Gersem Baniwa, segundo docente indígena da UnB, esteve presente nas principais lutas dos povos originários por direitos básicos no país

Mariana Niederauer

Gersem Baniwa, segundo indigena professor da UnB – (crédito: Carlos Vieira/CB)

A Universidade de Brasília (UnB) agora é casa de outra referência na luta pelos direitos dos povos originários. Depois de Altaci Corrêa Rubim, cuja história a coluna contou na última edição do caderno Trabalho&Formação Profissional, Gersem José dos Santos Luciano, 57 anos, é o segundo professor indígena da federal. A história dele resume décadas de um processo de resistência que hoje culmina na existência de 100 mil indígenas com ensino superior.

A palavra existência não poderia encontrar um contexto mais adequado. Gersem Baniwa — nome de seu povo — nasceu e foi criado no Sítio Iakirana, na aldeia de Karapotó, que fica no município de São Gabriel da Cachoeira (AM). A cidade se localiza no médio Rio Içana, uma frente do Rio Negro, que segue seu curso também pela Colômbia e Venezuela e é habitado pelo povo Baniwa de ponta a ponta. Quando Gersem nasceu, a aldeia já havia se transformado em um centro missionário Salesiano católico. “Foi lá que cresci, me criei e estudei as primeiras séries do ensino fundamental numa escola missionária, dirigida pelas freiras missionárias salesianas.”

Depois de terminar o então 3º ano primário, o professor conta que começou uma odisséia para concluir os estudos básicos. “Primeiro, numa outra terra indígena, com o povo tucano, que é um outro rio, afluente do Rio Negro, para terminar o ensino fundamental”, relata. “E, depois, tive que ir a outro município, Barcelos, depois Manaus, para concluir o ensino médio. Basicamente foi um labirinto para concluir a educação básica.” Em todo o período que estudou fora da aldeia, Gersem ficava em regime de internato, assim como muitos da sua geração.

Irmãs e irmãos — sete ao todo — e a mãe, Marcília (Mati) Lizardo, de 85 anos, ainda moram na região. Duas vezes ao ano, durante as férias, Mapolero (seu nome indígena) segue para a terra natal com a família, para manter a cultura viva. “Eu nasci 100% na tradição da Baniwa. Só para você ter uma ideia do que isso significa, até os meus 12 anos eu não sabia nenhuma palavra na língua portuguesa, só na língua baniwa e na língua nheengatu (variação do tupi-guarani), que são as duas línguas da minha família”, conta o professor, hoje pai de cinco filhos e avô de três netos. “Meus pais são 100% analfabetos. Não sabem ler nem escrever, e não falam praticamente a língua portuguesa. A minha mãe fala um pouquinho e meu pai morreu sem praticamente aprender.”

“Eu não vou lá para fazer nada do que seja desse mundo daqui. São dois mundos completamente diferentes e não consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando eu vou lá, geralmente 30 a 40 dias, mergulho na vida, na tradição, no mato, na caça, na pesca, na roça”, detalha.

Manter essa vivência tradicional tem múltiplos significados na história do professor, mas o principal deles é justamente a sobrevivência. “As formas da colonização foram absolutamente trágicas para os povos indígenas. Por pouco o processo de colonização não nos fez desaparecer, por pouco, literalmente por pouco”, lembra o professor.

Pelo fim de uma tragédia anunciada

Sob esse risco iminente foi que uma geração inteira de indígenas percebeu a necessidade de reverter o que o Gersem classifica de “tragédia histórica”. Uma adolescência marcada pela ameaça e por um projeto de Estado que contava com o fim dos povos indígenas na virada para o século 21 os fez unir esforços para superar um fim que era dado como certo até mesmo por teóricos e pensadores da época. “Então, veja, eu cresci com isso: não vamos mais existir. Isso me marcou muito. Em algum momento da história eu e a minha geração assumimos esse compromisso de reverter essa história, de mostrar para nós, e não para o mundo, que iríamos, no fim, sobreviver, resistir. Esse é um compromisso, um projeto de reverter essa história trágica.”

