Sua trajetória como líder católico é marcada pela defesa das causas indígenas e da reforma agrária na região (Foto de Bárbara Lopes)


Por Marcio Camilo e Maria Fernanda Ribeiro, da Amazônia Real

Cuiabá (MT) – O bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), Dom Pedro Casaldáliga, de 92 anos, está na internado na Santa Casa de Misericórdia de Batatais, interior do estado de São Paulo, desde terça-feira (7) à noite, após uma semana internado em um hospital no nordeste de Mato Grosso, por problemas respiratórios e agravamento da doença de Parkinson. O líder católico tem sua trajetória marcada pelas causas indígenas, pela reforma agrária e por estar sempre ao lado dos mais pobres.

O boletim médico da Santa Casa de Misericórdia, divulgado nesta quarta-feira (6), diz que o religioso foi submetido a uma tomografia, que identificou um quadro de pneumonia e uma grande quantidade de líquido no pulmão esquerdo. Foi realizado um procedimento para drenar 600 ml de líquido, que gerou um conforto respiratório bastante significativo no bispo emérito de São Félix, segundo o hospital.

“É claro que isso é uma parte do tratamento, que agora continua com antibióticos de largo espectro, haja vista que ele estava internado numa outra instituição hospitalar, então a gente fez uma cobertura mais ampla desses germes”, disse o médico Antônio Marcos Barbosa, responsável pelo tratamento de Dom Pedro na Santa Casa de Batatais.

Ele também destacou que antes de ser transferido, Dom Pedro fez três testes de Covid-19 que deram negativo, em São Félix do Araguaia. Já em Batatais foi feito um teste rápido que também deu negativo para a doença. “Então, é uma hipótese descartada”, reforçou o médico.

Dom Pedro Casaldáliga (Foto Wilson Dias/ABr)

Antônio Marcos Barbosa disse também que, embora o quadro de saúde do bispo exija muita atenção devido à sua idade avançada, Dom Pedro apresenta boa pressão arterial e “um vigor cardiológico muito bom, apesar de seus 92 anos de idade”. “Esperamos que nos próximos cinco dias possamos trazer informações mais felizes, quiçá da alta dele do hospital”, afirmou Barbosa.

Ainda jovem, Dom Pedro sofreu uma forte pneumonia que deixou uma sequela permanente em seu pulmão. Por isso, a maior fragilidade deste órgão é a mancha que permanece na região. Apesar da saúde delicada, acompanhada da idade, o quadro é considerado estável.

Na manhã da terça-feira (04), a Prelazia de São Félix chegou a divulgar nota para desmentir informações de que o bispo havia falecido, e informou que ele seria transferido a qualquer momento para a comunidade dos padres claretianos. O local, conforme a Prelazia, possui “uma estrutura de excelência para atendimento aos idosos e enfermos da congregação”, e a comunidade se dispôs “acolhê-lo com todo carinho”.

Ainda de acordo com a Prelazia, a transferência dele, em um avião “teco-teco”, estava prevista para segunda-feira (03). No entanto, houve um agravamento nas condições de Dom Pedro. “[…] o médico de São Félix avaliou que seria muito complicada esta transferência, e Pedro poderia não resistir a uma viagem nestas condições. Com isso foi suspensa e foi buscada uma UTI Aérea para a transferência. Isto acontecerá, hoje (04), a qualquer hora”, enfatizou trecho da nota.

Dom Pedro Casaldaliga (Foto do Vatican News)

Para o bispo da Diocese de Xingu-Altamira, Dom João Muniz Alves, o colega Dom Pedro tem um legado de doação e presença junto ao povo de sua igreja particular e é um dos maiores profetas da atualidade. “Dom Casaldáliga é um ícone da Igreja do Brasil, uma voz profética em favor da vida e dos direitos dos indígenas e lavradores. Sofreu ameaças de morte e permaneceu firme na missão. Com 52 anos de presença na Amazônia, Casaldáliga enraizou-se na cultura de nosso povo e tornou-se um de nós. Deus seja louvado por este apóstolo da esperança e do amor que se doa até o fim”, disse Dom João,

Dom Adriano Ciocca, atual bispo da Prelazia de São Félix, destacou que Dom Pedro “está com um problema pulmonar sério.”

“Há dois meses ele já foi hospitalizado por causa disso, mas conseguiu reagir e recuperar. Dessa vez está com mais dificuldades, porque o mal de Parkinson e a idade enfraqueceram ainda mais ele”, acrescentou em áudio encaminhado à reportagem da Amazônia Real.

O diretor de teatro Flávio Ferreira, amigo de longa data do bispo, lembrou que há dois anos o bispo já esteve em Batatais para tratar de problemas respiratórios semelhantes. No entanto, ponderou que devido à idade avançada do líder católico, sempre há um receio de removê-lo de São Félix.

