Comunicadores indígenas se reúnem em Brasília para fortalecer a atuação política e combater a desinformação nos territórios. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Coordenador-geral da Coiab alerta para cenário de guerra contra instituições e territórios

Kennedy Cruz

A capital federal tornou-se o centro de uma análise sobre o cenário político e socioambiental brasileiro nesta terça-feira(31), durante a Oficina Presencial da Rede de Comunicadores e Comunicadoras Indígenas da Coiab, um encontro voltado para a formação política e o fortalecimento da comunicação na Amazônia em que lideranças indígenas e especialistas debateram os desafios impostos por um cenário de retrocessos institucionais e a força de narrativas contrárias aos povos originários.

O evento reuniu jovens indígenas comunicadores da Amazônia para discutir a conjuntura política e social do país. Para o coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Toya Manchineri, o Brasil atravessa um período que desafia a própria existência das instituições.

“Nós passamos por seis anos de um governo que trouxe para o meio de todos nós o que tem de pior no ser humano”, afirmou Manchineri. Segundo ele, o projeto político recente não foi apenas de gestão, mas de destruição deliberada de órgãos vitais como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que foi deixada “sucateada”.

O cerco legislativo e institucional

O líder indígena destacou que, embora o atual governo tenha retomado espaços de participação e criado o Ministério dos Povos Indígenas, a conjuntura no Congresso Nacional é de “incerteza”. O líder indígena ressaltou que a força do Legislativo tem sido superior à vontade do Executivo em cumprir a Constituição Federal.

“Se você olhar para dentro do Senado e da Câmara, talvez 70% ou 80% dos representantes sejam contra os direitos dos povos indígenas”, analisou Manchineri. Esse cenário reflete diretamente na estagnação das demarcações de terras, onde apenas uma pequena fração das áreas previstas avançou efetivamente.

A análise do coordenador da Coiab aponta para uma realidade de “guerra política” onde leis, como a do marco temporal, são editadas e reeditadas pelo Congresso Nacional para relativizar direitos inconstitucionais. Para ele, o papel da comunicação indígena nesse contexto é “fundamental para combater as mentiras” que circulam nos territórios.

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab)
Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) | Crédito: Flávia Quirino/BdF DF

A polarização e o uso do medo

Comunicadora e especialista em políticas ambientais, Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA), complementou a análise alertando para a conjuntura de retrocesso socioambiental que afeta as instituições e o setor privado. Segundo ela, a comunicação estratégica deve focar em conquistar o “miolo” da sociedade brasileira, aquelas pessoas que ainda não conhecem a realidade indígena e podem se tornar aliadas na defesa da floresta.

“Temos que disputar no imaginário da população brasileira o entendimento sobre a importância desses territórios e desses modos de vida”, defendeu. 

Ela destacou tembém que o cenário brasileiro está profundamente conectado a fatores internacionais, como guerras externas e a influência da extrema direita.

“Teremos uma eleição polarizada, afetada pela guerra, o que aumenta o preço dos alimentos e do combustível”. Ela alertou que a direita utiliza estrategicamente o desabastecimento e o medo para desestabilizar governos progressistas.

Ramos também ainda para os perigos das notícias falsas e do uso do medo como ferramenta política. “A forma como a direita grita nas redes sociais faz parecer pra gente que eles têm mais votos do que eles têm. Eles tentam ganhar no grito, mostrando que estão melhores na fotografia”, observou Adriana, reforçando a importância de uma comunicação baseada na realidade dos territórios para refutar mentiras e preconceitos.

Comunicação

Para os especialistas, a comunicação indígena deve ser encarada como uma ferramenta de “incidência política estratégica”. Adriana ressaltou que, às vezes, uma pergunta bem formulada a um órgão governamental pode ser mais eficaz do que uma denúncia pública para fazer o governo recuar de decisões prejudiciais.

“A comunicação que vocês fazem tem a capacidade de tirar as pessoas desse lugar de desconhecer a realidade indígena e conquistá-las para terem uma visão simpática”, pontuou. Ela reforçou a necessidade de preparar lideranças para responder a perguntas difíceis e lidar com o media training cotidiano da luta política.

