Indígenas de várias etnias e vários estados do Brasil marcham pela Esplanada dos Ministérios como parte da programação do Acampamento Terra Livre (ATL) 2025 – Pedro Ladeira – 8.abr.25/Folhapress

  • Lembrar é resistir, para que a violência, a perda de direitos e o silenciamento nunca mais se repitam
  • Não somos contra o progresso, mas contra um modelo predatório

Txai Suruí

Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé

O mês dos Povos Indígenas começa e, com ele, muita resistência. De início, lembrar é resistir, para que a violência, a perda de direitos e o silenciamento nunca mais se repitam. A história ainda é disputada. O golpe de 64, que deu início à ditadura militar, segue sendo contado de diferentes formas.

Os militares responsáveis pela tomada do poder definiram o 31 de março como marco oficial, chamando o episódio de “revolução”. O golpe se consolidou no dia 1º de abril, e não se sustentaria.

No dia 27 de março, a Comissão de Anistia declarou anistiado post-mortem Marçal de Souza Tupã-y, líder indígena brasileiro da etnia Guarani-Kaiowá. A decisão unânime ocorre 43 anos após seu assassinato, em 1983. O Estado brasileiro pede desculpas aos seus parentes pelas atrocidades cometidas na ditadura, mas ainda há muito a ser reparado, desde o regime militar, a invasão colonial, até os dias atuais. Seguimos a luta dos nossos ancestrais para reparar e transformar nossas realidades, demarcar nossos territórios e continuar existindo. E hoje, por toda a humanidade, enfrentamos os perigos e as ameaças do capitalismo tardio.

O mês se inicia com o Acampamento Terra Livre (ATL), a maior mobilização indígena do mundo, que acontece de 5 a 11 de abril em Brasília. Consideramos este um mês de mobilização, resistência e visibilidade para os povos indígenas. Em sua 22ª edição, o ATL deste ano tem como tema: “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”.

O tema revela a luta para garantir nossos direitos territoriais diante da ganância das grandes empresas, que insistem em invadir e explorar as últimas fronteiras da natureza preservada, num mundo que já atingiu todos os seus limites. Tudo isso sem nos consultar, sem retribuir, sem respeitar a soberania dos povos.

Nossos rios, terra, florestas, ventos e vozes estão ameaçados pelo agrofascismo e por grandes projetos estrangeiros que trazem pobreza, violência, destruição e apagamento cultural. Não somos contra o progresso, mas contra esse modelo predatório.

Somos contra os grandes projetos de empresas estrangeiras privadas, que nos enchem de promessas, mas nos deixam a pobreza, a violência contra as mulheres, a destruição, o apagamento da cultura e a morte dos nossos.

O Congresso inimigo do povo tenta de todos os modos alterar as leis da Constituição. Tentam derrubar tudo que os separa dos alvos da sua ganância voraz, ignoram que sempre fomos os guardiões desse território, muito antes dele se chamar Brasil. As cercas da colonização, as cercas da exploração do capital, são as cercas da fome e da miséria. Mas nós seguimos firmes e não aceitamos mais nenhuma invasão. Não aceitamos obras sem consentimento. Não aceitamos que tomem nossa cultura para enriquecer uma minoria. Exigimos a demarcação de nossas terras. Vamos ocupar a política e vencer o Congresso Inimigo do Povo. Nossos corpos estão prontos para qualquer ameaça. Onde a voz indígena ressoar, lembrarão que nosso futuro não está à venda! A RESPOSTA SOMOS NÓS!

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/04/a-resposta-somos-nos.shtml