O indígena Genilson Kezomae, de 40 anos, é um dos protagonistas à frente da gestão dos projetos de etnodesenvolvimento realizados atualmente pela etnia Haliti-Paresi, no Mato Grosso. O resultado positivo das atividades na área de agricultura foi possível graças aos esforços de antepassados na busca por melhores condições de vida, o que influenciou outras gerações da etnia para a continuação e ampliação dos trabalhos.

Morador da aldeia Wazare, Genilson Kezomae se emociona ao lembrar do pai, Daniel Cabixi, que atuou na defesa dos direitos dos indígenas da região. “A nossa história começou pela necessidade, pela dificuldade enfrentada pelos índios que não tinham emprego, não tinham salário para manter suas famílias. A desnutrição era grande entre os idosos e as crianças nas aldeias. Então ali, enfrentando muitas dificuldades, eles precisaram ir atrás da sobrevivência nas fazendas que estavam se instalando na região”, conta Genilson.

A única oferta de trabalho que havia na época era na lavoura, o trabalho pesado era repassado aos índios pelos fazendeiros, como abrir o cerrado, limpar as áreas. “Nesse momento houve a virada na história: se o índio tinha a prática de plantar, por que não plantava nas suas reservas? Se nós sabemos trabalhar, por que vamos trabalhar para os outros? Afinal era o mesmo solo. Foi ali que eles começaram a se unir, a lutar para promover uma atividade produtiva que iria trazer os índios de volta para a sua terra”, afirma.

Hoje, ele se orgulha de dar continuidade ao projeto na região próxima ao município de Campo Novo do Parecis, a 360 km de Cuiabá. Genilson é o diretor financeiro da Cooperativa Agropecuária do Povo Indígena Haliti Paresi (Coopiparesi), uma das quatro cooperativas que foram criadas para comandar o trabalho nas lavouras mecanizadas instaladas nas Terras Indígenas Utiariti e Paresi.

“Nossa base de trabalho fica na fazenda Matsene Kalore, que na língua Paresi significa Roça Grande. Ali encontramos até três gerações trabalhando na lavoura, avôs, pais e filhos. O objetivo de toda essa luta nunca foi produzir riqueza, mas sim produzir oportunidades. Faço questão de deixar isso claro para cada pessoa que vem até aqui conhecer nossas lavouras. A gente precisava pensar no presente, em como fazer com que os jovens voltassem para trabalhar aqui depois de concluir os estudos. Era necessário ter uma alternativa de trabalho”, pontua.

O gestor salienta ainda que, para garantir esse resultado, a presença e o apoio da Funai foram imprescindíveis. “A Funai da atualidade buscou se adequar e se adaptar a essa nova necessidade dos indígenas, que foi ignorada por outras gestões, de décadas atrás. A Funai se modernizou, se atualizou e abriu o órgão indigenista para construir, conjuntamente, um novo processo de viabilidade, visando oportunizar aos indígenas a construção da sua economia dentro das aldeias”, destaca.

Definir as diretrizes foi fundamental para atingir o objetivo

Genilson explica que, para dar início aos trabalhos na lavoura, as lideranças precisaram definir diretrizes para seguir. “A ideia era essa: gerar emprego. Com emprego, vamos gerar renda, que vai gerar qualidade de vida aos indígenas. Essa qualidade iria proporcionar o acesso à educação e à saúde, o que, consequentemente, melhora a nossa cultura. Assim, iríamos cuidar mais das nossas aldeias e preservar o meio ambiente. Tudo se conecta, uma diretriz dá origem a outra. Foi com esse pensamento que começamos a luta para chegar até aqui”, afirma, ao lamentar que os mais antigos já não estão mais aqui para apreciar o resultado de sucesso.

