Objetivo é chamar a atenção para importância do visado pedaço de terra, alvo constante de disputas

Cristiane Sampaio

Localizado no município de Santarém, no estado do Pará, o distrito de Alter do Chão é tido como um lugar de muitos significados. Alvo de intensa especulação imobiliária e destino dos mais paradisíacos entre roteiros turísticos do Brasil, o pequeno território é também lugar de afeto e boas recordações para aqueles que, embalados por memórias ancestrais e culturais, tentam preservar o local em meio às intensas disputas que cercam esse visado pedaço de terra abraçado pelo rio Tapajós.

É o caso das integrantes da Associação de Mulheres Indígenas de Alter do Chão, um dos grupos que hoje são sinônimo de resistência diante dos conflitos no local. Disputas fundiárias, queimadas, poluição, invasões, gentrificação, desmatamento e mineração predatória compõem o rol dos desafios enfrentados pela população tradicional que vive no pequeno distrito.

E foi justamente pensando nesses desafios e em suas memórias afetivas que elas resolveram lançar, nesta quinta-feira (19), pelas redes sociais, uma campanha nacional para chamar a atenção para o local. “A gente pretende abordar direito a importância de Alter do Chão, não só pro povo Borari, mas pro restante do mundo também, e falar do que acontece aqui”, conta Val Sauré, da associação, também chamada de “Suraras do Tapajós”.

Território indígena do povo Borari, que ainda aguarda demarcação oficial da área, Alter do Chão tem uma centralidade na vida de Yani Borari, uma das integrantes do grupo. Ela conta que a ideia da campanha veio a partir de uma roda de conversa em que as mulheres da associação compartilharam histórias de vida e memórias relacionadas ao local. Da experiência, vieram também os relatos sobre as preocupações com o destino da terra.

O Alter do Chão que eu quero ver em alguns anos é um lugar onde minha família continue podendo tirar seu principal alimento do rio de uma forma saudável

Yani teme que os grandes empreendimentos que hoje ocupam as margens do Tapajós acabem por dizimar a cultura dos indígenas, população que, aos poucos, está sendo empurrada para a área periférica do território.

“A gente tem uma responsabilidade muito grande [no sentido de] evidenciar isso e a gente tem a noção de que nosso território não vai ser demarcado, por mais que a gente queira, o que seria uma forma de proteger a área, mas, enquanto houver esse governo [Bolsonaro], o que a gente pede é que isso tudo se torne visível a partir do lançamento da campanha”, ressalta, ao apostar no movimento como forma de reduzir a destruição da área.

Para Val Sauré, a articulação das mulheres em torno da divulgação do tema é também uma forma de empoderamento das personagens tradicionais de Alter do Chão.  “A gente tem a noção de que, a partir disso, mais pessoas se voltam pra gente, especialmente pras indígenas, e isso cada vez mais dá visibilidade também à nossa luta. Acho que é importante ainda pra outros grupos de mulheres, e é gratificante ter esse reconhecimento. A gente espera que surjam outros grupos também”.

Seja incentivando outros coletivos a lutarem pela mesma causa, seja obtendo diretamente a demarcação do território indígena, Yani Borari diz esperar que o futuro apresente uma condição de vida mais favorável ao povo da região. “Hoje até a maioria dos nossos peixes está contaminada com mercúrio. Nem isso nós temos. O Alter do Chão que eu quero ver em alguns anos é um lugar onde minha família continue podendo tirar seu principal alimento do rio de uma forma saudável”.

Edição: Leandro Melito