Manaus (AM) – A maior liderança do povo Sateré-Mawé, no Amazonas, o tuxaua-geral Amado Menezes, de 64 anos, está em estado gravíssimo no hospital Jofre Cohen, no município de Parintins, na região do Baixo rio Amazonas. Vítima da Covid-19, ele está internado desde 23 de setembro, mas já deveria ter sido transferido, por determinação da Justiça, para uma UTI em Manaus. Diante do atraso na transferência, seu quadro clínico se agravou, o que o impede agora de levá-lo para a capital.

“As famílias dos pacientes têm tentado de todas as formas efetivar a transferência para Manaus, mas a via extrajudicial não tem sido útil e eles não pode mais aguardar na fila do Sister, sendo provável que muito em breve a situação se torne irreversível”, afirma a petição assinada em conjunto pelas Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE) e Promotoria de Justiça da comarca de Parintins, cidade que fica a 369 quilômetros da capital amazonense.

O Sister é o Sistema de Transferência de Emergência do governo do Estado. O cadastramento do tuxaua-geral da TI Andirá Marau no sistema ocorreu em 9 de outubro, sob o n° 2020101265, mas a liminar foi deferida por volta das 17h40 do dia seguinte. Outros seis pacientes, alguns com pedido de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), também foram incluídos no cadastro desde o dia 8. Embora a o juiz plantonista Anderson Luiz Franco de Oliveira tenha dado um prazo de cumprimento de 12 horas, a partir da notificação oficial, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou ter recebido a decisão judicial somente na segunda-feira (12).

A secretaria informou que já estava transferindo os pacientes, dois deles no fim de semana e os demais na segunda-feira. Uma das transferências foi a do indígena Supriano Felipe, 81 anos, Sateré-Mawé da aldeia Vila Nova, à margem do rio Andirá, no município de Barreirinha. Um outro paciente, de acordo com a secretaria, cancelou a transferência por recusa do paciente ou da família. Mas a transferência de Amado Menezes não teria ocorrido “pelo mesmo não apresenta condições clínicas para a realização do translado, de acordo com a avaliação do médico da unidade hospitalar” na manhã do dia 12.

Amado Menezes registrou piora no dia 09 de outubro e precisou ser intubado, de acordo com o hospital. No dia 11, o quadro se agravou por um inchaço no corpo devido ao acúmulo de fluido entre as células, decorrência de uma insuficiência renal. Há notícias desencontradas sobre o seu real estado de saúde.

O tuxaua-geral é a terceira liderança histórica da TI Andirá Marau acometida pelo novo coronavírus. Outros dois tuxauas não resistiram. O líder da aldeia Boa Vista, na região do rio Andirá, Plácido Dias de Oliveira, 80, morreu no dia 28 de setembro. Ele era um dos fundadores do Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé (CGTSM). Outra perda foi a de Otávio dos Santos, 67, da aldeia São Benedito, em 16 de abril. Ele era uma liderança dos indígenas da região do rio Marau, dentro da área do município de Maués. A TI Andirá Manaus abrangem os municípios de Barreirinha, Maués e Parintins. Ela também se estende à uma terra já no estado do Pará.

A agência Amazônia Real, em 7 de outubro, já havia denunciado a alta contaminação pelo novo coronavírus nas TIs sob jurisdição do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Parintins. Amado Menezes era morador da aldeia Ponta Alegre, a maior da área indígena, com aproximadamente mil pessoas.

Já são 187 indígenas contaminados e 7 mortos dentro do Dsei Parintins, segundo o último número divulgado em 13 de outubro. O município de Parintins é o que detém o segundo maior número de casos confirmados de Covid-19 no interior do Amazonas, perdendo apenas para Coari. Em uma semana, desde a publicação da reportagem, 234 novos casos foram confirmados, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). O município contabiliza ainda 129 mortos pela doença.

Já Barreirinha contabilizou 69 novos casos nesse mesmo período e 16 óbitos. A última morte foi registrada na segunda-feira, 12 de Outubro. De acordo com o Boletim Oficial da Covid-19 publicado no domingo (11) pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) e pela Coordenadoria da Fundação de Vigilância em Saúde de Barreirinha (FVS), o aumento de novos casos ocorre na área indígena. Já o município de Maués contabilizou 80 novas contaminações desde a publicação da matéria pela Amazônia Real e 42 óbitos, um aumento de cinco mortes nesse período.