Genilson faz frente não apenas ao trabalho nas lavouras: hoje, também é um dos principais incentivadores do etnoturismo na Terra Indígena Utiariti. Ele se envolve nas discussões, promove palestras e busca novas oportunidades para a expansão das aldeias, sempre na busca pela autonomia dos indígenas. “A geração de capital que fortalece as cooperativas também fomenta a renda das nossas comunidades, e tudo isso nos fortalece socialmente. Quando vamos para a cidade hoje, somos bem recebidos, somos vistos como bons clientes nas lojas, nos mercados. Antigamente não era assim. Então eu fico muito feliz e orgulhoso de saber que o meu trabalho, a minha luta, contribui para isso”, destaca o líder Paresi.

Apoio da Funai

A Nova Funai tem apoiado a produção agrícola dos Paresi por meio de diversas iniciativas como os convênios com instituições de ensino para a realização de cursos técnicos e o suporte à produção experimental de soja preta. Também na atual gestão da fundação, sob liderança do presidente Marcelo Xavier, foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em 2019 visando regularizar a produção agrícola, por meio de lavouras mecanizadas, nas Terras Indígenas Rio Formoso, Paresi, Utiariti, Tirecatinga e Irantxe, em Mato Grosso. Com o documento, os indígenas puderam retomar a utilização da área designada para a produção agrícola mecanizada.

Além disso, em 2021, durante a cerimônia de inauguração da maior casa tradicional-contemporânea já erguida pela etnia Paresi, Xavier entregou nas mãos do cacique Rony Azoinayee a Carta de Anuência da fundação para a atividade de visitação com fins turísticos na modalidade de etnoturismo, turismo cultural indígena de vivência, na Aldeia Wazare, conforme o Plano de Visitação apresentado pela comunidade.

Nos últimos 3 anos, os investimentos da Funai em etnodesenvolvimento foram de aproximadamente R$ 40 milhões em todo o país. Os recursos foram destinados a atividades de piscicultura, roças de subsistência, confecção de artesanato, produção agrícola, casas de farinha, casas de mel, entre outros.

Dessa forma, o trabalho da fundação contribuiu para levar dignidade e autonomia às diversas populações indígenas. Em 2021, em uma iniciativa inédita, a Funai adquiriu e entregou 40 tratores para fornecer apoio a essas atividades produtivas. A intenção é garantir a segurança alimentar das diferentes etnias e possibilitar que elas ampliem a produção, investindo em processos de geração de renda. Ao todo, a fundação investiu de mais de R$ 5 milhões na aquisição do maquinário.

Abril Indígena 2022

Na Campanha Abril Indígena de 2022, ano em que o Brasil celebra o Bicentenário da Independência, a Funai mostrou exemplos de protagonismo indígena que contribuem para a autonomia e independência das comunidades. A história de vida de Genilson fecha a série de reportagens especiais, publicadas nos canais oficiais da Funai, apresentando o perfil de quatro lideranças que buscam mudar a realidade de suas aldeias.

Bicentenário da Independência

Em 2022, também celebramos o Bicentenário da Independência do Brasil, comemorado em 7 de setembro. Para festejar a marca histórica, o Governo Federal realiza uma série de atividades para rememorar a trajetória do país ao longo dos 200 anos. Com o mote Liberdade, Independência e Soberania, há ações como o lançamento de publicações, incentivo à produção de arte sobre a temática, reforma de museu e mobilização da diplomacia brasileira para celebrar a data também no exterior.

Conheça também outros perfis de destaque do Abril Indígena: 

Cacique se destaca como exemplo de liderança feminina em sua comunidade

Idealizador de projeto turístico-cultural se destaca na busca pela autonomia indígena

Professora lidera cooperativa indígena e fortalece o etnodesenvolvimento nas aldeias

Assessoria de Comunicação / FunaiCategoriaAgricultura e PecuáriaTags: Abril IndígenaAutonomiaProtagonismo IndígenaLiberdade Série Especial

Fonte: https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2022/abril-indigena-com-apoio-da-funai-atuacao-de-gestor-indigena-contribui-para-o-protagonismo-de-comunidades-no-centro-oeste

Thank you for your upload