O desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips e a tocaia de 2018

A palavra “emboscada” desponta como explicação plausível para o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips no Vale do Javari, no Amazonas, terra indígena próxima à fronteira com o Peru e a Colômbia, assolada por tráfico de drogas e outras atividades ilegais.

Sinônimo de tocaia, ataque sorrateiro e frequentemente mortal, a emboscada chegou ao português no século 16 vinda do italiano “imboscata”. É parente de “bosque”, onde os emboscadores se escondiam para atacar o inimigo de surpresa.

Palavras são assim mesmo: se o verbo embarcar se descolou faz tempo do barco onde nasceu, seria absurdo cobrar da emboscada fidelidade ao bosque, termo reservado a matas bem mais modestas e amenas do que aquela em que desapareceram Bruno e Dom.

No entanto, em nome da crônica linguística, vale registrar que só uma dose elevada —e cômica— de imprecisão vocabular poderia levar a floresta amazônica a ser chamada de bosque. De selva, sim.

Derivado do latim “silva”, mata, trata-se de um sinônimo de floresta que se destaca por ter grande circulação entre os militares brasileiros. O Exército mantém desde 1964, em Manaus, o Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS).

O grito “selva!” é também uma saudação genérica muito querida entre os fardados, usada até em ambientes onde não há uma única árvore por perto —de tronco caiado ou não. E que, por isso mesmo, muitos consideram misteriosa.

Segundo uma postagem de 2020 no Facebook do próprio Exército, a origem da saudação é a seguinte: nos primeiros tempos do CIGS, era com a palavra selva que “as viaturas que saíam do quartel” em Manaus anunciavam seu destino ao “militar do portão das armas”.

Segue o post: “A resposta curta, tão repetida, fez-se saudação espontânea e vibrante, alastrou-se, expandiu o seu significado, ecoou por toda a Amazônia contagiando a todos com o mesmo ideal”.

Não fica claro que ideal seria esse, mas nada que pudesse ser remotamente chamado de “espontâneo” ou “vibrante” ecoava na nota oficial que o Exército divulgou na noite de segunda (6), quando Bruno e Dom já estavam desaparecidos havia mais de 24 horas:

“Em resposta a demanda sobre o caso do desaparecimento de um indigenista e um jornalista inglês na região amazônica, o Comando Militar da Amazônia (CMA) está em condições de cumprir missão humanitária de busca e salvamento, como tem feito ao longo de sua história, contudo as ações serão iniciadas mediante acionamento por parte do Escalão Superior.”

A nota do Exército é estarrecedora. Da chocante desumanização de Bruno Pereira e Dom Phillips, que não são sequer nomeados, à procrastinação acoelhada de uma ação que é o próprio sentido de sua existência, já nasceu clássica. Historiadores do futuro vão citá-la ao tentarem explicar a emboscada em que caiu um país inteiro na eleição de 2018.

Ou, para voltar ao início da coluna, deveríamos preferir a palavra tocaia? Esta tem a vantagem de ser brasileiríssima, nascida no tupi, língua em que tinha a princípio o sentido de pequena casa rústica onde o guerreiro ficava escondido sozinho para surpreender a caça ou o inimigo.

Se bem que o guerreiro indígena no Brasil de hoje é sempre a caça, não o caçador. Fiquemos com emboscada então. Ou inventemos alguma outra palavra, quem sabe com base na vibrante “selva!”, para dar conta desse mato sem cachorro que nos cobre de vergonha diante do mundo.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2022/06/emboscada-na-selva-e-na-selva.shtml

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