A gravidade da pandemia

Moradias tradicionais do povo Sateré-Mawé, no Amazonas
(Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas/Amazônia Real)

Em um de seus últimos atos públicos, em 2 de junho, o tuxaua-geral Amado Menezes e outras duas lideranças do CGTSM protocolaram nota de repúdio denunciando a retirada da equipe do Dsei Parintins da barreira sanitária montada na entrada da área indígena, no Rio Andirá. O episódio enfraqueceu a força-tarefa composta pela Funai Parintins, Prefeitura de Barreirinha e indígenas.

Sem proteção, o fluxo de pessoas entre as aldeias e os municípios de jurisdição da TI Andirá Marau – Parintins, Barreirinha e Maués – causado pela dinâmica de trabalho, de visita a familiares na cidade e na aldeia, pela compra de alimentos e saques de benefícios do governo federal, intensificou a contaminação de indígenas, segundo relato de representantes de várias aldeias locais. Amado Menezes denunciava essa estrutura precária de combate ao novo coronavírus.

A ausência de medidas de bloqueio expôs ao coronavírus as comunidades da TI Andirá Marau, na região do Baixo Rio Amazonas. O que criou uma situação crítica, uma vez que o Amazonas é um Estado que só possui Unidades de Terapia Intensiva na capital. “O interior do Estado do Amazonas possui um verdadeiro deserto em oferta de UTIs (não há, hoje, um leito sequer), fato que é agravado pelas não menos conhecidas dificuldades de deslocamento dos municípios do interior do Estado para a capital Manaus”, diz trecho do documento assinado pela Defensoria Pública e Promotoria de Justiça da comarca de Parintins.

De acordo com esse documento, o corredor vermelho, setor com leitos de cuidados intermediários, responsável pelo tratamento dos pacientes em estado mais grave e único local do hospital em que se faz a monitoramento constante dos pacientes, possuía capacidade de apenas 10 leitos, sendo apenas 5 com possibilidades de ventilação mecânica por conta de 5 respiradores. “Dois apropriados para ventilação mecânica prolongada – próprio de UTI – e 3 respiradores portáteis, ou seja, menos indicados para intubação prolongada, eis que voltados para o mero transporte de pacientes”. Os dados foram citados com base na inspeção feita pela Defensoria em 1º de outubro.

Em abril, o MPE solicitou, por meio de ação civil pública, a criação imediata de 13 leitos de UTI e de um hospital de campanha em Parintins, conforme publicou o site Amazonas Atual. “Apesar de possuir 114.273 habitantes e de ser região polo do Baixo Amazonas na área da saúde, com aproximadamente 242.242 pacientes, Parintins conta somente com dois hospitais públicos secundários, com apenas 100 leitos clínicos e oito respiradores, e sem nenhum leito de UTI”, diz o texto baseado no pedido do MPE.

Sem transferência e sem UTI

Frente da aldeia Ponta Alegre, onde mora o tuxaua Amado Menezes
(Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas/Amazônia Real)

O juiz plantonist

Manaus (AM) – A maior liderança do povo Sateré-Mawé, no Amazonas, o tuxaua-geral Amado Menezes, de 64 anos, está em estado gravíssimo no hospital Jofre Cohen, no município de Parintins, na região do Baixo rio Amazonas. Vítima da Covid-19, ele está internado desde 23 de setembro, mas já deveria ter sido transferido, por determinação da Justiça, para uma UTI em Manaus. Diante do atraso na transferência, seu quadro clínico se agravou, o que o impede agora de levá-lo para a capital.

“As famílias dos pacientes têm tentado de todas as formas efetivar a transferência para Manaus, mas a via extrajudicial não tem sido útil e eles não pode mais aguardar na fila do Sister, sendo provável que muito em breve a situação se torne irreversível”, afirma a petição assinada em conjunto pelas Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE) e Promotoria de Justiça da comarca de Parintins, cidade que fica a 369 quilômetros da capital amazonense.

O Sister é o Sistema de Transferência de Emergência do governo do Estado. O cadastramento do tuxaua-geral da TI Andirá Marau no sistema ocorreu em 9 de outubro, sob o n° 2020101265, mas a liminar foi deferida por volta das 17h40 do dia seguinte. Outros seis pacientes, alguns com pedido de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), também foram incluídos no cadastro desde o dia 8. Embora a o juiz plantonista Anderson Luiz Franco de Oliveira tenha dado um prazo de cumprimento de 12 horas, a partir da notificação oficial, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou ter recebido a decisão judicial somente na segunda-feira (12).

