Belém (PA) – Na audiência pública realizada pela Comissão Externa da Câmara Federal, no dia 12 de julho, que acompanha as investigações sobre os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dominic Phillips, o indígena Beto Marubo, membro da coordenação da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), prestou homenagem aos indígenas, indigenistas e policiais militares do Amazonas que participaram das buscas aos restos mortais  do indigenista e do jornalista. Foram citados Higson Kanamari, Salomão Mayoruna, Benin Matis, Tomin Matis, Oseas Kanamari, Marki Mayoruna, José Kanamari, Benin Carlos Matis, além de Orlando Possuelo e os militares Valcicley Freitas, Dario Viana, Raiane Rocha e Ismael Costa, do 8º Batalhão da Polícia Militar de Atalaia do Norte. 

“Senhores, esses são os meus heróis. Eles estiveram conosco do início ao fim. E só sossegaram quando entregaram os corpos. Fui entregar o corpo para mãe dele, do meu amigo Bruno, lá em Recife. Digo isso porque ninguém reconheceu o trabalho desses parentes, então agora é público, vocês sabem quem são eles”, declarou Beto Marubo.

Estavam presentes à audiência, realizada no sistema presencial e remoto e transmitida pelo Youtube, o deputado federal José Ricardo Wendling (PT/AM), presidente da Comissão Externa ao Vale do Javari; a vice-presidente e deputada federal Joenia Wapichana (REDE/RR); a relatora e deputada federal Vivi Reis (PSOL/PA); o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Eduardo Fontes;  funcionários da Fundação Nacional do Índios (Funai); a substituta na Coordenação-geral de Índios Isolados e de Recente Contato, Priscila Ribeiro Cruz; e Paulo Henrique de Andrade Pinto, coordenador-geral de Gestão de Pessoas da Funai.   

Em seu discurso, Beto Marubo culpou diretamente o Estado brasileiro pelos assassinatos de Bruno e Dom, e também pela morte do indigenista Maxciel Pereira dos Santos, em Tabatinga (AM), em 2019 – um caso que ainda está impune.

“Eu quero dizer para a Funai: vocês ajudaram a matar o meu amigo [Bruno]. A omissão, a negação de vocês ajudou a matar meu amigo. Eu não falo do senhor Paulo Pinto, um cara que foi nomeado para ocupar um cargo, mas para Priscila, colega do quadro da Funai de Bruno. Muitos de vocês ajudaram a matar meu amigo, eu quero que vocês saibam disso. Vou sempre lembrar isso a vocês”, disse Beto, que continuou: “Ao delegado da Polícia Federal [Eduardo Fontes], quero dizer que a ausência do Estado brasileiro no Vale do Javari matou os dois meus amigos: Maxciel, em 2019, e o parceiro Bruno”.

A coordenadora substituta da Coordenação-geral de Índios Isolados e de Recente Contato, Priscila Cruz, não comentou as declarações.  

O delegado Eduardo Fontes disse que a Polícia Federal está ciente dos problemas na região e trabalha em todos os crimes que são da atribuição da corporação, inclusive nos ambientais. “Nesse período que demos total prioridade ao caso Bruno e Dom, estávamos engajados no esclarecimento, mesmo assim conseguimos reprimir o tráfico de drogas. Fizemos várias apreensões nesse período, inclusive nesse ano foram seis toneladas [de drogas] e 54 prisões realizadas. Isso envolve as regiões da Calha do rio Solimões, rio Madeira. Infelizmente eu não posso dizer o que vamos fazer e quando vamos fazer. Mas em breve vocês terão uma resposta da Polícia Federal”, disse.    

O indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram mortos a tiros, no dia 5 de junho, em uma emboscada no rio Itacoaí, na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Os corpos ficaram desaparecidos por dez dias, apesar das buscas feitas por indígenas, Polícia Federal, Forças Armadas e polícias Militar e Civil do Amazonas. No dia 15 de junho, o pescador Amarildo dos Santos, o “Pelado”, confessou o crime e apontou o local onde os corpos estavam enterrados, esquartejados e carbonizados. 

Além de “Pelado”, a Polícia Federal prendeu os também pescadores Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos”, que se mantém calado e é irmão de “Pelado”, e Jefferson Lima da Silva, o “Pelado da Dinha”, que confirmou a participação no duplo homicídio. Os três foram transferidos para a capital amazonense e presos preventivamente. O comerciante Rubens Villar, conhecido como “Colômbia”, é suspeito de ser o mandante do crime, mas está preso por acusação de portar documentos falsos, também em Manaus. 

Para a Comissão Externa da Câmara Federal, os assassinatos de Bruno e Dom não se restringem à pesca ilegal do pirarucu, mas teria fortes ligações com lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. “A prisão de Colômbia nos ajuda a desvendar essa rede criminosa que tem feito vítimas e imposto o medo no Vale do Javari. Por isso, é fundamental reforçar a segurança e a presença do Estado na região, protegendo indígenas e, em especial, às pessoas ameaçadas de morte”, disse a deputada Vivi Reis.

Abandono da Funai

Indígenas durante uma manifestação em Atalaia do Norte após o assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips (Foto: Nailson Tenazor/JamboVerde/Amazônia Real)

Beto Marubo também denunciou o abandono atual, por parte dos órgãos de segurança pública, em que se encontra o Vale do Javari. Segundo ele, após as buscas pelos corpos de Bruno e Dom, que envolveram significativo esforço conjunto das Forças Armadas, Polícia Federal e Polícia Militar do Amazonas, após sofrerem pressões nacionais e internacionais, todos foram embora. “Não só os indígenas foram abandonados, como também os servidores da Funai”, disse. “Os servidores do órgão indigenista estão acuados”. 

