O encontro reúne mais de 300 pessoas e está sendo realizado no Centro de Formação Vicente Canãs, em Luziânia/GO, entre os dias 8 a 10 de novembro

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DO CIMI

“Meu nome é Resistência”, a afirmação da liderança indígena Rosa Tremembé retrata muito bem o que foi a plenária do segundo dia de atividades – 9 de novembro, do Congresso de 50 anos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O encontro, que vai até a próxima quinta-feira (10), reúne mais de 300 pessoas entre missionários e missionárias, lideranças indígenas, funcionários do Cimi, colaboradores e apoiadores da causa indígena.

Já no café da manhã, faixas e cartazes com frases “Somos Povos Resistência”, “Reduzidos Sim, Vencidos Nunca” e “Resistir para Existir”, pré evidenciaram o tema norteador dos debates do dia. Com muita animação foi realizada a “Marcha da Resistência”, com o objetivo de destacar a caminhada da entidade ao longo dessas cinco décadas.

“Aqui é um lugar acolhedor e tem sido muito usado nas mobilizações indígenas”

Antes mesmo da mesa ser composta, os missionários do Cimi, Roberto Liebgott e Saulo Feitosa, contaram como foi o processo de construção do Centro de Formação Vicente Canãs, onde está sendo celebrado o cinquentenário do Cimi. “Com muita luta e resistência, conseguimos garantir esse espaço de acolhimento aos indígenas e missionários. Aqui é um lugar acolhedor e tem sido muito usado nas mobilizações indígenas”, conta Roberto.

Após a mística, com o tema “RESISTÊNCIA: o que estamos fazendo, como e quais os resultados?”, a mesa de debates foi formada por lideranças indígenas e missionários do Cimi.

“A resistência é uma ação que se opõe a um movimento de inércia, e o Cimi ressignificou essa palavra dando a ela o sinônimo de luta”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Na ocasião, o secretário executivo da organização, Antônio Eduardo Oliveira, lembrou que “a resistência é uma ação que se opõe a um movimento de inércia. O Cimi ressignificou essa palavra dando a ela o sinônimo de luta. Por isso, estamos hoje no Centro de Formação Vicente Canãs, um lutador que tombou por sua resistência”.

Em contribuição ao debate, Rodrigo Pataxó, liderança da Terra Indígena Comexatibá destacou a contribuição do Cimi para o fortalecimento das lutas e resistência dos povos originários. “O Cimi tem sido um ponto de equilíbrio entre as comunidades, pois tem sabido articular os povos sem interferir nos modos de vida”, afirma e aponta a importância de mobilizar a juventude nas aldeias para seguir em frente, pois é preciso resistir para existir.

“O Cimi tem sido um ponto de equilíbrio entre as comunidades, pois tem sabido articular os povos sem interferir nos modos de vida”

Por sua vez, a cacique Hozana Poruborá, da aldeia Aperoi em Rondônia, de forma sintética, contou a história de seu povo. “Nasci e me criei sabendo que era cabocla, minha mãe falava a sua língua escondida, nós não podíamos falar. Esse direito os invasores nos tiraram. Só depois dos 30 anos pude falar que era indígena, agradeço muito ao Cimi por abrir essas portas para nós”.

Ainda na mesa de debates, Rosa Tremembé entoa um canto “Caboclo tu não aguenta o peso do meu maracá”, reafirmando que a resistência dos povos indígenas está intrinsecamente ligada aos seus ancestrais. De força sábia, ela completa ao afirmar que “os parceiros da luta devem andar do nosso lado, como o Cimi faz, não há frente menos ainda atrás”.

“Os parceiros da luta devem andar do nosso lado, como o Cimi faz, não há frente menos ainda atrás”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Secretário da entidade por treze anos, Cleber Buzatto, destacou os serviços prestados pela organização, divididos em dimensões, alcançando todas as áreas de atuação do Cimi. “Uma das principais ações que o Cimi apoiou foi a anulação do marco temporal, que em decisão inédita o STF [Supremo Tribunal Federal] extinguiu o processo anti-indígena apoiado por setores ligados ao agronegócio, mineração e grande empreendimento, com interesses nos territórios indígenas”, destacou Buzatto.

