Nos interessa perceber mais uma tentativa de branqueamento de um estado que recusa sua negritude e seus traços indígena

Yasmim Rodrigues*
“negros indígenas que compõe esse Estado, com seu corpo, cultura, saberes e trabalho não deixarão que isso passe, literalmente, em branco.” – Fotos: Thiara Montefusco

Uma pesquisa publicada no jornal Diário do Nordeste na última segunda-feira (27), realizada nas dependências da Universidade Federal do Ceará (UFC), com amostra de 160 pessoas, revelou a “origem nórdica dos cearenses”. O ano é 2020, mas pode ser facilmente confundido com os anos finais do século XIX, nos interessa aqui perceber mais uma tentativa de branqueamento de um estado que recusa sua negritude e seus traços indígenas.

Voltemos um pouco para nos compreendermos enquanto povos do Ceará. Ainda na nossa condição de província, o argumento utilizado, sobretudo pelo Instituto Histórico do Ceará, fundado em 1887, era de que nunca fomos uma terra de negros porque nossas atividades econômicas não eram características dos trabalhos desenvolvidos por africanos escravizados no restante do Brasil, os caminhos do Ceará foram os caminhos do gado e a prática escravista era agrícola, logo a presença negra em terras cearenses seria quase nula, associando assim, de forma perversa, os negros à escravidão, como única condição social possível para esse grupo.

As produções historiográficas conservadoras do Ceará, como é o caso do Instituto Histórico, defenderam de forma desesperada o desaparecimento gradativo de negros e indígenas, a intensão era literalmente muito clara, a construção do Ceará moderno e progressista, a partir da abolição, só seria concreta sem negros e indígenas, isso significa que seria preciso uma literatura, historiografia que edificasse o Ceará branco e narrasse o desaparecimento desses povos.

Os anos finais dos oitocentos foram marcados pelo processo de branqueamento da população, a disseminação de um projeto de Brasil genuinamente branco, como defendeu João Batista de Lacerda, no I Congresso Universal das Raças, em 1911. Todavia, se aqui tivéssemos espaço para uma análise minuciosa dos números, eles provariam exatamente o contrário da narrativa institucional cearense, com uma ressalva, o projeto branqueador também compõe os censos populacionais, onde as designações raciais que enfatizaram uma população mestiça coadunam com o ideal de uma supremacia branca vigente, e isso não ingênuo.

Assim como não tem ingenuidade, em um ano onde as emissoras foram pressionadas a mostrar a violência racial secular sofrida pelos negros uma pesquisa vem mais uma vez corroborar com a negação violenta e racista da presença de negros e indígenas no Ceará. A “terra da luz” de repente virou “terra de nórdicos”, mas negros indígenas que compõe esse Estado, com seu corpo, cultura, saberes e trabalho não deixarão que isso passe, literalmente, em branco.

*Historiadora e Ativista Negra. Doutoranda em Historia Social pela UFC

Edição: Monyse Ravena

Fonte: https://www.brasildefatoce.com.br/2020/07/29/artigo-ceara-de-terra-da-luz-a-terra-de-nordicos