Em 2020, acompanhou o avó em viagem ao Reino Unido, onde denunciou a situação dos índios no Brasil

Emilio Sant’Anna

SÃO PAULO

Os últimos dias de Bepró Metuktire foram dedicados à preocupação com a saúde de seu povo, os Kayapó/Metuktire. Acompanhou com cuidado e atenção a vacinação da população da Terra Indígena Capoto Jarina, no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, contra a Covid-19.

Mais do que um trabalho, era a vocação de toda a vida. Bepró era neto do cacique Raoni Metuktire, 90, conhecido no mundo todo pela defesa dos direitos dos povos indígenas. Saiu de sua aldeia ainda adolescente para estudar na cidade, aprendeu a língua dos brancos e a enfrentar as dificuldades que seu povo atravessa desde que se entendeu por gente.

“Era um militante das causas indígenas, se preocupava em todos os aspectos da defesa de seu povo e de outros indígenas”, diz Karina Paço, 36, coordenadora de projetos do Instituto Raoni, em Mato Grosso.

Era lá, na organização que leva o nome de seu avô, que Bepró, trabalhava e exercia sua liderança. “Na segunda-feira (14), ele estava aqui, sentou ao meu lado e conversamos. Ele foi embora e não consegui me despedir”, diz Karina. “Na quarta, quando vim trabalhar…estava apenas a cadeira vazia dele.”

Não só ela se emociona ao lembrar de Bepró, conhecido por sua simpatia e educação. “Ele levava essa missão muito a sério e era muito querido por todos”, afirma.

Em 2020, Bepró acompanhou o avó Raoni em uma viagem ao Reino Unido. Em Oxford, ao seu lado, entregou ao ministro do Meio Ambiente inglês, Zac Goldsmith, um manifesto de seu povo denunciando as condições socioambientais desafiadoras que os indígenas enfrentam no Brasil, sobretudo sob a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido).

Filho do cacique Beptok, um dia seria também ele cacique dos Metuktire. Nao teve tempo para isso. Na segunda-feira (15), sofreu um infarto e não resistiu. Bepró tinha, então, 36 anos. “Ele tinha acabado de tomar ele mesmo a vacina e tinha conseguido a doação de 100 mil frascos de álcool em gel para a aldeia”, diz Karina.

Parte do luto vivido na cultura dos Metuktire, a esposa de Bepró, Irekrô Metuktire, acompanhou o corpo do marido em sua jornada de volta à aldeia onde nasceu. De lá, deve retornar apenas após esse período de resguardo em que nem mesmo os outros moradores da aldeia a veem.

Além de Irekrô, que está grávida, Bepró deixa seis filhos. Ainda a caminho, o sétimo irá conhecer o pai apenas por meio das histórias contadas entre seu povo.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/mortes/2021/02/mortes-neto-de-raoni-bepro-era-voz-forte-e-ouvida-na-luta-das-causas-indigenas.shtml