a participação dos estudantes indígenas do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), com a apresentação do projeto Vaga Lume de incentivo à leitura e produção de cartilhas de histórias regional. Uma parceria do Centro Indígena e o Projeto, executado nas escolas da região.

Cartilha conta sobre a história regional. (Foto: Mayra Wapichana)

O professor e coordenador administrativo do Centro, Bleide de Souza, considerou a feira como um “fortalecimento para o trabalho do centro na área de agricultura e pecuária, assim como um espaço de fortalecimento dos alunos que tiveram a oportunidade de apresentar os resultados do projeto Vaga Lume, com a produção de cartilhas de histórias regionais e desenhos que expressam as belezas naturais da Raposa Serra do Sol”.

A feira regional do Surumu que também chegou a sua IV edição surgiu com o lema “desenvolvimento e autonomia”. Um espaço e oportunidade que os produtores indígenas têm para fortalecer o trabalho na área de agricultura, pecuária e gestão territorial.

Ao longo dos anos a produção vem crescendo, mas também é bastante castigado devido o verão forte, causando perdas em grande parte da produção. Porém, apesar dos desafios climáticos e outras dificuldades, as comunidades indígenas não se desanimam.

Pelo contrário, sempre há motivos importantes para acontecer, anualmente, pois é um evento coletivo, que conta com a participação dos jovens, mulheres, professores, Tuxauas e outros colaboradores.

Esse ano, a motivação vem pela construção do Centro Regional 15 de Abril, nome dado ao centro regional em alusão ao decreto de homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, conforme relatou o coordenador regional Lourival de Oliveira.

Para Lourival, a feira é uma esperança de mostrarem ao mundo que os povos indígenas da Raposa Serra do Sol produzem alimentação saudável e que, a demarcação veio para reafirmar garantia de vivência em um território indígena que é originário, um território que é a mãe de todos que nela habitam.

“A nossa iniciativa da feira regional vem com uma esperança para futuramente mostrarmos ao mundo que estamos produzindo alimento saudável e darmos resposta de que Raposa Serra do Sol não foi um erro, foi um acerto, porque é dela que tiramos o nosso sustento e é ela, que é a nossa mãe”, disse o coordenador reafirmando que o território é tradicional, originário dos povos indígenas que ali habitam.

“Sem alimentação não temos educação, não temos saúde. Então, a terra para nós, é essa base de alimento, a nossa mãe e sempre vamos lutar por ela”, concluiu o coordenador em uma expectativa boa de inaugurar o Centro Regional para dar mais apoio aos demais eventos regionais, principalmente, nos trabalhos planejados na área de agricultura e pecuária, com uma produção bovina que chega a sete mil bovinos em toda região.

Lenilza de Oliveira Alves, da comunidade São Miguel trouxe saias da fibra de buriti para comercializar na feira.
( Foto: Mayra Wapichana)

As feiras também são espaços de valorização, fortalecimento da cultura indígena e dos costumes tradicionais, danças, cantos, línguas, artesanatos, pinturas, contos e outras expressões culturais, manifestadas pelos jovens, crianças, principalmente, pelos anciãos (ãs) das comunidades indígenas. Entre as anciãs tradicionais, os povos indígenas de Roraima, especialmente, da Raposa Serra do Sol contam com a memória viva da pajé Mariana Tobias de Lima, do povo Macuxi, que sempre participa dos eventos.

Pajé Mariana, falante da língua Macuxi, relembrou que antes de sair à homologação da Raposa Serra do Sol, as comunidades já pensavam em fazer a feira, mas não era possível com tanto conflito, ameaça e destruições que passavam. Antes, a preocupação era com a demarcação da terra.

“Saiu a nossa demarcação e hoje, temos a nossa produção de banana, batata, beijú, damurida, peixe, farinha, pimenta e outras produções que estamos apresentando”, afirmou Mariana com uma expressão mais feliz devido à conquista da terra.

A anciã também não pôde deixar de manifestar sua preocupação com as invasões que ainda existem e que vem crescendo na região do Surumu e na terra indígena Raposa Serra do Sol. Anualmente, lideranças indígenas da região denunciam na Assembleia Geral dos Povos Indígenas, a permanência de indenizados na região do Surumu, mas nenhuma providência é tomada pelos órgãos competentes, principalmente, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) que já é ciente dos casos.

A feira também é um fortalecimento das mulheres indígenas da região que utilizam o espaço para exposição e venda dos seus produtos, troca de experiência e de vivência de luta e resistência. Marciliana Luis Silva, uma das mulheres indígenas da região Surumu que participa do movimento há muito tempo, ex-coordenadora regional de mulheres e detentora de conhecimentos tradicionais, cantos, danças e do artesanato, tem a preocupação de repassar os conhecimentos à nova geração, segundo ela.

