Entre os dias 24 e 27 de fevereiro de 2026, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), por meio do seu Departamento de Comunicação e da Rede de Comunicadores Indígenas Wakywaa, realizou o 9º Encontro de Cidadania Digital, na comunidade indígena Tabalascada, T.I. Tabalascada, região Serra da Lua, em parceria com o Projeto Terra Preta.

A abertura foi realizada com cantos e danças tradicionais, defumação de maruwai e apresentação, por regiões, dos comunicadores presentes. Mais de 30 comunicadores das regiões Serra da Lua, Serras, Tabaio, Alto Cauamé, Alto Miang, Wai Wai, São Marcos, Surumu e Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol- CIFCRSS participam do encontro, incluindo integrantes da Rede Wakywaa e representantes de diferentes territórios. O encontro tem como objetivo fortalecer a comunicação indígena como ferramenta de resistência, defesa territorial e afirmação cultural dos povos indígenas de Roraima.

O Conselho Indígena de Roraima foi representado pelo vice-tuxaua geral, Paulo Ricardo, pela coordenadora do Departamento de Juventude, Raquel Wapichana,  Departamento de Comunicação, representado pelo coordenador Charles Taurepang e pelo fotojornalista Maciel Macuxi. Também compuseram a mesa de abertura os coordenadores do Projeto Terra Preta, Jader Gama, Nayara Kambeba, e Nailson Wapichana, parceiros na realização da formação, que contribuíram com metodologias e experiências voltadas ao fortalecimento da cidadania digital nos territórios.

“Esse encontro tem como objetivo fortalecer a rede de comunicadores indígenas Wakywaa, com trocas de experiências, oficinas e, principalmente, plantar sementes em cada um dos participantes para que levem para os territórios e germinem em suas comunidades o conhecimento adquirido aqui”, afirmou Charles Taurepang.

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Dinâmicas e mesa de abertura do Encontro. (Fotos: ASCOM/CIR)

O CIR investe na formação de comunicadores indígenas desde a criação do seu Departamento de Comunicação, fortalecendo a produção de conteúdos próprios, a defesa territorial e a valorização cultural nos territórios. Em 2019, esse processo foi ampliado com a criação da Rede de Comunicadores Indígenas Wakywaa, consolidando uma estratégia permanente de articulação, formação e troca de experiências entre jovens comunicadores das diferentes regiões. Ao longo desses anos, a rede tem se consolidado como uma das principais experiências de comunicação indígena no Brasil, ampliando a presença dos povos indígenas nos meios digitais a partir de suas próprias narrativas. A parceria com o Projeto Terra Preta soma a esse processo, contribuindo com intercâmbios e metodologias desenvolvidas em diferentes territórios da Amazônia.

Nayara Kambeba, porta-voz da coordenação do projeto, destaca, “Quando falamos de Terra Preta e de Ajuri, estamos falando de tecnologias ancestrais que sempre existiram nos nossos territórios. A Terra Preta é ciência indígena, construída com conhecimento acumulado ao longo de gerações. O Ajuri é a prática do fazer coletivo, do trabalho em união. Ao trazer esses fundamentos para o conceito de Terra Preta Digital, mostramos que o ambiente virtual também pode ser um espaço de construção coletiva, de fortalecimento das nossas narrativas e de produção de conhecimento a partir da nossa própria visão de mundo”.

Durante os dias de oficina, a programação foi pensada para fortalecer não apenas as habilidades técnicas, mas principalmente a autonomia na comunicação dos povos indígenas nos territórios. As atividades buscaram ampliar as ferramentas já utilizadas pelas regiões, consolidando a comunicação como instrumento estratégico de defesa, mobilização e afirmação cultural.

Um dos destaques foi a criação e produção de podcast e videocast, formatos que vêm se consolidando como importantes meios de diálogo com as comunidades e com o público externo. A iniciativa amplia as possibilidades de circulação das narrativas indígenas, permitindo que as próprias lideranças, juventudes e comunicadores produzam conteúdos em áudio e vídeo a partir de suas realidades, línguas e vivências.

O jornalista Felipe Medeiros conduziu a oficina de podcast, e destacou que:  “Quando dominamos essas ferramentas, não dependemos que outros falem por nós, contamos nossa própria história”.

Outra atividade de grande relevância foi a aula prática de manuseio de drones. A formação possibilitou aos comunicadores aprender técnicas de operação e captação de imagens aéreas, recurso que fortalece tanto a produção audiovisual quanto o registro e monitoramento dos territórios, contribuindo para a proteção das comunidades e a documentação das ações desenvolvidas nas regiões.

A oficina de drone foi ministrada por Maciel Macuxi, fotojornalista do Departamento de Comunicação do CIR, que reforçou: “Vocês, como comunicadores, precisam saber manusear o equipamento para que, quando as lideranças precisarem de apoio, estejam aptos a acompanhar os trabalhos de monitoramento dentro dos territórios indígenas.”

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Comunicadores durante as oficinas. (Fotos: Divulgação- CIR)

Além dessas atividades, os participantes também tiveram oficinas de produção de matérias escritas, diagramação de sites próprios para as regiões, edição de vídeos e fotografia, fortalecendo as capacidades técnicas dos comunicadores que atuam diretamente nos territórios.

Simone Clarindo, do povo Macuxi, da comunidade Camará, região Baixo Cotingo, conta que está na comunicação há mais de 4 anos e deixa um recado para os novos comunicadores: “Venho atuando há mais de 4 anos e, com esse tempo, ganhei muita experiência e aprendizado. Tudo o que aprendi tenho repassado para os novos comunicadores. Atualmente, foi indicada uma nova comunicadora, Elisiane Macuxi, da comunidade Água Fria, da minha região. Ela tem muito interesse e tudo o que aprendi tenho compartilhado. Essa formação foi de grande importância para nós. Eu também espero que os novos comunicadores nunca desistam, que se fortaleçam cada vez mais e que a gente possa continuar os trabalhos”.

Dedson Martins, da comunidade Barata, região Tabaio, entrou recentemente para a Rede Wakywaa. Formado em Tecnologia da Informação, tem gerenciado as páginas da região Tabaio nas redes sociais. Em sua primeira participação em uma formação promovida pelo CIR, ele deixa um recado para a juventude: “É uma grande oportunidade estar aqui. As trocas de experiências, viagens e formações agregam muito valor à divulgação da nossa cultura e da nossa história. Espero que quem ainda não conheça a rede venha conhecer nosso trabalho e somar em nossa luta.”

O 9º Encontro de Cidadania Digital reafirma o compromisso do CIR em fortalecer a comunicação indígena como instrumento de autonomia, defesa dos territórios e enfrentamento à desinformação, consolidando a Rede Wakywaa como estratégia permanente de formação e articulação dos comunicadores indígenas de Roraima.

Texto: Charles Taurepang

Fotos: Marcelino Baniwa, Jonildes Macuxi, Gleidson Macuxi, Eduardo Rodrigues (Comunicadores), Charles Taurepang e Maciel Macuxi (ASCOM/CIR)

Fonte: https://cir.org.br/post/comunicadores-indigenas-participam-do-9o-encontro-de-cidadania-digital