Intelectuais comentam o livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, uma das obras mais indicadas no projeto

Gabriel Araújo

BELO HORIZONTE

No mês passado, a terra indígena Yanomami completou 30 anos de demarcação, efeméride marcada, por um lado, pelo luto pela violência que a comunidade tem sofrido e, por outro, pela celebração dos direitos alcançados nessas três décadas.

Na ocasião, como contou reportagem da Folha, o anfitrião e líder indígena Davi Kopenawa lembrou a cosmogonia descrita no livro “A Queda do Céu”, escrito em coautoria com o antropólogo francês Bruce Albert.

“No começo do mundo, o céu caiu e matou o primeiro povo que nasceu. Nós somos o segundo povo, aquele que segurou o céu e pôde sobreviver”, ele disse, não sem antes ressaltar que o risco de uma nova queda é iminente.

Lançado em 2015, “A Queda do Céu” ocupa o segundo lugar no projeto 200 anos, 200 livros, que indicou importantes obras para entender o Brasil.

O livro foi recomendado por 20 dos 169 intelectuais que compuseram o conselho curador da iniciativa, promovida pela Folha, pela Associação Brasil Portugal 200 anos e pelo Projeto República (núcleo de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG).

“Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa, também ocupa a segunda posição, com 20 recomendações. “Quarto de Despejo” (1960), de Carolina Maria de Jesus, foi a obra mais indicada.

“Kopenawa reitera que os yanomami defendem a terra ‘porque desejam continuar vivendo nela como antigamente’”, diz a poeta e crítica literária Graça Graúna, uma das intelectuais convidadas pelo projeto.

“Que assim seja porque as palavras dos espíritos estão gravadas no mais fundo do seu pensamento e que, pela força de Omana (o Criador), essas palavras se renovam no xamã o tempo todo.”

Thyago Nogueira, diretor do departamento de fotografia contemporânea do IMS (Instituto Moreira Salles) e editor-chefe da revista ZUM, também recomenda o livro.

“O líder e xamã reinventa a compreensão do Brasil ao narrar a origem do mundo e de tudo o que é vivo, os fundamentos de sua civilização, sua luta incansável contra o genocídio e a falácia destrutiva da ideia de desenvolvimento promovida pelo ‘povo da mercadoria’”, ele escreveu.

Leia a seguir comentários dos curadores que indicaram “A Queda do Céu”.

DJUENA TIKUNA

Cantora, foi a primeira jornalista indígena Tikuna formada no estado do Amazonas

“A obra é uma esplêndida sessão xamânica guiada pelo líder yanomami Davi Kopenawa. O livro aborda elementos da cultura yanomami, sua visão de mundo, a importância das práticas xamânicas para a saúde do universo, um testemunho que vem da floresta com a legitimidade de seus espíritos.

Outra parte da obra narra a relação com os brancos: como estes lidam com a terra, a exploração do ouro e as doenças trazidas com os garimpeiros. Também é uma autobiografia de Kopenawa, uma das maiores lideranças indígenas do país, com reconhecimento internacional por sua luta em defesa da Amazônia.”

ERIC NOVELLO

Escritor, roteirista e tradutor de livros e quadrinhos, é autor da novela “Ninguém Nasce Herói”

“Registrado ao longo de anos pelo etnólogo Bruce Albert, o livro reúne relatos do xamã yanomami Davi Kopenawa, contando da sua preparação para se tornar xamã a seu ativismo pela demarcação de terras dos yanomami e preservação das florestas.

Por meio de um potente relato, aprendemos sobre os costumes, a cosmologia e a riqueza da cultura do povo Yanomami. Aprendemos ainda sobre o rastro de violência, destruição e doenças deixado pelo contato com missionários religiosos, garimpeiros e construtores de estradas.”

FERNANDA DIAMANT

É uma das criadoras da editora Fósforo e da livraria Megafauna; foi curadora da Flip

“Livro escrito a partir do relato do xamã e porta-voz dos yanomami, Davi Kopenawa, ao etnólogo francês Bruce Albert, que tiveram mais de 30 anos de convivência.

A obra é uma mistura de relato autobiográfico, história do impacto da chegada dos brancos —destruição, doença, violência—, xamanismo e cosmologia dos povos da floresta, e ainda uma mirada para o futuro e a importância da preservação da Amazônia.”

