Machadinhas de pedras foram os primeiros vestígios encontrados. (Foto: Bixku José Luís Henrique Huni Kuĩ)

Por José Luís Henrique Bixku Huni Kuĩ

Sou AAFI na Aldeia Glória de Deus, Terra Indígena Kaxinawa/Ashaninka do Rio Breu, e vou contar a história da minha pesquisa. Eu escolhi fazer essa pesquisa sobre florestas culturais e a arqueologia indígena para minha monografia do Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas, porque acho que é um estudo importante para os indígenas e também para o mundo de fora.  Antes da chegada dos brancos a gente fazia muitas coisas, muitos trabalhos, fazia muita cerâmica, terçado de paxiúba e outros instrumentos. Nosso trabalho como Agente Agroflorestal Indígena (AAFI) é manter e cuidar da floresta, se não tem a floresta a terra vai secar. A floresta mantém a água, faz sombra, não faz muito calor dentro dela, ela ajuda a controlar o clima do planeta. Queremos mostrar o nosso trabalho e queremos que seja reconhecido pelo cuidado que temos com a floresta.  Eu gostaria que essa pesquisa fosse publicada para que as pessoas possam entender meu estudo e meu trabalho.

Nawe ẽwani, nawe wanibu, ketxapakesh natea anibu henenamakia inu manakaya nua 

Hurua ui ki ê akima has ka nimera nishu shenipabu  haburuku hiwêshu bai  wapaunibu  nawe manakaya nu râ  na kexapakesh inu na makaruwe na mai mise inu haska uiki ê  akimaki nuku beyara habe mera nu i kaki niweira  huniKuĩ hiwea  bura haska  ipunibuki hanu nawa hutu betireamarâ daya pauni buki harabesma rayawakina hati apaunibuki habia huni  inu aiburâ na mapua kexawaki namai tish waki shêpana pixiwaki payatiwaki txitxawaki  dese keneyawaki haska kena hunina nenasepatiwaki txa rawaki xukitewaki nena sepatiwaki has kawaku beraxinabuki dayawaki haska inu nimekêki na hene na ni  mekeki hatu utawakena bare Kuĩme ama ikatsirâ naskatiana raya ni  ibu rayakina dasebes numekeki nu akuberã na eskatiana nukuraya nawabu nuku unatiwa nu kika habia maê dasebis bu uishanubu ê akai harere xinaki keneki matu yui nu nikakawe habia dasebesbu hatu yumebu una shu bua nushû hatuyuse kubai shanubuna  haska inu ana hamê nudaya katsi ikamki  na estiana nuku governo nuku manakuki pewa nuki ikai  haskarâ hati nu huni Kuĩ niweaburâ hene rebu kire no hi wea burâ na hene mai kireabu   inu  haska  inu  nawâbu nuku manakuke paê wabu nukikai pe ki ui raka we nuku haska merabewaburâ haska inu huni Kuĩ haska inu   nunu na hene buki  nuhiweburâ hanu  shûkua nu hiwe shu nuraya wakanairâ atekirâ

Bixku José Luís Henrique Huni Kuĩ, AAFI, durante pesquisa na terra indígena Kaxinawa/Ashaninka do Rio Breu. (foto: Acervo/CPI-Acre)

Florestas Culturais

Muitos anos atrás os indígenas já trabalhavam com agrofloresta cuidando da natureza, da floresta, da terra, da água, do ar, porque era assim que eles se sustentavam. Eles faziam artesanato com muita madeira, palmeira e terra. Usar esse material faz parte da sabedoria Huni Kuĩ.

Os parentes do passado plantavam perto da maloca a jarina, a pupunha, o uricuri, a castanha, o patoá, a bacaba e o murmuru. Na minha pesquisa eu encontrei os vestígios dessas plantas. Além disso faziam medicina e usavam também barro para fazer cerâmica. Também usavam semente, fruta, casco, folha para fazer o daime. Uma vez eu andava caçando e saí em uma capoeira antiga. Aí achei vestígios de cerâmica – esses pedaços a gente chama de kexapakesh – machado de pedra, pão do índio, osso gigante. Foi no igarapé que encontrei pedaços de cerâmica desenhada com kene dos Huni Kuĩ. Só depois das aulas de Arqueologia Indígena na Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas, no Centro de Formação dos Povos da Floresta, que eu resolvi pesquisar esse tema.

