Vista do arquipélago do Bailique, na foz do rio Amazonas, cercado por vegetação amazônica – Adriano Vizoni/Folhapress
- Livros de Milton Hatoum e Pedro Cesarino levam leitor aos encantos e perigos das águas amazônicas
- Florestas escondem sonhos de riqueza, violência e disputa por territórios
Ailton Krenak
Escritor e líder indígena. Autor de ‘Ideias para Adiar o Fim do Mundo’ e ‘Futuro Ancestral’
“Órfãos do Eldorado”, do escritor amazonense, agora imortal da ABL, Milton Hatoum, é leitura que fiz neste fevereiro que chove, chove e derrete cidades inteiras.
O romance conta histórias de mundos submersos, lendas de seres encantados que habitam cidades ribeirinhas com palácios dourados, e atraem a imaginação de quem vive nos grandes rios onde os limites da floresta e das águas têm que ser observados por quem vive nas suas margens. O Eldorado que atrai para o fundo das grandes águas amazônicas é como espelho do mundo que pisamos.
Fantástico universo ribeirinho com seres que transitam entre mundos e transformam a realidade vivida por simples mortais humanos. A lenda que se repete de tesouros e riquezas projetados nesse Eldorado, que está presente também em outras culturas, foi lançada por viajantes e aventureiros do “novo mundo” no vasto mundo das águas e florestas da grande região amazônica.
A fúria em busca de riquezas e desilusões amorosas com elementos fantásticos (Arminto e Dinaura) são o motor da história desse Eldorado no fundo das águas.
O livro teve sua primeira edição em 2008, pela Companhia das Letras. Neste começo de ano li uma reedição de 2025.
Já “Os Urubus Não Esquecem”, livro de Pedro Cesarino, também edição de 2025, pela editora Todavia, leva o leitor ao mundo das águas nas fronteiras do Brasil com Colômbia, nas florestas que escondem outros sonhos de riqueza, violência e disputas pelos territórios até ontem imaginados como florestas intocadas, onde povos indígenas surgem vez ou outra como “isolados ou sem contato” com o mundo da mercadoria.
As águas e florestas em choque com a invasão de mundos, muitos mundos onde os protagonistas guiam as surpresas do leitor entre árvores calcinadas, ganância e manipulação dos ribeirinhos por organizações criminosas invisíveis.
Manaus e pequenas cidades da fronteira imersas na floresta são palco de transações milionárias, desaparecimentos e crimes nunca investigados, com jovens desgarrados de suas vidas comunitárias, sumindo sem deixar qualquer pista, onde o saber dos humanos não alcança e outras visões de mundo são convocadas a desvendar as tramas, deslindar mistérios.
O autor tem pesquisas como antropólogo junto a povos da região, e sua ficção é muito beneficiada pelo mergulho que faz nos mitos e nas tragédias reais que pôde testemunhar nas florestas do rio Javari.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ailton-krenak/2026/02/mundos-imaginarios-eldorados-e-urubus.shtml
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