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Antes que o Céu Caia

O líder indígena Davi Kopenawa no início dos anos 1980

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GRAÇA GRAÚNA

Indígena potiguara, é poeta e crítica literária, autora de “Tessituras da Terra”

“Uma das temáticas do xamã Davi Kopenawa é a floresta. Na parte introdutória do livro, ele diz que gosta de explicar para os ‘brancos’ a importância dos saberes ancestrais e espera que os não indígenas parem de pensar que a floresta é morta e que ela foi posta lá à toa. O xamã explica que os não indígenas precisam ‘escutar a voz dos ‘xapiri’ (espíritos), que ali brincam sem parar, dançando sobre os seus espelhos resplandecentes (os rios, os lagos).

Kopenawa reitera que os yanomami defendem a terra ‘porque desejam continuar vivendo nela como antigamente’. Que assim seja porque as palavras dos espíritos estão gravadas no mais fundo do seu pensamento e que, pela força de Omana (o Criador), essas palavras se renovam no xamã o tempo todo.”

ITAMAR VIEIRA JUNIOR

Romancista, é autor de “Torto Arado” e colunista da Folha

“‘A Queda do Céu’ é um organismo vivo, como uma ‘pele de imagens’ –é assim que os yanomami se referem a documentos escritos diversos.

Centrado na vida do xamã e ativista yanomami Davi Kopenawa, na cosmologia de seu povo e atravessando a história do genocídio dos povos indígenas, desde a invasão europeia no continente americano até os nossos dias, o livro é a revelação do que poderíamos ter sido se tivéssemos sensibilidade para escutar o que os povos originários tinham –e ainda têm!– a nos dizer.”

JOEL ZITO ARAÚJO

Diretor de filmes como “A Negação do Brasil” e “As Filhas do Vento”

“É um manifesto, um livro autobiográfico e um modo de ver que se faz cada vez mais urgente: como viver com a floresta, com a diversidade de cultura e de povos, e como reaprender a pensar a terra e ajudar a salvar o planeta, a partir da imensa sabedoria ancestral dos povos indígenas.”

JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA

Diretor do Teatro Oficina

“O xamã Davi Kopenawa gravou em yanomami com o etnólogo francês, Bruce Albert, sua vida nas lutas com seu povo contra a cegueira do ‘mercado’. Esse livro revela o povo índio sujeito, com cultura xamânica que se aconselha com os ‘xapiri’, espíritos da floresta.

O livro é ‘manifesto xamânico’, revelando, nessa autobiografia, a luta pela floresta em pé, impedindo que a mineração envenene rios nos territórios sagrados. Demonstra que o desequilíbrio da terra pelo arrancar brutal de suas entranhas poderá trazer nosso fim: ‘A Queda do Céu’.”

O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa em participação na Flip em 2019 – Mathilde Missioneiro – 12.jul.2019/Folhapress

LIA VAINER SCHUCMAN

Professora da UFSC e autora de “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo”

“A violência, a destruição e a queda do céu estão assertivamente associados ao ‘povo da mercadoria’. O livro revela o que nomeamos como desenvolvimento e progresso como o fim de outros mundos. Um olhar para a violência colonial a partir daquele que há 500 anos vem sendo destruído por ela. Um livro de entrada para outros Brasis.”

LILIA SCHWARCZ

Historiadora e antropóloga, é professora da USP, cofundadora da Companhia das Letras e autora de mais de uma dezena de livros

“Os relatos desse importante líder yanomani foram registrados pelo etnólogo e amigo de mais de 30 anos, Bruce Albert. O livro traz a história de Kopenawa e suas meditações enquanto xamã diante, sobretudo, da atitude predadora dos brancos, com a qual seu povo sofre desde os primeiros contatos nos anos 1960.”

LUIZ ELOY TERENA

Coordenador da assessoria jurídica da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)

“O livro registra a vida e os pensamentos do líder e xamã yanomami, que é uma das personalidades indígenas brasileiras mais conhecidas no mundo hoje.

Kopenawa tem sido um porta-voz dos povos da Amazônia que lutam contra as novas invasões coloniais, representadas pela mineração, pela extração de madeira, pelo agronegócio e pelas grandes hidrelétricas.”