A educação foi o caminho natural escolhido por Gersem para começar essa revolução, justamente por ter contribuído de forma decisiva para o projeto de integração, aliada à violência, em guerras declaradas contra os indígenas. “Era fazer com que o índio deixasse de ser índio para se tornar ‘branco’. Isso é integração: o índio esquece sua tradição, deixa de falar sua língua, esquece seus modos de vida, vai adotar a língua do branco, do colonizador, vai adotar o modo de vida do branco, e assim por diante”, explica.

Gersem viveu isso na pele. Lá atrás, na escola missionária salesiana. Os alunos indígenas eram proibidos de falar a própria língua e de comer alimentos tradicionais. As punições eram castigos severos. No início, ele conta que não entendia a gravidade daquelas atitudes, mas, aos poucos, a tomada de consciência veio. O contexto mundial, de pós-guerra, e início da constituição de organizações de defesa dos direitos humanos ajudou a combater o processo integracionista.

“Muitos intelectuais, como Darcy Ribeiro, começam a criar frentes de resistência e luta contra o projeto colonial do Estado brasileiro de desaparecimento. De certa maneira a gente foi motivado por isso a pensar, e aí já caiu a consciência, e se define essa nova pauta histórica”, resume o professor.

Diretoria eleita da Coiab em 1996, entidade que ajudou a fundar

Uma vida em três dimensões

Militância, academia e gestão pública. Essas são as três dimensões que Gersem construiu de maneira integrada ao longo dos anos. “No movimento indígena, eu sou mais conhecido como uma liderança do que como um educador, porque a minha vida inteira fui isso. Dirigi as principais organizações indígenas do Brasil”, diz. Foi um dos fundadores e dirigente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), além de integrar a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Participou da criação do Acampamento Terra Livre (ATL), maior assembleia dos povos e organizações indígenas do país, que ocorre sempre no mês de abril, em Brasília.

Na gestão pública, atuou como secretário municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira, na década de 1990, e como coordenador geral de Educação Escolar Indígena no Ministério da Educação. “Fizemos todo um trabalho histórico, até hoje referência, não só no município como no Brasil”, orgulha-se. Três anos depois da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), que instituiu a educação escolar indígena pela primeira vez como política nacional, Gersem foi pioneiro em implementar as diretrizes da nova legislação. “Antes, tudo era rural. Todas as escolas em aldeias eram chamadas rurais, professores indígenas eram chamados professores rurais. A gente essa transformação, não apenas de nomenclatura, mas conceitual, pedagógica.” Também foi conselheiro do Conselho Nacional de Educação (CNE) por dois mandatos.

A trajetória acadêmica, que acabou se tornando um elo entre essas duas outras dimensões, foi um processo de descobertas e de concretizar o inimaginável. “Quem nasceu naquele sítio, numa aldeia, não podia nem sonhar que um dia poderia sentar numa cadeira universitária como aluno”, diz o professor.

A distância era o primeiro empecilho. Mais de mil quilômetros separam a aldeia, em São Gabriel da Cachoeira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Na década de 1990, no entanto, quando Gersem já era uma liderança indígena, um projeto de interiorização da instituição teve início. “Até então, Ufam era só Manaus. E alguns cursos que não eram tão concorridos na capital eles levaram para o interior.”

Certo dia, sintonizado no rádio, Gersem ouviu que estavam perto do fim as inscrições para o vestibular. A notícia da aprovação no curso de filosofia, tempos depois, chegou como uma surpresa. “Foi fantástico para a minha geração. A maioria dos alunos que fizeram parte dessa primeira turma – 60% era indígena – acabaram se tornando lideranças: prefeitos, vereadores, dirigindo organizações, e assim por diante.” Ele se tornou, então, um dos poucos indígenas com diploma de graduação no Brasil.