Adriana Ramos (ISA)
Adriana Ramos (ISA) | Crédito: Flávia Quirino/BdF DF

A formação em Brasília também é um espaço de articulação interna para a Rede de Comunicadores Indígenas da Coiab. Kaianaku Kamaiurá, coordenadora da rede, explicou que o objetivo é preparar os comunicadores para uma atuação que vá além do registro fotográfico, focando na incidência política nacional e internacional.

“Acreditamos que não existe limite nem fronteira para a comunicação, ela é aberta para todo mundo”, afirmou Kaianaku. 

Ela ressaltou que o encontro presencial é importante para melhorar a atuação indígena na Amazônia, permitindo que a comunicação flua de dentro dos territórios para fora, e vice-versa, fortalecendo a luta política através da informação

Vozes femininas e denúncia

Nesse cenário, a voz das mulheres indígenas também ganha destaque como ferramenta de denúncia e reivindicação de direitos. Luara Sapara, estudante de jornalismo na Universidade Federal de Roraima e comunicadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), destacou o uso da comunicação para ecoar o que as mulheres sentem e enfrentam em seus estados.

“A comunicação veio como essa ferramenta para a gente realmente ecoar nossas vozes, buscar esse fortalecimento e reivindicar também os nossos direitos”, disse Luara. 

Ela explicou que a Umiab utiliza esses espaços para levantar pautas sobre o combate à violência contra mulheres, jovens e crianças dentro e fora das terras indígenas. “É uma outra maneira de ocupar esses espaços voltados para as mulheres indígenas”, concluiu.

Maria das Graças, Gerente do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAF), reforça que a comunicação deve ser uma arma contra a naturalização da violência. “O desafio é pensar uma comunicação estratégica que possa dizer como melhorar uma política em relação ao feminicídio e ao direito das mulheres”, pontuou

Para ela, crimes bárbaros contra mulheres indígenas são reflexos de uma colonização que ainda tenta silenciar suas vozes e corpos

O poder da mobilização

Ao final da oficina, Toya Manchineri lembrou que os povos indígenas possuem um poder real de gestão sobre 114 milhões de hectares na Amazônia. Ele enfatizou que a Coiab é uma das maiores organizações com potencial de mobilização do país, capaz de cobrir a região com informações em poucos minutos.

“Hoje temos uma ferramenta poderosa nas mãos: as câmeras, os celulares e as redes”, afirmou o coordenador-geral da Coiab. Ele concluiu que a responsabilidade de transformar a realidade política atual é coletiva e depende do uso estratégico dessas tecnologias para fortalecer as candidaturas e projetos indígenas.

A oficina é realizada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese) em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A iniciativa foca no fortalecimento da gestão territorial e na formação política de comunicadores indígenas para a proteção de seus direitos fundamentais.

Durante a oficina, Bianca Daébs, representante da Cese, alertou sobre o fundamentalismo como uma matriz de pensamento que fragiliza as democracias ao tentar impor uma única verdade. “A gente precisa pensar isso quando a gente vai comunicar, senão a gente acaba perdendo o foco da nossa comunicação”, afirmou Bianca, destacando que essa ideologia funciona como a “cola” entre interesses políticos e econômicos.

O encontro é parte do Projeto Dabucury, realizado pela Cese e Coiab com apoio do Fundo Amazônia/BNDES e funciona como uma etapa preparatória para o Acampamento Terra Livre (ATL). A expectativa das lideranças é que os comunicadores atuem como “flechas” para furar a bolha da desinformação e garantir que o futuro dos direitos originários não seja negociado sob a pressão de interesses econômicos e políticos.

O ATL será realizado em Brasília entre os dias 5 a 11 de abril. Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o encontro deve reunir milhares de indígenas de diversas regiões do país para discutir direitos territoriais, políticas públicas e os desafios enfrentados pelos povos originários diante do atual cenário político e ambiental.


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Editado por: Flavia Quirino

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/04/02/nao-vivemos-uma-crise-vivemos-um-desmonte-planejado-de-direitos-afirma-lideranca-indigena-da-amazonia/