Iniciativas do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) contribuem para o fortalecimento da produção de artesanato Warao em Belém, articulando geração de renda, organização coletiva e valorização cultural.

“Atualmente estou cursando pedagogia, no primeiro semestre. O artesanato é muito importante na minha vida, pois faz parte da minha identidade como mulher indígena Warao. Por meio dele mantenho viva a nossa cultura e tradições, além de ser uma forma de sustento para minha família.”

A fala é de Josefina, que chegou ao Brasil em 2018, em meio ao deslocamento forçado de indígenas Warao vindos da Venezuela. Hoje, vivendo em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, ela paga a própria faculdade com a renda obtida com o artesanato — uma atividade que, para além da sobrevivência, se tornou caminho de permanência, identidade e projeto de futuro.

A trajetória de Josefina ajuda a entender uma transformação maior, que ganhou novos contornos neste Abril Indígena. A Rede Nona Anonamo Tuma, formada por artesãs Warao em Belém, acaba de reposicionar sua presença digital: o perfil no instagram que antes reunia diferentes conteúdos sobre o povo indígena, agora passa a ser dedicado exclusivamente à comercialização do artesanato produzido pelas mulheres e homens da rede.

A Rede Nona Anonamo Tuma (“Nossas Mãos Mulheres”, em Warao) surgiu em Belém (PA) no ano de 2023, como uma estratégia do comitê de artesanato do Conselho Warao Ojiduna, focada em fortalecer mulheres artesãs indígenas venezuelanas, em contexto de deslocamento. A iniciativa visa organizar a produção, resgatar saberes ancestrais e gerar renda. Na atualidade, a organização reúne 170 artesãs, sendo composto prioritariamente por mulheres.

Atualmente, a gestão do perfil está nas mãos de duas artesãs, Argélia Zapata e Luísa cooper que também participam de um processo formativo em comunicação promovido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), mais um passo no fortalecimento da autonomia do grupo. “Para mim, é um novo aprendizado e conhecimento, e também uma forma de conhecer mais o nosso artesanato — não só o artesanato, mas também a nossa cultura e história”, afirma Argelia.

Vitor Gonçalves, analista socioambiental do IEB. Foto: Arquivo IEB

O artesanato sempre fez parte da vida do povo Warao. Tradicionalmente, era produzido para uso cotidiano, rituais e relações comunitárias. No contexto do deslocamento, esse saber passou por uma reconfiguração. “Durante o deslocamento, o artesanato deixa de ser só para uso próprio e passa a ter valor de mercado, mas ainda de forma muito desorganizada”, explica o Analista socioambiental do IEB, Vitor Gonçalves. “As peças eram vendidas por necessidade imediata, sem considerar o tempo, o conhecimento e a história que carregam.”

Sem acesso ao território e às condições de vida anteriores, muitas famílias passaram a produzir e vender peças nas ruas de Belém. No início, a atividade era marcada pela baixa valorização e pela urgência econômica.

A chegada do IEB e os primeiros diagnósticos

Reunião do Conselho Warao e formação realizada pelo IEB. Foto: Roberta Brandão/IEB

A atuação do IEB junto às comunidades Warao na região metropolitana de Belém se estruturou a partir de 2021. Um estudo sobre o perfil laboral da população indicou o artesanato, que apesar de não estruturado naquele momento, se apresentava como uma atividade com potencial. “Naquele período, o artesanato ainda não tinha a dimensão que tem hoje, nem em produção nem em organização coletiva”, afirma Clementine Maréchal, antropóloga e analista socioambiental do IEB.

O diagnóstico apontava não apenas potencial econômico, mas também a necessidade de apoio técnico, organização comunitária e acesso a mercados. Em 2022, o trabalho avança com iniciativas voltadas à inserção socioprodutiva. O artesanato passa a ganhar centralidade, articulando apoio técnico e fortalecimento comunitário. “Não se fortalece a produção sem fortalecer os laços entre as pessoas”, reforça Clementine. “O trabalho do IEB parte dessa ideia de organização comunitária e intercomunitária.”

Esse processo contribuiu para a criação do Conselho Warao Ojiduna, marco importante na organização social do grupo, e base para a construção de estratégias coletivas.

