Em Londres, no Museu Britânico, indígenas puderam ver de perto parte de seu patrimônio cultural ali guardado (Foto: Adriana Russi)

Conheça o projeto que está promovendo o intercâmbio entre povos indígenas e instituições culturais no Brasil e no Reino Unido

Texto: Angélica Queiroz

Os pertences tradicionais que integram o patrimônio cultural dos povos Katxuyana e Kahyana, habitantes da região do Wayamu, foram retirados de seus territórios em diferentes momentos ao longo do último século e hoje estão dispersos em coleções dentro e fora do Brasil.

Atualmente, é possível encontrar peças tradicionais sob a guarda de instituições brasileiras, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA), e o Museu do Índio do Convento de Ipuarana, em Lagoa Seca (PB). Um dos acervos mais antigos, do final da década de 1920, foi atingido pelo incêndio que devastou o Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), em 2018. No entanto, uma parcela significativa desses pertences foi levada ainda mais longe, retirada durante expedições e hoje depositada em museus europeus de países como Alemanha, Noruega, Dinamarca e Reino Unido.

No Museu Nacional da Dinamarca, por exemplo, o txamatxama — uma espécie de coroa confeccionada com penas de gavião-real, de profundo significado espiritual, cultural e político para seus povos — está exposto em uma vitrine ao lado de um manto Tupinambá. Já outra coleção encontra-se sob a guarda do Museu Britânico, instituição que atualmente integra a iniciativa “Povos indígenas e museus: reconectando os Katxuyana e Kahyana com seu patrimônio cultural”, selecionada por meio da chamada do Ano Cultural Brasil/Reino Unido 2025-26, realizada em colaboração entre o British Council e o Instituto Guimarães Rosa.

A ideia do projeto é que essas peças possam ser vistas, interpretadas e ressignificadas por seus próprios criadores e descendentes através de uma metodologia intercultural e participativa, fortalecendo vínculos comunitários e contribuindo para ampliar, em escala global, as discussões sobre a descolonização de acervos indígenas sob guarda de museus.

Concebido pela Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK) e desenvolvido com o apoio do Iepé, em parceria com o Santo Domingo Centre of Excellence for Latin American Research no British Museum (SDCELAR) e com a Universidade Federal Fluminese (UFF), o intercâmbio começou em agosto de 2025 e deve terminar em junho de 2026. 

As atividades incluem visitas dos indígenas aos museus onde estão os acervos de sua cultura, oficinas em terras indígenas e uma co-curadoria participativa de artefatos a serem apresentados em exposição temporária no Museu Goeldi e na futura Galeria das Américas, em Londres. Também está previsto o lançamento de um livro digital bilíngue (português/inglês) reunindo narrativas indígenas, textos curatoriais, imagens e reflexões metodológicas.

“Ver e poder tocar é outra coisa”

Em setembro de 2025, o jovem Namofo Leo Kaxuyana Tiriyó e o amu Mário Wehtxo Waritamuru Kaxuyana viajaram para o Reino Unido para uma atividade de identificação, mapeamento e sistematização das coleções etnográficas dos povos Katxuyana e Kahyana sob guarda do Museu Britânico. “Eu só tinha ouvido falar desses artefatos, pois meu avô me contava muito sobre eles. Mas ver em pessoa e poder tocar é outra coisa”, contou Namofo. 

Acompanhados de Adriana Russi (UFF) e Louise de Mello (SDCELAR), indígenas fizeram a primeira visita ao Museu Britânico em setembro de 2025 (Foto: acervo Iepé)

A viagem marcou o pontapé inicial do projeto, com a organização de um material que serviu de base para uma oficina comunitária que aconteceu entre os dias 16 e 26 de março, na Aldeia Purho Mïtï, que fica no rio Trombetas, na Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana. Durante o encontro, avançaram as ideias para uma exposição no Museu Paraense Emílio Goeldi, uma das ações previstas neste projeto. O tema será a retomada do território e a reafirmação da identidade Yana. Ao todo, foram produzidas e selecionadas 70 peças — incluindo cerca de 10 novos txamatxama.

Mulheres indígenas tecendo okunumi, um tipo de cinto, durante a oficina na Aldeia Purho Mïtï (Foto: Angela Kaxuyana)

Esta oficina é também a terceira e última viabilizada por outro projeto, com apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para a identificação e pesquisa do patrimônio imaterial relacionado às artes plumárias dos  povos Katxuyana, Kahyana e Yatxkuryana. Essas atividades, também lideradas pela AIKATUK e apoiadas pelo Iepé, focaram na transmissão do conhecimento entre gerações e a documentação audiovisual das práticas, processos e significados da arte do txamatxama, artefato que pode virar patrimônio imaterial.

Diversos Txamatxama foram confeccionados durante a atividade (Foto: Sirito Yana)

Projeto está ligado à um processo de retomada territorial

Na década de 1960, uma parte dos povos Katxuyana e Kahyana foram removidos de seu território de origem, às margens dos rios Cachorro e Trombetas, e levados para o Parque do Tumucumaque. Esse processo, segundo os mais velhos, enfraqueceu os seus modos de vida, uma vez que eles passaram a viver em outra região, onde viviam outros povos, com outros costumes. 

A partir dos anos 2000, algumas famílias Katxuyana e Kahyana começaram a retornar para suas casas, a reencontrar-se com os parentes que permaneceram na região, e a refundar aldeias antigas, num processo que culminou com a demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, homologada durante a COP 30, em 2025. 

“Essa volta ao território deu início a um movimento de retomada também dos modos de vida, em especial das práticas e saberes que singularizam esses povos face aos demais”, explica a antropóloga Luisa Girardi, consultora do Programa Tumucumaque-Wayamu do Iepé. “Entre essas iniciativas de valorização cultural, está esse projeto”, detalha. 

Próximas atividades

Em 2026, o intercâmbio continua com atividades presenciais nos dois países: no Brasil, em junho, está prevista a abertura de uma exposição temporária com a coleção Katxuyana e Kahyana numa sala do Museu Goeldi, no Parque Zoobotânico, em Belém. Em Londres, ainda no primeiro semestre, deve acontecer a montagem ritual de um Txamatxama, conduzida por representantes Katxuyana e Kahyana, para a futura Galeria das Américas. 

Ao longo de todo o período, o intercâmbio também está sendo sustentado por processos de trabalho híbridos, combinando atividades remotas e presenciais, que asseguram a continuidade do diálogo e da cooperação entre as equipes brasileiras e britânicas.

Txamatxama tem profundo significado espiritual, cultural e político para seus povos (Foto: Ícaro Cooke – Iepé)

*O projeto foi selecionado por meio da chamada do Ano Cultural Brasil/Reino Unido 2025-26, realizada em colaboração entre o British Council e o Instituto Guimarães Rosa. É concebido pela Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK) em parceria com o Iepé, com o Santo Domingo Centre of Excellence for Latin American Research at the British Museum (SDCELAR) e com a Universidade Federal Fluminese (UFF). Também apoiam a iniciativa, por meio do Iepé, a Nia Tero e o Bezos Earth Fund.

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/04/reconectando-os-katxuyana-e-kahyana-com-seu-patrimonio-cultural/