“Isso virou uma discussão nos últimos anos, entre os familiares e médicos, sempre que há necessidade de transferi-lo, principalmente por causa da idade. Uns aprovam e outros não”, ressaltou Ferreira, que já produziu peças teatrais em homenagem a vida e obra de Casaldáliga. “Nesta época do ano é comum Dom Pedro ser internado por causa do período de seca. Isso provoca muita falta de ar nele, que já tem os problemas pulmonares e é de idade avançada”, completou.

Com agravamento de saúde de Dom Pedro nos últimos dias, muitas pessoas, nas redes sociais, mandara vibrações positivas, além de postarem poemas e fotos históricas do bispo ao lado de importantes lideranças políticas.

A liderança indígena Claudio Xavante postou um poema de Dom Pedro, sobre o “ser” e o “ter”, feito em 1984, durante a fundação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Assim escreveu o bispo:

“Não ter demais.
Não ter só para si.
Não ter às custas dos outros.
Ter para servir.
Fazer com que todos tenhamos o mesmo.
Não ser “tidos” por nada.
Bem-aventurados os que sabem ser e deixar de ter.
Porque deles é o Reino.
Paz e Bem!!”

Já Silvio Luiz Sant’Anna escreveu em sua página do Facebook: “O dia em que cada cristão tiver a mesma determinação que Dom Pedro  Casaldáliga estaremos vivendo o Reino de Deus na Terra”.

Em novembro do ano passado, a reportagem da Amazônia Real esteve com Dom Pedro, na casa dele em São Félix. Ele já não andava e nem falava mais, mas a audição estava preservada e com acenos de cabeça mostrava que estava ali. Seis meses antes, uma queda contribuiu para que o estado de saúde já debilitado, devido à idade e ao Parkinson, se agravasse e toda a locomoção era feita na cadeira de rodas e com a ajuda dos cuidadores.

O enfrentamento da ditadura militar 

Dom Pedro Casaldáliga (Foto de CEBs do Brasil)

Dom Pedro Casaldáliga nasceu na Espanha em 1928 e ficou conhecido por sua luta pela defesa dos direitos humanos – especialmente dos povos indígenas –, sendo um dos principais expoentes da Teologia da Libertação no Brasil. Ganhou projeção nacional e  internacional por denunciar os grandes latifúndios de São Félix do Araguaia que começaram a se estabelecer na década de 1970.

Em plena Ditadura Militar, não se calou diante dos desmandos que começou a perceber assim que chegou à Prelazia de São Félix, em 1968. Publicou uma série de cartas abertas à população relatando as desigualdades na região, agravadas pela grande concentração de terras nas mãos de poucos.

Por seguir os ensinamentos de Cristo, pagou um preço alto por isso, sendo preso e perseguido pelos militares: “Como é bom ser perseguido pela causa do Evangelho, da Justiça e da total libertação!”, escreveu na ocasião em que foi submetido ao cárcere privado.

Ainda na década de 70 escreveu a carta intitulada “Uma igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”. O documento alcançou outros importantes teólogos, como Frei Betto e Leonardo Boff, e trouxe São Félix do Araguaia – uma pequena cidade do interior brasileiro – para o debate nacional sobre a importância da reforma agrária e das lutas sociais, além de reforçar, dentro da igreja Católica, o movimento da Teologia da Libertação.

“Na década de 70, a percepção da dimensão da figura do Pedro era outra. Ele teve uma projeção nacional e internacional muito grande”, disse a escritora Ana Helena Tavares, em entrevista à Revista Carta Capital, em maio do ano passado. Na oportunidade a autora lançou uma biografia do líder intitulada “Um bispo contra todas as cercas”.

Mais recentemente, em julho passado, Dom Pedro assinou uma carta, em conjunto com outros 154 bispos da Igreja Católica, tecendo duras críticas ao presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). Na carta foi destacado que o Governo Federal “é apático”, “omisso” e demonstra uma grande falta de interesse em atender os mais pobres, além “de incapacidade para enfrentar crises”.

Anos antes, em 2013, ele teve que sair escoltado pela Polícia Federal de São Félix do Araguaia por causa de ameaças de mortes de fazendeiros da região, inconformados com o processo de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé, do povo Xavante. À época, os produtores rurais disseram que as declarações do bispo a favor dos indígenas pela retomada do território, fez com que o Governo Federal acelerasse ainda mais o processo de desintrusão.

Dom Pedro Casaldáliga (Foto Concierto/2013)

 

Fonte: https://amazoniareal.com.br/dom-pedro-casaldaliga-defensor-dos-direitos-humanos-luta-pela-vida-06-08-2020/

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