Há mais de um mês em isolamento para evitar a contaminação pela covid-19, os moradores da comunidade indígena Canauanim, na região Serra da Lua, a 25 km de Boa Vista (RR), receberam alimentos e, pela primeira vez, orientações sobre como se proteger da doença. A ajuda foi articulada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) junto ao Fundo Baobá.

De acordo com Leilandia Cadete Wapichana, que é tuxaua da comunidade, os 1300 mil e trezentos moradores (288 famílias) entraram em confinamento no dia 28 de março frente à ameaça do novo coronavírus. Para garantir a proteção, uma barreira sanitária foi instalada logo na entrada da comunidade para permitir somente a circulação de pessoas que vivem na comunidade.

Tuxaua da Comunidade Canauanim, Leilandia Cadete Wapichana

Representando o povo da sua comunidade, a liderança disse que ainda não houve casos confirmados da doença em Canuanim, mas que todos estão muito assustados e sem o apoio de órgãos como a prefeitura a falta de informações sobre a doença a também preocupa.

“Precisamos de mais informações, não tem apoio da saúde, para passar de casa em casa explicando sobre o novo coronavírus, estamos fazendo o que a gente pode o resto é Deus”, lamentou.

A barreira sanitária instalada pelos próprios moradores na entrada da comunidade é composta por vinte lideranças entre jovens, pais de famílias e os GPVITis, Grupos de Proteção Vigilância Indígena Territorial. Quem chega é orientado sobre os cuidados para evitar a doença, como uso de itens de proteção, higiene e o isolamento nas suas casas.

Barreira sanitária da comunidade Canauanim

“Estamos aqui na barreira para evitar a entrada de pessoas entranhas na nossa comunidade, fazemos algumas orientações sobre o coronavírus, para os nossos parentes usarem mascaras álcool em gel e evitar sair da comunidade”, disse o coordenador do GPVITI, Luis Hernandes.

Coordenador do GPVITI, Luis Hernandes

Preocupado com o povo de Canauanim, o Conselho Indígena de Roraima articulou um projeto para o Fundo Baobá, que logo de imediato atendeu à solicitação. A ajuda foi destinada especificamente para a comunidade Canuanim. Com isso, foram distribuídos na comunidade gêneros alimentícios, kits de higiene e combustíveis, além de banner e folders informativos sobre como se proteger do novo coronavírus.

Folders informativos sobre o novo coronavírus

A comunidade Canauanim

Acesso as comunidades indígenas da T.I Canauanim.

A Terra Indígena Canauanim foi homologada possui 11.182.437 hectares. A organização social da comunidade é feita da seguinte forma: A T.I é composta por três comunidades: Campinho, Barro Vermelho e Flexau. Cada um tem a sua autonomia, são sete capatazes (também chamado de coordenadores de trabalho). A maioria da população é da etnia wapichana. A reunião comunitária é realizada todo dia 5 de cada mês, mas no momento está suspensa devido à pandemia do coronavírus.

Segundo a tuxaua Leilandia Cadete Wapichana, o nome da comunidade nasceu da língua wapichana, Kanawa “u”, que significa canoa. A Terra Indígena do Canauanim foi criada por força de Decreto Presidencial de 15 de fevereiro de 1996, que homologou a demarcação da Terra Indígena.

Na comunidade há um retiro de gado com quarenta reses e uma roça comunitária que é mantida pela coletividade entre jovens, mulheres e escola. A maior produção no local é a de farinha de mandioca. A tuxaua Leilandia explicou que, “caso alguém da comunidade precise de algum item da roça é livre para consumir”. “Toda sexta feira temos trabalho comunitário aqui. Temos o ajuri que onde um ajuda o outro nos seus trabalhos, seja na roça ou em outro tipo de atividade”, disse a liderança.

Ainda conforme Leilandia a comunidade dispõe de um regimento interno, ou normas. Regimento interno ou normas, são leis indígenas, elaborados pelas próprias comunidades para fortalecer a autonomia no âmbito da sua organização social política, culturais e econômicas. “Tudo o que fazemos está amparado no nosso regimento”, destacou.

A Tuxaua comenta ainda sobre os sonhos para o futuro da comunidade. “Temos sonhos de realizar grandes projetos, temos a roça comunitária, projeto do gado, temos a necessidade de aumentar o nosso retiro e o desejo de fazer uma criação de peixe, mas nada é impossível quem sabe um dia nós realizaremos esse sonho”, disse.

A comunidade segue em isolamento na força indígena e em conjunto, na esperança de dias melhores.

Fotos: Márcia Fernandes e Edinho Batista