Por Leilane Marinho e Vera Olinda

Iniciamos a série Papo de Índio no Abril no Acre Indígena 2021 destacando que durante todo mês de abril a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) está realizando o Acampamento Terra Livre (ATL 2021), on line com transmissões ao vivo, como parte do Abril Indígena, maior mobilização nacional dos povos indígenas. No Acre, há 12 anos a Comissão Pró Índio do Acre, a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC) e a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) realizam o Abril no Acre Indígena, movimentando o mês inteiro com diferentes atividades políticas e também realizando encontros interculturais dos indígenas com estudantes das redes de ensino, pública e privada do estado, buscando diminuir distâncias e aproximar conhecimentos e informações para uma interação mais respeitosa.

Este ano, no infeliz contexto de pandemia e da maior crise sanitária que vivemos em 100 anos, o Abril no Acre Indígena também não terá programação presencial. No dia 23 de março completou 1 ano que Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre) passou a realizar somente atividades remotas e, mais do que nunca, esta adaptação colocou para toda a equipe e  parceiros indígenas grandes desafios, entre os quais o  de nos prepararmos para enfrentar e combater a entrada do coronavírus nas Terras Indígenas (TIs), mantendo compromissos e adaptando  a agenda de trabalho das ações mais estratégicas, pois o deslocamento das atividades poderiam também se transformar em fragilidades e ameaças territoriais aos povos indígenas. As principais linhas de trabalho da instituição, como a Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) continuou à distância, e as viagens de assessorias técnicas, em que a equipe passava meses nas TIs, foram substituídas por contatos diários com os AAFIs e lideranças locais via telefone, redes sociais e radiofonia.

Desde o início da pandemia, a prevenção à COVID-19 com o isolamento social tornou-se ponto importante do nosso trabalho, mas não sem a garantia de que as famílias tivessem condições de manterem-se protegidas nas aldeias com alimentação adequada. A CPI-Acre realizou diversas ações neste sentido, desde a entrega de kits de alimentação e higiene, pesca e sementes, como parte da Iniciativa Enfrentamento e Combate ao Coronavírus em Terras Indígenas no Acre, ainda em curso, que teve o apoio financeiro principalmente da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), da Rainforest Foundation da Noruega (RFN), do Instituto Galo da Manhã e Avazz. A inciativa foi realizada em parceria com diferentes instituições e associações indígenas, entre elas a Associação dos Produtores e Criadores Kaxinawá da Praia do Carapanã (ASKPA), a Associação dos Produtores Kaxinawá da Aldeia Paroá (APROKAP), Associação dos Povos Indígenas Kaxinawá do Rio Humaitá (ASPIH), a OPIAC e AMMAIAC e os Distritos Sanitários Especial Indígena (DSEIs) do Juruá e Purus.

Mais uma vez o trabalho dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) nas TIs no Acre é tema do nosso papo com o leitor. Os AAFIs, sob essa terrível situação de pandemia, realizaram durante todo o ano de 2020 diversas atividades com as comunidades: construíram galinheiros, distribuíram e plantaram sementes para enriquecimento de Sistemas Agroflorestais (SAFs) e quintais, fortaleceram a criação de peixes, limparam lagos nativos para manejo do pirarucu, além de diversas ações de proteção territorial. Com isso, as famílias fortaleceram ainda mais a produção de alimentos, que é garantia de boa vida para todos nas aldeias, fundamental nestes tempos pandêmicos e de desastres naturais, como as alagações que afetaram quase todo o Acre. Nas TIs atingidas pelas cheias foram destruídos  principalmente  roçados e SAFs.

Alimentação na aldeia Nova Mudança, TI Alto Rio Purus. (foto: Josy Pinheiro/CPI-Acre)

A soberania e segurança alimentar estão no cerne do trabalho dos AAFIs e são temas chaves nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) das TIs. Na Proposta Político-Pedagógica e Curricular de Formação Profissional e Técnica de Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, Renato Gavazzi, coordenador pedagógico dos cursos de Formação de AFFIs da CPI-Acre, diz:

” A agrofloresta representa o desenvolvimento de ações para o enriquecimento e a diversificação da agrobiodiversidade nas terras indígenas, através de técnicas culturais e ambientalmente adequadas. Estas estão voltadas à produção e manejo de espécies frutíferas, nativas e exóticas, consorciadas às espécies de cultura como roça, legumes, milho, cana, mamão e banana, além de componentes animais, que estão integrados a dinâmica dos sistemas agroflorestais. […] O que se pretende é criar sistemas auto-suficientes, não dependentes de insumos externos, potencializando ao máximo os recursos disponíveis nas aldeias, e que atendam às necessidades de produção e diversificação alimentares das comunidades”

Em 2020, em uma ação que envolveu muita articulação, os AAFIs avançaram seus estudos com assessorias técnicas remotas da equipe da CPI-Acre, e junto com suas comunidades continuaram recebendo incentivos de diferentes projetos executados pela instituição, entre os quais o Projeto Experiências Indígenas de Gestão Territorial e Ambiental no Acre, financiado pelo Fundo Amazônia, que visa apoiar a implementação dos PGTAs de oito TIs no Acre. Todas as atividades foram realizadas de forma segura nas aldeias, atendendo aos protocolos sanitários de prevenção à COVID-19 e com protagonismo indígena durante as execuções. Vamos deixar o leitor agora com relatos dos AAFIs e de lideranças locais sobre esta mobilização neste difícil ano de pandemia:

Agente Agroflorestal Indígena (AAFI) José de Lima em reunião com o entorno da TI Kaxinawa da Praia do Carapanã.