“A coordenadora de Atalaia do Norte está trabalhando às escuras e com a porta fechada, com medo de levar um tiro”, denuncia Beto. Outro risco levado por ele à audiência foi a presença de “colombianos suspeitos” indo à sede da Univaja e na Funai de Tabatinga. 

Segundo ele, esses colombianos foram às sedes e fizeram questionamentos desconexos, apresentando-se como professores.  

“O Estado continua não atuando, não vejo nenhuma providência tomada lá, não mudou nada. A ausência do Estado e o vácuo das instituições é que vêm proporcionando o aumento da criminalidade na região. Queremos desde já que a Polícia Federal esteja presente na região, a própria presença de vocês é que inibe os criminosos, o estado Amazonas também precisa mandar o Batalhão Ambiental junto com o Ibama na nossa região. O que de concreto vocês estão fazendo? Não quero saber de desculpas, falta de recursos. Vocês não estão dizendo que estão protegendo a Amazônia? Nós estamos sós, não tem ninguém protegendo a Amazônia”,  afirmou. 

Ao longo da audiência, a deputada Vivi Reis indagou o superintendente da Polícia Federal sobre quais medidas estão sendo tomadas para garantir a proteção dos indígenas diante do cenário conhecido e relatado por ela em um relatório preliminar da comissão apresentado na Câmara no último dia 6. Vivi Reis também protocolou no Ministério da Justiça um pedido de afastamento imediato do atual presidente da Funai, Marcelo Xavier.

Priscila Cruz, coordenadora substituta da Coordenação-geral de Índios Isolados e de Recente Contato, disse que sem o apoio da Força Nacional de Segurança a Funai não consegue garantir a integridade dos servidores e dos povos indígenas. “Com toda a restrição orçamentária e de servidores, a Funai atua nas bases e não deixamos de atuar nas terras indígenas. Os servidores da Funai atuaram nas buscas, em conjunto com a Univaja e os povos indígenas”, disse.   

Delegado da PF nega haver mandante

Eduardo Alexandre Fontes, Superintendente da Polícia Federal, representando o Ministério da Justiça e Segurança Pública na audiência (Foto: Alan Rones/Câmara dos Deputados)

O delegado Eduardo Fontes fez uma explanação sobre as ações da Polícia Federal durante as buscas e as prisões dos criminosos acusados das mortes de Bruno e Dom. Sobre o crime de ocultação dos restos mortais do indigenista e do jornalista, citou os primeiros nomes e apelidos dos cinco acusados, pessoas que estão em liberdade por determinação da Justiça: Amarílio, Edivaldo, Elicley, Otávio, o “Guerão”, e “Patutti”. Segundo o delegado, são todos do “clã da família do Amarildo”.

Mesmo diante de indícios apontados nas denúncias da Univaja e nas apurações já veiculadas amplamente pela imprensa nacional e internacional a respeito da existência de um suposto mandante do assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, o delegado segue reiterando ainda não haver dados concretos sobre isso. As denúncias ligam a figura de “Colômbia”, codinome de Rubens Villar – um dos nomes utilizados pelo comerciante estrangeiro que tem negócios na cidade de Benjamin Constant, a poucos quilômetros de Atalaia do Norte – ao crime. 

“Colômbia” foi preso pela PF no último dia 7, após se apresentar espontaneamente na sede do órgão, na cidade de Tabatinga, para prestar informações à polícia. Após confessar ter ligações comerciais, por meio da pesca ilegal, com Amarildo dos Santos, o “Pelado”, asassino confesso de Bruno e Dom, o homem apresentou documentos falsos, inclusive identidades do Brasil, da Colômbia e do Peru. Os policiais o prenderam em flagrante. 

Em ofício de março deste ano (quatro meses antes do assassinato), a Univaja apontava “Colômbia” como “o maior comprador e financiador atual das invasões na Terra Indígena Vale do Javari”. Apesar disso, o superintendente da PF afirmou, durante a audiência que as investigações até agora não apresentam elementos suficientes que comprovem a existência de um mandante para o duplo assassinato. 

“A Univaja foi ouvida e nada de concreto foi trazido em relação ao mandante nem à conexão dos fatos. Quero deixar claro que nós vamos avaliar todas as linhas investigativas. Se tiver um mandante, nós vamos ter condições de chegar [a ele] e apresentar esse trabalho. É o que posso garantir para os senhores”, declarou Fontes. 

Deputada Vivi Reis (Psol-PA) e deputado José Ricardo (PT-AM), relatora e presidente da comissão externa da Câmara Federal que acompanha as investigações sobre o duplo assassinato no Vale do Javari (Foto: Alan Rones/Câmara dos Deputados)

Cícero Pedrosa Neto é repórter multimídia e colaborador da agência Amazônia Real desde 2018, atuando em temas relacionados ao meio-ambiente, impactos sociambientais da mineração, populações quilombolas, populações indígenas e conflitos agrários. Em 2019 foi um dos jornalistas premiados com o 41º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humano na categoria multimídia com a série “Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil”, um trabalho colaborativo entre mídias digitais independentes: #Colabora, Ponte Jornalismo e Amazônia Real. Foi bolsista do Rainforest Journalism Fund | Pulitzer Center em 2020. É fotógrafo, documentarista, roteirista, podcaster e mestrando em sociologia e antropologia pela Universidade Federal do Pará. (pedrosaneto@amazoniareal.com.br)

Fonte: https://amazoniareal.com.br/beto-marubo-exalta-os-herois-das-buscas-por-bruno-e-dom/

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