A secretaria informou que já estava transferindo os pacientes, dois deles no fim de semana e os demais na segunda-feira. Uma das transferências foi a do indígena Supriano Felipe, 81 anos, Sateré-Mawé da aldeia Vila Nova, à margem do rio Andirá, no município de Barreirinha. Um outro paciente, de acordo com a secretaria, cancelou a transferência por recusa do paciente ou da família. Mas a transferência de Amado Menezes não teria ocorrido “pelo mesmo não apresenta condições clínicas para a realização do translado, de acordo com a avaliação do médico da unidade hospitalar” na manhã do dia 12.

Amado Menezes registrou piora no dia 09 de outubro e precisou ser intubado, de acordo com o hospital. No dia 11, o quadro se agravou por um inchaço no corpo devido ao acúmulo de fluido entre as células, decorrência de uma insuficiência renal. Há notícias desencontradas sobre o seu real estado de saúde.

O tuxaua-geral é a terceira liderança histórica da TI Andirá Marau acometida pelo novo coronavírus. Outros dois tuxauas não resistiram. O líder da aldeia Boa Vista, na região do rio Andirá, Plácido Dias de Oliveira, 80, morreu no dia 28 de setembro. Ele era um dos fundadores do Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé (CGTSM). Outra perda foi a de Otávio dos Santos, 67, da aldeia São Benedito, em 16 de abril. Ele era uma liderança dos indígenas da região do rio Marau, dentro da área do município de Maués. A TI Andirá Manaus abrangem os municípios de Barreirinha, Maués e Parintins. Ela também se estende à uma terra já no estado do Pará.

A agência Amazônia Real, em 7 de outubro, já havia denunciado a alta contaminação pelo novo coronavírus nas TIs sob jurisdição do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Parintins. Amado Menezes era morador da aldeia Ponta Alegre, a maior da área indígena, com aproximadamente mil pessoas.

Já são 187 indígenas contaminados e 7 mortos dentro do Dsei Parintins, segundo o último número divulgado em 13 de outubro. O município de Parintins é o que detém o segundo maior número de casos confirmados de Covid-19 no interior do Amazonas, perdendo apenas para Coari. Em uma semana, desde a publicação da reportagem, 234 novos casos foram confirmados, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). O município contabiliza ainda 129 mortos pela doença.

Já Barreirinha contabilizou 69 novos casos nesse mesmo período e 16 óbitos. A última morte foi registrada na segunda-feira, 12 de Outubro. De acordo com o Boletim Oficial da Covid-19 publicado no domingo (11) pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) e pela Coordenadoria da Fundação de Vigilância em Saúde de Barreirinha (FVS), o aumento de novos casos ocorre na área indígena. Já o município de Maués contabilizou 80 novas contaminações desde a publicação da matéria pela Amazônia Real e 42 óbitos, um aumento de cinco mortes nesse período.

A gravidade da pandemia

Moradias tradicionais do povo Sateré-Mawé, no Amazonas
(Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas/Amazônia Real)

Em um de seus últimos atos públicos, em 2 de junho, o tuxaua-geral Amado Menezes e outras duas lideranças do CGTSM protocolaram nota de repúdio denunciando a retirada da equipe do Dsei Parintins da barreira sanitária montada na entrada da área indígena, no Rio Andirá. O episódio enfraqueceu a força-tarefa composta pela Funai Parintins, Prefeitura de Barreirinha e indígenas.

Sem proteção, o fluxo de pessoas entre as aldeias e os municípios de jurisdição da TI Andirá Marau – Parintins, Barreirinha e Maués – causado pela dinâmica de trabalho, de visita a familiares na cidade e na aldeia, pela compra de alimentos e saques de benefícios do governo federal, intensificou a contaminação de indígenas, segundo relato de representantes de várias aldeias locais. Amado Menezes denunciava essa estrutura precária de combate ao novo coronavírus.

A ausência de medidas de bloqueio expôs ao coronavírus as comunidades da TI Andirá Marau, na região do Baixo Rio Amazonas. O que criou uma situação crítica, uma vez que o Amazonas é um Estado que só possui Unidades de Terapia Intensiva na capital. “O interior do Estado do Amazonas possui um verdadeiro deserto em oferta de UTIs (não há, hoje, um leito sequer), fato que é agravado pelas não menos conhecidas dificuldades de deslocamento dos municípios do interior do Estado para a capital Manaus”, diz trecho do documento assinado pela Defensoria Pública e Promotoria de Justiça da comarca de Parintins.