Formação, incidência e consolidação da rede

Em 2023, o projeto Nona Anonamo Tuma – Fortalecendo artesãs Warao para incidência e participação política, desenvolvido pelo IEB,com apoio da GESTOS,  no âmbito do Programa Territorialidades, amplia esse processo. A iniciativa promoveu formações voltadas à gestão de empreendimentos coletivos, cadeias de valor, precificação e estratégias de comercialização.

A partir desse processo, se consolida a Rede Nona Anonamo Tuma, articulando diferentes grupos de produção em uma estratégia coletiva. “Antes, cada família produzia e vendia de forma isolada. A construção da rede exigiu muito diálogo e construção de confiança entre os grupos”, explica Vitor.

Na sequência, o projeto Oko Warao Anonamo Tuma – Fortalecendo a rede de artesãs Warao Nona Anonamo Tuma, financiado pela ONG Friends of The Warao, aprofunda o apoio técnico e organizacional à rede, que hoje reúne cerca de 170 artesãos — em sua maioria mulheres.

Entre as ações, o projeto promoveu oficinas conduzidas pelas próprias artesãs Warao com mais experiência, que passaram a compartilhar técnicas e conhecimentos com integrantes de outros grupos. A estratégia fomentou o intercâmbio de saberes, contribuiu para a melhoria da qualidade das peças e fortaleceu os laços entre as mulheres da rede.

“A gente observa uma evolução na qualidade das peças e na organização da produção, mas ainda existem diferenças entre os grupos”, aponta Clementine Marechal. “O desafio agora é fortalecer a rede de forma mais equilibrada.”

Clémentine Maréchal é antropóloga e analista socioambiental do IEB – Instituto Internacional de Educação do Brasil.

Mais do que renda: Fortalecimento social e cultural

Ao longo desse processo, o artesanato passou a ocupar um papel central na vida das comunidades. Além da geração de renda, contribui para o fortalecimento dos laços comunitários e para a valorização cultural.

“Tem comunidades que deixaram de ir para a rua pedir porque conseguiram se organizar com o artesanato”, destaca Vitor. “Isso mostra que não é só uma atividade econômica, mas uma estratégia de autonomia.” 

Também há mudanças nas dinâmicas familiares, com maior protagonismo das mulheres e participação crescente dos homens na produção e comercialização. Mesmo com o uso de novos materiais, os elementos que remetem à ancestralidade permanecem. Grafismos, cores e referências aos elementos da natureza seguem presentes nas peças, conectando a produção à memória e aos saberes tradicionais.

“O artesanato é o que mais mantém viva a cultura Warao no contexto urbano”, afirma Clementine. “Ele reconecta com saberes, com a história, memória e com a identidade.”

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Ainda há diferenças entre os grupos, dificuldades na gestão coletiva e na definição de estratégias comuns, como precificação e organização da produção. “A rede ainda precisa se fortalecer enquanto organização coletiva”, avalia Vitor. 

Comunicação e autonomia

Luísa Cooper, na oficina de comunicação

Nesse cenário, a comunicação digital surge como uma nova frente. O reposicionamento do perfil no Instagram marca um novo momento para a rede. Mais do que uma vitrine de vendas, a plataforma se torna espaço de visibilidade, organização e valorização cultural. “A ideia é que elas tenham cada vez mais autonomia para gerir a própria comunicação e comercialização”, afirma Clementine.

A trajetória de Josefina, Argélia, Luísa  e das outras 170 artesãs que compõem a rede, sintetiza um processo que é coletivo. O artesanato, nesse contexto, não é apenas fonte de renda, mas parte de uma rede de relações que envolve cultura, organização e futuro.

“Me sinto feliz por ter aprendido sobre comunicação para fortalecer nossa venda na Rede, porque ali vamos mostrar nossa cultura, nossos saberes e nosso artesanato”, finaliza Luisa. Ao assumir também a comunicação de seu trabalho, as artesãs Warao seguem construindo, peça a peça, caminhos de autonomia e da sociobiodiversidade.

Fonte: https://iieb.org.br/noticias/abril-indigena-mulheres-warao-fortalecem-rede-de-artesanato-em-belem/