No Ano Internacional das Línguas Indígenas, os povos Kaingang e Krenak do estado de São Paulo comemoram o lançamento de duas obras que tratam do regaste de suas línguas originárias. As publicações são resultado do Programa de Revitalização de Línguas Indígenas no estado, uma parceria iniciada em 2013 entre a Funai, por meio da Coordenação Regional Litoral Sudeste, a ONG Kamuri e o grupo de pesquisa InDiomas da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.

Capa: Na casa da indígena Dona Ena, os linguistas conversam com os últimos falantes para corrigir detalhes do Dicionário 

Dia 17, a aldeia Icatu, do Povo Kaingang, em Braúna/SP, recebe o lançamento do primeiro Dicionário Escolar do Kaingâk Paulista. A publicação de cerca de 300 páginas traz aproximadamente três mil verbetes ilustrados por quase 200 imagens. Terceiro maior povo indígena do Brasil, os Kaingang têm uma população de cerca de 40 mil pessoas, que vive majoritariamente no Sul do país. Em São Paulo há duas aldeias, remanescentes dos últimos grupos Kaingang a entrar em contato com os brasileiros em 1912. No estado, a Funai também desenvolve projetos de revitalização com a língua Nhandewa Guarani.

Dia 16 de abril, a aldeia Vanuíre, localizada no município de Arco-Íris (SP) e que abriga a comunidade Krenak, sediou o lançamento de duas obras: o Vocabulário Unificado Krenak (Botocudo), que reúne os três principais vocabulários dessa língua registrados no século XIX; e mais um texto etnográfico sobre os Botocudos do Leste do Brasil escrito por Curt Nimuendajú – traduzido da publicação em inglês, de 1946.

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ldeia Vanuíre: indígenas Krenak se reúnem com o pesquisador da Unicamp, prof. Wilmar D’Angelis

O coordenador regional, Cristiano Vieira, testemunhou o ressurgimento das línguas Krenak e Kaingang nesses cinco anos de projeto desenvolvido nas aldeias paulistas. “Vimos um grande avanço não só na revitalização dessas línguas, fortemente ameaçadas de desaparecimento, mas muitos ganhos positivos nos aspectos subjetivos da cultura. O projeto contou com o envolvimento dos últimos falantes das línguas, não raramente já idosos e adoentados, e com o processo de interação deles com professores e alunos indígenas”, relata o chefe da CR Litoral Sudeste.

Houve mudanças também no ambiente da educação formal, afirma a servidora da Funai, Karina Midori Ono, do Serviço de Promoção dos Direitos Sociais e Cidadania/Funai. “O espaço escolar foi transformado em local para trabalhar a língua nativa daquela comunidade, seus costumes, suas tradições, pois trabalhar a língua envolve diversos outros aspectos. Durante esses anos de projeto, alguns falantes que contribuíram ativamente na produção de conteúdo das oficinas e dos livros que hoje estão prontos, já se foram, acometidos por doenças ou pela velhice. Nossa satisfação é poder ter colaborado para que suas memórias fossem guardadas e transmitidas às gerações futuras”, afirma a servidora.

livro kaingangUm idioma renascido

 

De acordo com o professor e pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Wilmar D’Angelis, “o dialeto paulista da língua Kaingang apresenta diversas particularidades com respeito aos dialetos da mesma língua falados no Sul, e o dicionário que está sendo lançado resulta de um denso trabalho técnico para registrar, com os últimos falantes nativos (atualmente são sete pessoas idosas), o máximo possível do seu léxico”.

O professor explica que o termo Botocudo referente ao Povo Krenak “é uma denominação dada por portugueses aos antigos Aimorés, um conjunto de etnias próximas, falantes de mesma língua, que povoavam todo o Leste de Minas Gerais, e parte do Espírito Santo e Bahia. O trabalho de estudar os vocabulários do século XIX, transpô-los para uma escrita fonética unificada (o Alfabeto Fonético Internacional) e, a partir disso, unificá-los na forma da ortografia atual dos Krenak, foi feito por outro acadêmico da área de Linguística da Unicamp, o professor e pesquisador Pedro Frassetto”.

D’Angelis destaca que o Programa de Revitalização de Línguas Indígenas apoiado pela Funai vai promover também o lançamento de mais uma obra voltada para o estudo das línguas indígenas, no caso do Povo Nhandewa/Tupi-Guarani: Lições de Gramática Nhandewa/Tupi-Guarani vol. 2 – Caderno de Atividades Multidisciplinares.

Fonte: http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/5344-povos-kaingang-e-krenak-sediam-lancamento-de-livros-sobre-linguas-indigenas