De acordo com esse documento, o corredor vermelho, setor com leitos de cuidados intermediários, responsável pelo tratamento dos pacientes em estado mais grave e único local do hospital em que se faz a monitoramento constante dos pacientes, possuía capacidade de apenas 10 leitos, sendo apenas 5 com possibilidades de ventilação mecânica por conta de 5 respiradores. “Dois apropriados para ventilação mecânica prolongada – próprio de UTI – e 3 respiradores portáteis, ou seja, menos indicados para intubação prolongada, eis que voltados para o mero transporte de pacientes”. Os dados foram citados com base na inspeção feita pela Defensoria em 1º de outubro.

Em abril, o MPE solicitou, por meio de ação civil pública, a criação imediata de 13 leitos de UTI e de um hospital de campanha em Parintins, conforme publicou o site Amazonas Atual. “Apesar de possuir 114.273 habitantes e de ser região polo do Baixo Amazonas na área da saúde, com aproximadamente 242.242 pacientes, Parintins conta somente com dois hospitais públicos secundários, com apenas 100 leitos clínicos e oito respiradores, e sem nenhum leito de UTI”, diz o texto baseado no pedido do MPE.

Sem transferência e sem UTI

Frente da aldeia Ponta Alegre, onde mora o tuxaua Amado Menezes
(Foto: Danilo Mello/Foto Amazonas/Amazônia Real)

O juiz plantonista Anderson Luiz Franco de Oliveira, de Parintins, determinou multa diária de R$ 1 mil se a liminar não for cumprida. A decisão prevê ainda que “caso não haja disponibilidade de o tratamento ser realizado na rede pública, o requerido deverá custeá-lo em clínica particular”.

A Secretaria de Estado de Saúde afirma que o governo do Amazonas vem apoiando os municípios com o envio de equipamentos, insumos e medicamentos. Para Parintins, foram entregues três respiradores e um desfibrilador, aumentando para 13 o total de Unidades de Cuidados Intermediários (UCI) disponíveis no município, além de 280 mil itens de EPI (Equipamento de Proteção Individual), medicamentos e testes rápidos para o novo coronavírus.

Na nota oficial, a secretaria informa que Parintins recebeu, apenas em 2020, “mais de R$ 26 milhões”. Mas esses recursos não eram todos carimbados para a saúde. Os recursos estaduais e federais destinados ao município foram via Teto Financeiro de Média e Alta Complexidade, Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI) e Crédito Extraordinário do Fundo Nacional de Saúde (FNS). A secretaria ressaltou ainda que a gestão da Saúde é responsabilidade dos municípios, que recebem recursos para a manutenção dos serviços e realização de investimentos.

a Anderson Luiz Franco de Oliveira, de Parintins, determinou multa diária de R$ 1 mil se a liminar não for cumprida. A decisão prevê ainda que “caso não haja disponibilidade de o tratamento ser realizado na rede pública, o requerido deverá custeá-lo em clínica particular”.

A Secretaria de Estado de Saúde afirma que o governo do Amazonas vem apoiando os municípios com o envio de equipamentos, insumos e medicamentos. Para Parintins, foram entregues três respiradores e um desfibrilador, aumentando para 13 o total de Unidades de Cuidados Intermediários (UCI) disponíveis no município, além de 280 mil itens de EPI (Equipamento de Proteção Individual), medicamentos e testes rápidos para o novo coronavírus.

Na nota oficial, a secretaria informa que Parintins recebeu, apenas em 2020, “mais de R$ 26 milhões”. Mas esses recursos não eram todos carimbados para a saúde. Os recursos estaduais e federais destinados ao município foram via Teto Financeiro de Média e Alta Complexidade, Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI) e Crédito Extraordinário do Fundo Nacional de Saúde (FNS). A secretaria ressaltou ainda que a gestão da Saúde é responsabilidade dos municípios, que recebem recursos para a manutenção dos serviços e realização de investimentos.

 

 

Fonte: https://amazoniareal.com.br/com-covid-19-tuxaua-geral-do-povo-satere-mawe-luta-pela-vida-14-10-2020/