Participação de mulheres e crianças na feira regional. ( Foto: Mayra Wapichana)

Vendendo um pouco de cada, brincos, colares, saia de palha de fibra de buriti, Marciliana acredita que repassar os conhecimentos tradicionais aos jovens é o caminho mais importante para não perder os conhecimentos, assim como as avós faziam. “Eu tenho incentivado, como mulher, sempre falando com os jovens de sermos o que somos, porque hoje, vêm outras formas de convivência que não é nosso. Então, vamos valorizar o nosso trabalho, de roça, artesanato e também de cantos tradicionais”, considerou Silva, incentivando a juventude a valorizar os conhecimentos tradicionais.

Mulheres utilizam sementes da região da fazer colares. ( Foto: Mayra Wapichana)

Centros regionais: um instrumento de governança e autonomia dos povos indígenas de Roraima

Centro Regional do Surumu em fase de conclusão. ( Foto: Mayra Wapichana)

Com 32 terras indígenas homologadas, tanto demarcadas em ilhas quanto as contínuas, um dos principais desafios dos povos indígenas de Roraima, hoje, é a gestão desses territórios indígenas. Uma gestão que preserve o meio ambiente e os seus recursos naturais, promova a geração de renda, fortaleça a autonomia, a cultura e o bem estar coletivo dos povos indígenas.

Buscando contribuir com esse desafio, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), desde 2014, em parceria com a entidade Embaixada da Noruega que, há a mais de 15 anos apoia a organização, executa o projeto de apoio à construção e estruturação de centros regionais.

O projeto contempla a construção dos centros, onde funcionam como base de apoio para a realização de atividades e articulação da região, como reuniões, assembleias, eventos culturais, feiras regionais, entre outras atividades desenvolvidas pelas regiões, porém, o principal objetivo é a operacionalização dos escritórios para a elaboração e execução de projetos na linha de desenvolvimento sustentável e o fortalecimento regional.

Os primeiros centros regionais concluídos são das regiões, Baixo Cotingo e Raposa, e em fase de conclusão, Serra da Lua, Surumu, Amajari, Serras, Tabaio e Murupú. Para a estruturação dos centros, nesta atual etapa do projeto, foram adquiridos materiais de escritórios como, mesas, cadeiras, armários, notebooks, impressoras, câmeras fotográficas e outros equipamentos necessários que auxiliarão na execução plena do projeto.

Os equipamentos foram entregue aos coordenadores regionais para o devido uso. Um dos coordenadores regionais a receber os materiais, foi Clovis Ambrósio, da etnia Wapichana, coordenador regional da Serra da Lua, ex-coordenador do CIR, nos de 1991 a 1992, e um dos fundadores da organização e do movimento indígena de Roraima.

Para ele, que foi um dos responsáveis pela construção da própria sede do CIR, a construção dos centros regionais é um dos avanços dos povos indígenas depois da conquista territorial. “Vejo como uma continuidade do trabalho e melhoria na região. Então, o CIR, como organização representativa da população indígena no Estado, também vemos esse início de implantação de projetos sustentáveis para dentro das comunidades indígenas”, destacou Clóvis, afirmando também que o momento é de divulgar o trabalho da organização para as comunidades, após a demarcação das terras indígenas.

O projeto também contempla a capacitação de projetistas indígenas indicados pelas suas regiões. No início do ano, houve mais um encontro dos projetistas indígenas que estiveram reunidos na sede do CIR junto com os coordenadores regionais, coordenadores de juventude e das mulheres indígenas para concluírem a elaboração da atual etapa do projeto.

Participaram do encontro, as regiões Raposa, Surumu, Tabaio, Murupu e Serra da Lua.

No final do mês de março também foi realizado o encontro entre a Embaixada da Noruega, as coordenações regionais e o CIR, onde foi reafirmada a parceria do projeto com a inclusão de mais dois centros nas regiões, Tabaio e Murupú.

Um dos centros mais estruturados é o Centro Regional Lago Caracaranã, na região da Raposa, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, concluído com recurso do projeto e das próprias comunidades indígenas. Hoje, o Centro presta apoio às atividades da região na área da saúde, educação, sustentabilidade e aos grandes eventos, como a Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, que já ocorreu no Lago Caracaranã por cinco vezes consecutivas.

Outra atividade que já é tradicional no Centro, trata-se da Feira Regional de Produção Agrícola, realizada anualmente no mês setembro, reunindo produtores indígenas e artesãos, para exposição e comercialização de produtos orgânicos da região.

A construção dos centros regionais é um dos grandes desafios do CIR e das regiões nos próximos anos e que depois de uma árdua luta pela conquista dos territórios, tem hoje, o apoio de implementar algumas ações.

Fonte: http://www.cir.org.br/site/?p=823