Temor se deve aos atentados contra funcionários do Ibama e policiais militares de Roraima no rio Uraricoera, na terra indígena Yanomami

Rosiene Carvalho

MANAUS

Após dois atentados contra funcionários do Ibama e policiais militares de Roraima no rio Uraricoera, na terra indígena Yanomami nesta quinta-feira (23), lideranças indígenas da região temem ataques coordenados de garimpeiros em outros pontos.

Segundo o Governo de Roraima e o Ibama, os dois casos envolveram uso de arma de fogo contra policiais e agentes de fiscalização ambiental.

Rede de proteção para evitar a passagem de barcos do garimpo ilegal no rio Uraricoera, em Roraima, onde fica a base federal na Terra Indígena Yanomami atacada nesta quinta (23)
Rede de proteção para evitar a passagem de barcos do garimpo ilegal no rio Uraricoera, em Roraima, onde fica a base federal na Terra Indígena Yanomami atacada na quinta (23) – Ibama/Divulgação

Os atentados foram registrados em meio a uma ação descoordenada na atuação das forças federais e divergências de órgãos sobre o tratamento a ser dado aos garimpeiros na operação de desintrusão de invasores na maior terra indígena do país, que completou um mês no último dia 20.

Associações indígenas apontam que sejam cerca de 20 mil garimpeiros atuando no território Yanomami.

“Eles têm uma estrutura que o governo tem que se atentar para isso. Estão armados e dispostos a enfrentar qualquer coisa para continuar nessas ações ilegais na terra indígena. O governo está dando uma cochilada nisso aí. Tem que reprimir o garimpo ilegal e tirar. Senão, os garimpeiros ganham força”, disse Edinho Macuxi, coordenador geral do CIR (Conselho Indígena de Roraima).

“Não é um caso isolado. Tem tudo a ver com a ação e operação feita na TI Yanomami. Isso deveria chamar atenção do governo para massificar mais agentes na área.”

Para o Ministério Público Federal em Roraima, o atentado contra funcionários do Ibama exige implementação de medidas para garantir a segurança dos servidores que atuam dentro da Terra Indígena Yanomami.

Folha procurou a assessoria da PF (Polícia Federal) em Roraima e questionou sobre medidas e aumento de efetivo na região. Segundo a PF, não há informações sobre essas questões.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, disse, na nota do Ibama emitida no dia do atentado, que o ataque dos garimpeiros contra os agentes de fiscalização foi “programado”.

“Foi um ataque criminoso programado. Todos aqueles que tentarem furar o bloqueio serão presos”, disse.

As ações federais na terra indígena Yanomami iniciaram a partir da visita do presidente Lula e a declaração de emergência em saúde pública no dia 20 de janeiro, após circularem imagens de indígenas com quadro de desnutrição grave.

A região vive uma explosão de casos de desnutrição, doenças associadas à fome e malária e mortes como resultado do garimpo ilegal, denunciado pelas lideranças indígenas há anos.

Na sequência da visita de Lula, foram feitas doações de cestas básicas, resgate de yanomamis para tratamento em Boa Vista e visitas descoordenadas de representantes ministeriais e parlamentares na região.

Exemplo disso foi o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, que ao visitar Boa Vista, no dia 8 de fevereiro, afirmou estar preocupado em “não prejudicar inocentes” em referência aos garimpeiros em fuga da Terra Indígena Yanomami.

Na última semana, Urihi Associação Yanomami, o CIR e outras organizações indígenas da Amazônia reagiram contra a iniciativa de parlamentares de Roraima de compor uma comissão para acompanhar o desenrolar da crise humanitária na terra indígena.

Para o coordenador geral do CIR, houve um “descontrole total” das ações que deveriam estar sendo feitas de forma efetiva na região dos yanomamis. Edinho afirmou que os indígenas e as circunstâncias já deixaram claro que não são medicamentos e alimentos que vão resolver a crise humanitária do povo yanomami e sim o fim do garimpo na terra indígena.

Para a liderança macuxi, é necessário que o governo federal, de forma coordenada, planeje e execute a retirada dos garimpeiros, a proteção dos territórios, a recuperação do meio ambiente, a indenização à população indígena e a punição de todos os culpados.

“Avaliamos que é necessário fazer toda uma ação conjunta e que essa ação fosse protagonizada pelo Ministério dos Povos Indígenas. Junto às organizações indígenas. Foram feitas várias visitas, em tempos diferentes, de ministros diferentes. Foi criada uma comissão com parlamentares de fato contra os povos indígenas e a favor do garimpo”, disse.

Edinho Macuxi disse que os indígenas têm informação de que a mineração ilegal continua sendo uma atividade dentro da terra indígena Yanomami. Na nota do Ibama desta quinta-feira, consta a informação que as embarcações que foram abordadas pelos fiscais continham cassiterita, outro minério explorado ilegalmente na região. Apenas um garimpeiro foi preso, após ser atendido no Hospital Geral de Roraima.

“Nos informaram que tem região em que o garimpo está funcionando normalmente, enquanto agem em outro campo. Falta estender mapeamento para localização e ação imediata da polícia. Se não estruturar, não resolve o problema. Eles têm os equipamentos, a comunicação, a alimentação, enfim. Tudo ainda em funcionamento. Isso não desestabiliza nada nem pressiona a retirada”, disse.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/02/liderancas-indigenas-temem-novas-acoes-de-garimpeiros-em-roraima.shtml

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