Outro ponto abordado por Cleber, foi as parcerias com organizações de apoio à causa indígena ou com pautas semelhantes das defendidas e apoiadas pela instituição, o que tem fortalecido as ações construídas nos espaços de articulação regionais, nacionais e internacionais. O que reflete diretamente na participação das lideranças indígenas nos encontros Latino-Americanos voltados à causa, bem como, espaços de denúncia no sistema da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Uma das principais ações que o Cimi apoiou foi a anulação do marco temporal, que em decisão inédita o STF”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

No entendimento do Cimi, a formação é, e sempre foi, um eixo transversal e fundamental durante esses anos. Assim como, por meio de sua comunicação, “tem auxiliado na denúncia de crimes, divulgação de pautas ambientalistas e indígenas, além do alcance pelas redes sociais e meios de comunicação na qual o Cimi transmite sua luta e resistência”, lembra Cleber.

Finalizando sua participação nesta mesa de debates, Cleber afirma que “a perseguição sofrida pelos indígenas é recorrente, porém com muita resistência o Cimi permanece sendo um inimigo daqueles que continuam tentando cercear os direitos de propriedade e terra dos povos originários”.

“A perseguição sofrida pelos indígenas é recorrente, porém o Cimi permanece sendo inimigo daqueles que tentam cercear os direitos povos originários”

O Congresso de 50 anos do Cimi foi estruturado em torno de quatro eixos: Mística, que aos missionários e missionárias é também militância; Memória, que foi amplamente discutido na primeira mesa de debates do evento; Resistência, vastamente debatido neste segundo dia do evento; e Esperança, que será o tema de discussões do terceiro dia do encontro, marcando os próximos passos da entidade.

O Congresso está sendo realizado entre os dias 8 e 10 de novembro, no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO), com o lema “50 anos a serviço da vida dos povos indígenas”.

“Ao afirmar que se faz necessário “resistir para existir”, o Cimi reforça sua trajetória junto aos povos indígenas em todo país”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Parceiros na resistência  

Ao afirmar que se faz necessário “resistir para existir”, o Cimi reforça sua trajetória junto aos povos indígenas em todo país. Caminhada que ao longo desses cinquenta anos contou com o apoio e contribuição de muitas organizações, na resistência junto aos povos originários, a quem a entidade chama de ‘parceiros de luta’.

“É uma luta diária que enfrentamos, porém nos sentimos gratificados por apoiar essa causa dos povos originários, que se faz necessária tendo em vista que o atual governo tem uma postura repressiva aos indígenas”, afirma Maribel Vilán Palacios, representante da Cáritas Espanha no Congresso do Cimi.

“É uma luta diária que enfrentamos, porém nos sentimos gratificados por apoiar essa causa dos povos originários, que se faz necessária”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Ao refletir sobre a atual conjuntura e a política anti-índigena do governo Bolsonaro, Simão Guarani Kaiowá, representando a Aty Guasu – Assembleia Geral do povo Guarani e Kaiowá – e Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), avalia que “nesse momento, devemos reconhecer a força da união dos povos, garantimos uma vida mais segura aos povos originários, sobrevivência e perpetuação de nossas culturas, com o resultado das eleições deste ano, obtivemos um fio de esperança no nosso futuro”.

Por sua vez, o coordenador do Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), Sandro Luckmann, destacou a caminhada conjunta que os dois Conselhos partilham, de resistência junto e com os povos indígenas. Na oportunidade Luckmann leu uma crônica do caderno ‘Tecendo Vidas’, que reúne mensagens desta caminhada de resistência, de partilha e construção conjunta.

“Devemos reconhecer a força da união dos povos, garantimos uma vida mais segura aos povos originários”

Os povos originários são símbolo de resistência no Brasil, para o coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Edinho Macuxi: “há 522 anos que os indígenas vêm mostrando sua resistência e garra, e as parcerias sempre foram fundamentais para a gente”. Ele ainda salientou que o momento é de celebração, e agradeceu a cada um que fez parte desta caminhada de 50 anos do Cimi. “Tudo o que enfrentamos nos motiva a ser fortes e ser guerreiros. Reconhecemos que fomos reduzidos, mas nunca vencidos”, finaliza Edinho Macuxi.