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Conheça a série ‘Genocídio do Yanomami: morte do Brasil’, de Claudia Andujar

Uma das 228 imagens de 'Genocídio do Yanomami: morte do Brasil', de Claudia Andujar, que são exibidas ao público na galeria Vermelho

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​MANUELA CARNEIRO DA CUNHA

Antropóloga, professora titular aposentada da USP e autora de “Cultura com Aspas” e “Negros, Estrangeiros”

“Este livro é uma obra-prima. Tornou possível –graças à longa amizade entre dois homens, ao conhecimento de um antropólogo da língua e do mundo dos yanomami, e à grande inteligência e sensibilidade de ambos os interlocutores– ter acesso como nunca antes a um universo de entrada muito difícil, o pensamento filosófico de um xamã e líder político de primeira grandeza.

É um diálogo de qualidade excepcional, que coloca em novo patamar o ofício do antropólogo e que revela com clareza como Davi Kopenawa interpreta e julga o Brasil contemporâneo.”

MAURICIO TERENA

Mestre em educação e assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)

“É uma obra que nos permite visualizar como o genocídio marca a história da formação do Estado brasileiro, nos despertando uma reflexão ímpar em alguns momentos da leitura, trazendo uma angústia pela história não contada dos brasileiros que aqui estavam antes de Pindorama se tornar Brasil.”

MILTON HATOUM

Romancista e tradutor, é autor de livros como “Dois Irmãos” e “Pontos de Fuga”

“Durante 12 anos, Bruce Albert conversou em yanomami com o xamã Davi Kopenawa. As conversas, gravadas e anotadas, foram traduzidas e editadas por Albert. Trata-se de um belíssimo e fecundo ‘pacto etnográfico’ entre o xamã e o antropólogo.

Kopenawa fala de sua vida, de sua sabedoria xamânica, de sua experiência no mundo dos brancos, da cosmologia e da história dos yanomami. Uma história que tem resistido a muitas tragédias: doenças transmitidas pelos brancos, ingerência nefasta de missionários evangélicos e sucessivas invasões das terras indígenas por garimpeiros.

Uma dessas invasões culminou no massacre de Haximu, em meados de 1993. É preciso conhecer, valorizar e defender a história material e espiritual dos povos originários do Brasil, essa pátria cada vez mais armada que amada.”

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Garimpo ilegal cresce na Terra Indígena Yanomami

Garimpo no rio Uraricoera, na TI Yanomami

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MOARA TUPINAMBÁ

Artista visual, curadora e ativista

“Um livro essencial para quem quiser entender melhor a noção de desenvolvimento e progresso do capitalismo, como o avanço dos brancos na floresta tem ocasionado as epidemias, as violências e a grande crise climática que estamos vivendo –tudo isso a partir da visão de um líder xamã yanomami.

A partir de seus relatos, que são transcritos por Bruce Albert, Davi nos conta sobre todas as violências que seu povo vem sofrendo desde os anos 1960 e nos alerta, em um tom profético, que quando o último xamã da Amazônia morrer, o céu cairá sobre todos e será o fim do mundo.”

RICARDO TEPERMAN

Editor na Companhia das Letras e autor de “Se Liga no Som”

“Fruto de uma colaboração de mais de duas décadas com o antropólogo Bruce Albert, ‘A Queda do Céu’ registra em primeira pessoa a vida e o pensamento do xamã yanomami Davi Kopenawa. O feito, inédito, fez do livro um divisor de águas na antropologia e na filosofia.”

THYAGO NOGUEIRA

Curador e editor, dirige o departamento de fotografia contemporânea do IMS (Instituto Moreira Salles) e é editor-chefe da revista ZUM

“Com 736 páginas, este livro é pequeno diante de sua importância monumental. Nele, o líder e xamã Davi Kopenawa reinventa a compreensão do Brasil ao narrar a origem do mundo e de tudo o que é vivo, os fundamentos de sua civilização, sua luta incansável contra o genocídio e a falácia destrutiva da ideia de desenvolvimento promovida pelo ‘povo da mercadoria’.

Com alta densidade mitológica, literária e visual, Kopenawa nos oferece a chance única de repensar a centralidade de nossa existência e evitar que o céu desabe sobre o futuro do país e do mundo.”

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/06/a-queda-do-ceu-expoe-sabedoria-de-xama-dizem-curadores-do-200-anos-200-livros.shtml

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