 

“Esse é o  momento para apoiar as comunidades, trazendo autonomia, eu vejo que isso pra esse momento de pandemia , que nem diz o ditado ‘não tem um mal que não traga um bem’. Onde as comunidades e as lideranças voltaram para suas aldeias, é onde está tendo bastante roçado, produção. Isso é uma coisa boa pra gente, é o momento de reorganização. De retomar o comando das lideranças e também de apoiar e fortalecer nessa questão da autonomia alimentar. […] E em relação ao trabalho do AAFI, o AAFI Shipi agora é o coordenador do nosso grupo de AAFI e a gente combinou que iríamos em  seis aldeias.  A gente ia se reunir, ajudar essas aldeias que os AAFIs não têm muita formação, para orientar. Nas duas reuniões que a gente fez principalmente lá do outro grupo debaixo, a gente pegou forte com o trabalho dos AAFIs, de mostrar o quanto eles são importantes dentro da nossa comunidade e eles são nossas principais lideranças. Não poderiam ficar acomodados, sem ajudar a comunidade, sem plantar, precisam tomar iniciativas. Aquela animada de chamar os AAFIs na frente de todo mundo, falar para eles distribuir mudas e buscar sementes de outros lugares. E vejo o que está funcionando muito são os quintais de cada família, que já tem uma produção” – José de Lima (AAFI), TI Kaxinawa da Praia do Carapanã, (Relatório Atividades Remotas 2020/2021)

 

“…Na comunidade Chico Curumim a caça está longe, txai. As pessoas tinham facilidade para vir até a cidade. Agora com o coronavírus não tem mais. Ficaram com medo. Na aldeia tem a mistura. Isso tem, mas a caça está mais distante. Então reuni com todos para combinar sobre criação de galinhas. Você sabe que nós Huni Kuῖ, não comemos sem a carne. Então criar galinha vai ajudar muito. Na reunião peguei nome e documento de todos que querem e que vão se responsabilizar para construir galinheiro, deixar a galinha crescer. Não pode comer antes do tempo. Tem o AAFI que já está ficando mais velho. Aproveito para dizer que vai ser indicado o novo AAFI. Passamos muito tempo na aldeia, tomando nossa medicina tradicional, protegendo dessa doença que faz medo. Mas quando faltou a carne  vim pra cidade. Ninguém gosta de ficar comendo só a mistura. Então nesse tempo de coronavírus, tem que apoiar a criação de animais nas aldeias…” – Prof. Ibã Sales (Depoimento enviado para a equipe da CPI-Acre em setembro, 2020).

 

 

Fernando Henrique Kaxinawa (segurando caderno) durante reuniões de formação dos AAFIs junto com os Ashaninka (Foto: Orleir Kaxinawa).

“Fiz meu planejamento da assessoria foi 24/8 pra iniciar na aldeia Pau Furado com AAFI Ashaninka novato, então foi muito bom ter a participação dele, uma conversa com as lideranças para entender a função do AAFI. Foi muito bom a participação das crianças, as mulheres, os alunos, lideranças estiveram presentes, participando da nossa reunião. Fomos primeiro visitar a casa dos moradores, fui ver o plantio deles, cada quintal. Depois a gente fazia atividade prática, levantamento dos plantios dos quintais dos moradores mostrando o exemplo para o AAFI fazer com outras famílias e aí entrava nas práticas. O [AAFI]  Dede, o  [AAFI] Zé Luis ajudava a medir o tamanho da área, comprimento, largura, a espécie do plantio. E outro ponto que eu escolhi o espaço da reunião para registrar nosso trabalho, tanto atividade prática e teórica, eu escolhi o espaço que tem mais plantio, onde tem mais plantação para poder registrar e mostrar o fruto que a gente tem hoje. Os bakixta (crianças) estava tudo no meio da reunião que a gente ia realizando, estava lá brincando, ouvindo as conversas, acompanhando com a mãe dele. Porque as mulheres gostaram de participar, eu fiquei no registro para mostrar que as mulheres também são da comunidade” – Prof. Fernando Henrique Kaxinawa, TI Kaxinawa Ashaninka do Rio Breu (Relatório Atividades Remotas 2020/2021).  

 

 

 

Fonte: https://cpiacre.org.br/papo-de-indio-aafis-e-professores-fortalecem-seguranca-alimentar-indigena/