“Tudo o que enfrentamos nos motiva a ser fortes e ser guerreiros, reconhecemos que fomos reduzidos, mas nunca vencidos”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

História de resistência

A atuação do Cimi junto aos povos indígenas ao longo dessas cinco décadas tem se transformado em histórias, fortalecido as lutas e resistência dos povos e da instituição.

O tuxaua do povo Macuxi, Jacir de Sousa, conta que com muita luta e garra conseguiram conquistar seu território de ocupação tradicional, a Terra Indígena Raposa do Sol, em Roraima. “Temos muitas lutas e guerras para enfrentar, porém temos que reconhecer os avanços, que sem o Cimi seria dificultoso”, conta.

“Temos muitas lutas e guerras para enfrentar, porém temos que reconhecer os avanços, que sem o Cimi seria dificultoso”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Ao se referir a atuação do Cimi juntos aos povos, Jacir assegura ser indispensável. “Esperamos nos próximos 50 anos garantir os territórios de todos os povos indígenas, e isso só será possível com a união dos povos indígenas e aqueles que lutam com a gente, como o Cimi. Isso nos fortalece”, afirma o tuxaua Macuxi.

Se por um lado o Conselho tem transformado a vida dos povos originários, também tem provocado transformações aos que se dedicam à causa. Duas missionárias, contaram suas histórias Alcilene Bezerra da Silva e Marta Mamédio.

“Esperamos nos próximos 50 anos garantir os territórios de todos os povos indígenas”

“Quando eu conheci o Cimi, me encantei. Na minha cidade tinha muita perseguição às pessoas que trabalhavam com os povos indígenas, mesmo assim me encantei”, contou Alcilene que é do Regional Nordeste. “O Cimi existe há 50 anos, porque os povos indígenas são resistência e a espiritualidade dos povos indígenas também nos fortalece”, completa.

Marta, jovem missionária do Regional Leste, conta “às vezes somos chamados de juventude do Cimi, mas o que temos de comum é que algo nos fez encantar pela causa Indígena”. O tempo de missão permite vivências que não seriam possíveis em outros espaços da sociedade, “pouco sabemos, mas temos muitos a aprender, tanto com os missionários mais experientes, quanto com os povos Indígenas”, assegura.

“Quando eu conheci o Cimi, me encantei. Na minha cidade tinha muita perseguição às pessoas que trabalhavam com os povos indígenas, mesmo assim me encantei”

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Foto: Maiara Dourado/Cimi

Por sua vez, Marcelo Zelic, coordenador do Projeto Armazém Memória, “olhar para a documentação histórica do Cimi é ver que a nossa prática é coerente ao longo desses 50 anos. É uma lição para todos nós a ação do Cimi”. O projeto pode ser acessado pelo site do Cimi, na aba Armazém Memória.

O papel da memória é como um elemento de resistência, por vezes encontrar um documento é reafirmar direitos, “por isso temos feito um trabalho no Armazém Memória de reconstruir o Centro de Referência Virtual Indígena, com o objetivo de efetivar a justiça de transição para os povos indígenas, que além de buscar estabelecer verdades e dessa maneira, busque reparar e estabelecer mecanismos de não repetição”, conclui Zelic.

Finalizando os debates sobre o tema, Wilson Pataxó Hã-Hã-Hãe, liderança da TI Caramuru Catarina Paraguaçu, no Sul da Bahia, ressalta que “temos um desafio muito grande de lutar pela saúde e educação indígena, mas principalmente de defender a demarcação dos territórios e para isso precisamos existir para resistir e continuar. Por tanto, resistência é você persistir, resistir para garantir o seu território”, encerra Wilson.

Fonte: https://cimi.org.br/2022/11/meu-nome-e-resistencia-a-afirmacao-marca-o-segundo-dia-de-debates-do-congresso-de-50-anos-do-cimi/

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