Foi nessa época que Gersem participou de outro marco na história dos povos indígenas no Brasil, o Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI). Primeiro projeto apoiado com financiamento internacional, deu condições técnicas, legais e administrativas para passar recurso diretamente a indígenas. Até então, para receber qualquer verba era necessário que o processo passasse pela Funai. “Prevalecia a ideia de que os índios eram incapazes, a ideia da tutela, que era uma lei no Código Civil de 1973”, explica o pesquisador. “Deu certo. Tanto é que, hoje, o governo financia diretamente projetos indígenas sem intermediação da Funai.”

As portas abertas de um mundo novo

“Aí percebi que entrei no mundo burocrático do branco, que é altamente complexo, e minha formação de graduação ficou pequena”, diz. Era hora de seguir com a pós. Entrou para o mestrado já na UnB e, em seguida, o doutorado, concluído em 2010. Dois anos antes, passou no concurso para dar aulas na Ufam. Este ano, voltou a Brasília, dessa vez como professor do Instituto de Ciências Sociais.

Neste primeiro semestre, ministra a disciplina de Introdução à Antropologia na graduação. A ideia é passar a atuar também na pós, com disciplinas mais específicas, voltadas às epistemologias indígenas. “Acho que quando me convidaram para vir aqui queriam isso, alguém que complementasse. Para trazer algo de novo, de diferente, para ampliar o leque de conhecimento, de ciências que são trabalhadas aqui.”

Novo contexto, mesmos riscos

A ameaça de um fim iminente na virada do século se transformou em décadas de luta pela sobrevivência que elevaram de 50 mil para 1 milhão o número de indígenas no Brasil hoje. “A gente reverteu esse processo, e daí passamos a ter inúmeras conquistas, muitas. Por isso que eu disse que eu me orgulho dessa minha geração”, avalia o professor. Atualmente, reforça Gersem, não há aldeia sem escola e são 100 mil os indígenas com educação superior no país.

Mas os desafios se mantêm. “A gente está vivendo, de novo, é claro que em outro contexto, a sensação de que há um projeto do Estado querendo que a gente desapareça”, relata Gersem. Uma das questões mais urgentes, avalia o professor, é a do território e a necessidade de rompimento com a visão integracionista. “Sem terra para índio ele não vive, porque ele não vai ser índio em apartamento, em cidade. Ele precisa da terra, do território da floresta, do rio, para ele viver a cultura dele. Ser indígena é viver a cultura.”

Marco histórico

O Projeto Demonstrativo de Povos Indígenas (PDPI) é fruto de longo processo de discussão entre o governo brasileiro, o movimento indígena organizado da Amazônia, seus parceiros e instituições financiadoras internacionais. A origem da prosposta está conectada ao processo de apoio à proteção de florestas tropicais brasileiras pelo Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), decorrente de acordo realizado em 1991 entre representantes do governo brasileiro, União Europeia, Banco Mundial e G7, e após pressão exercida pelos movimentos sociais e ambientalistas na Eco92.

A contratação de Gersem Baniwa, com indicação de lideranças indígenas, marcou o início da formação da equipe própria do PDPI, que, em conjunto com a Coiab, realizou, entre 2000 e 2001, 16 oficinas de divulgação do programa em diferentes regiões da Amazônia brasileira, das quais participaram representantes de mais de 80 povos indígenas. Com essas oficinas, o programa foi divulgado e discutido junto às comunidades e organizações indígenas, fortalecendo o caráter participativo de sua proposta.

O início do recebimento de propostas de projetos das organizações indígenas pelo PDPI ocorreu no fim de 2001. Os primeiros oito projetos foram aprovados em junho de 2002 e começaram a receber financiamento em fevereiro de 2003. Com a assinatura do convênio entre o MMA e o Banco do Brasil em 12 de novembro de 2003, o repasse de recursos para os projetos foi regularizado. Ainda em 2003, a equipe do PDPI começou a elaborar um sistema e instrumentos de monitoramento, avaliação e sistematização participativa de projetos que se adequasse aos projetos indígenas.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/trabalho-e-formacao/2022/07/5018927-um-professor-entre-dois-mundos-gersem-baniwa-e-2-indigena-a-dar-aulas-na-unb.html

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