O primeiro vestígio eu achei em 2004, andando na aldeia. Achamos um machado de pedra no terreiro e eu pensei: “vou guardar esse machado, um dia vou estudar e pesquisar com alguém como morava nosso povo Huni Kuĩ aqui!”.  Nesse mesmo lugar tem muitos vestígios de cerâmica de todo tipo: grosso e fino, desenhado e sem desenho, inteiro e em pedaços. Nesse tempo eu fiquei pensando como fazer para estudar isso. Pensei também que aqui os parentes já viviam neste lugar há mais de 500 anos atrás.

Antigamente tinha muita fartura de caça, peixe, floresta medicinal, sem ameaças, impacto, invasão, então o povo vivia bem. Hoje em dia tem ameaça das florestas medicinais, da terra, da água, poluição e é escasso em caça, aqui já passaram caçadores ameaçando os animais. Nesse tempo não tinha nawa (não indígenas)! E nós tínhamos combinação com os animais. A cutia dava o machado dela para os indígenas poderem fazer o roçado deles para comer. A cutia falava para eles: “Eu dou o meu material, mas quando você fizer o roçado eu como também, você não fica com raiva de mim porque eu dei o meu material, mas eu vou comer também, não tenho como fazer”. O pajé não comia muito, não comia muita carne, não comia muita fruta, ele falava com toda a natureza e comia pouquinho.

Antigamente nós éramos fortes e guerreiros. Depois, quando chegaram os nawas, acabaram com tudo: mataram o pajé, mataram todos, deixaram só um bocado e esquecemos muita coisa, mas nós não esquecemos a nossa língua, porque a nossa língua é na nossa mente. É só o material que esquecemos e hoje em dia nós estamos com todo o material do nawa. Ficaram os vestígios que nós vamos achando.

Nesse tempo o povo morava mais no olho d’agua, na grota do igarapé, não morava na beira do rio, moravam a 15 minutos, meia hora do igarapé. Por isso eu achei vestígios perto do igarapé. As mulheres vinham pegar água, escorregavam, caíam e quebravam o pote delas e deixavam esse pote. Quando eu achava esse pote pensava: “Nesse lugar moravam indígenas, então vou procurar!”. Primeiro eu procurava no igarapé, depois eu andava na terra firme, até que achei esse pedaço de vestígio como os machadinhos de pedra.

Em 2009 iniciei o Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas e comecei a marcar no mapa os vestígios. Aprendi que a cerâmica, a palheira, o coqueiral, as jarinais, são sinais e mostram que os indígenas moravam lá. Quando voltei para minha aldeia comecei a fazer o monitoramento e essa pesquisa. Comecei a andar dentro de nosso pique de caçada. Eu vi tanta palmeira e percebi que era capoeira antiga. Tinha mais de 30 pés de shubi (ufe) nesse lugar e também tinha muito cocal na capoeira e no mesmo lugar tinha também cerâmica quebrada de desenho marcada com unhas. Então pensei que os parentes antigos tinham plantado para comer ou fazer remédio. Por isso eles plantaram muitas palmeiras porque também servem para se alimentar, servem para material de artesanato e para construção de casa.

Quando eu vou pesquisar e procurar os lugares onde tem vestígios eu vou sozinho, uso a medicina e começo a lembrar: “antigamente nós sofríamos, mas não com doenças, só sofríamos com a matéria para produzir o material porque não tinha como derrubar madeira ou pupunha para fazer flechas. Usávamos dente de paca e de capivara para amolar as flechas. Hoje estamos bem de material, estamos ligados com os brancos”.

Eu fiz uma pesquisa sobre os vestígios arqueológicos e a natureza viva, mas ela não está terminada, faltam ainda muitas informações sobre as histórias de ocupação dos povos indígena nessa parte do Brasil. Penso que as pesquisas nunca se acabam e pretendo dar continuidade nela. Agora que sou professor e agente agroflorestal vou convidar os meus alunos para fazer a pesquisa juntos com eles. Esses vestígios são documentos que devem servir para a demarcação de nossa terra. Tem nawa falando que nós não temos terra, porém essas marcas deixadas pelos parentes de antigamente mostram que a terra sempre foi nossa. A floresta está cheia de marcas dos povos indígenas e por isso que chamo de florestas culturais.

*Este artigo foi retirado da monografia apresentada por José Luís Henrique Bixku Huni Kuĩ, para conclusão do Ensino Médio Profissionalizante como Agente Agroflorestal Indígena, iniciado em 2009 junto à Comissão Pró-Índio do Acre, no Centro de Formação dos Povos da Floresta. Orientadoras: Gisela de Andrade Brugnara e Daniela Marchese.

Fonte: https://cpiacre.org.br/coluna-abril-no-acre-indigena-capoeiras-ancestrais-e-vestigios-arqueologicos-nas-matas-do-rio-breu/

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