O Programa Povos Indígenas do IEB lamenta a morte do último ancião Juma, que a sua luta ecoe sempre na defesa pelos territórios

É com profunda tristeza que lamentamos a morte do último homem sobrevivente do massacre contra o povo Juma- Amoim Aruká. Vítima da Covid-19, o indígena de 86 anos estava internado há quase um mês e faleceu na última quarta-feira (17) no hospital de campanha em Porto Velho (RO).

“Perda imensurável para o povo Juma. Ele era a prova viva da resistência, passou o conhecimento tradicional do seu povo para as filhas e os netos. Foi sobrevivente do massacre, mas não resistiu ao coronavírus”, lamenta Carlos de Souza, analista socioambiental do IEB. Carlos conheceu Aruká em 2015, quando trabalhava para a Coordenação Regional Médio Purus, da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Foto: Marina Villarinho- Analista Socioambiental do IEB

Símbolo de resistência, Aruká será sempre lembrado como o último guerreiro que lutou contra as inúmeras tentativas de extermínio. Ele lutou também pela demarcação da Terra Indígena (TI) Juma, que foi homologada em 2004, próximo ao município de Canutama, no Amazonas, na região da Transamazônica, na divisa com Rondônia.

Estima-se que no século XVIII, os Juma eram aproximadamente 15 mil. Os relatos expressam que, com as sucessivas tentativas de extermínio, o povo Juma foi reduzido, e em 2021 eram apenas quatro pessoas: Aruka- que faleceu- e suas três filhas.

“Essa série de massacres promovidos pelo Estado trouxe e traz inúmeros desafios, entre eles culturais: o povo Juma é tradicionalmente patrilinear, isto é, a linhagem é transmitida pelo pai, de forma que, as filhas de Aruká terão que ressignificar, mais uma vez, de forma abrupta, alguns aspectos centrais de sua cultura. Fico muito triste. Foram várias tentativas de extermínio promovidas inclusive pela Prefeitura de Canutama.  O Estado não conseguiu levar o Aruká daquela vez, mas conseguiu agora com a Covid-19”, se emociona Marina Villarinho, analista socioambiental do IEB ao falar sobre Aruká Juma.

Foto: Marina Villarinho- Analista Socioambiental do IEB

Marina Villarinho esteve próxima ao povo quando trabalhou na Funai de Humaitá: “Naquela oportunidade tive de georreferenciar o local onde a mulher de Aruká teria falecido – justamente onde ocorreu o massacre de 1964 e hoje estão enterrados muitos de seus parentes. Lembro que, ao achar a área, Aruká Juma caiu num choro ritual que os Kawahiva praticam em certas ocasiões. A dor ressoava pela floresta”, diz.

 

Em nota, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) declarou que o último massacre ocorreu em 1964 no rio Assuã, na bacia do rio Purus, por comerciantes de Tapauá interessados pela sorva e castanha existentes no território Juma. No episódio, os corpos indígenas foram vistos por ribeirinhos da região, servindo de comida para porcos do mato, inúmeras cabeças decapitadas foram espalhadas pelo chão da floresta.

Apesar do risco de desaparecimento, os sobreviventes Juma começaram casamentos com os indígenas Uru Eu Wau Wau, povo indígena também de língua Tupi-Kagwahiva, na esperança de ver o seu povo crescer.

A morte de Aruká, grande guerreiro, representa mais um extermínio do Estado brasileiro, que não é apenas físico, mas uma forma de epistemicídio, uma morte cultural. O Programa Povos Indígenas (PPI) do IEB lamenta o falecimento de Amoim Aruká, que a sua luta ecoe sempre na defesa pelo Bem Viver. Não esqueceremos!

Amoim Aruká, PRESENTE!

 

Fonte: https://iieb.org.br/nota-de-pesar-aimom-aruka-juma/