Foto: Helena Corezomaé / OPAN

Durante o Acampamento Terra Livre, lideranças Kayabi reivindicam sua terra tradicional

Lideranças do povo Kayabi-Kawaiwete cobraram no Ministério da Justiça, nesta quinta-feira (9), durante a realização do Acampamento Terra Livre (ATL) a conclusão da demarcação da Terra Indígena (TI) Batelão, em Mato Grosso, um território do qual foram arrancados à força e que lutam para retornar há décadas.

Durante a ditadura militar, o Estado brasileiro promoveu o deslocamento forçado de centenas de Kayabi para o Parque Indígena do Xingu. Para quem foi levado, a distância do território ancestral é uma dor que atravessa gerações. Tuwinang Kayabi, que vive na Aldeia Capivara, no Xingu, conta que muitos jovens cresceram sem saber que o Xingu não era sua casa original.

“Minha avó foi transferida para o Xingu. Eu pensava que a gente era do Xingu, mas soube pelo meu pai e minha avó que viemos do Batelão. Aquele lugar é o nosso, que Deus deixou para nós. Meu pai e meus avós estão lá esperando o dia que a gente vai voltar”, relata Tuwinang.

Pofat Kayabi, que também vive no Xingu, lembra o impacto da remoção: “Quando levaram esse povo para lá, machucou. Eu era criança ainda. Hoje, as mulheres mais velhas perguntam como está andando o Batelão. Queremos a demarcação enquanto esse governo ainda está no poder”.

Segundo as lideranças, recursos naturais essenciais para a identidade Kayabi só existem no território original. “Lá tem o material de fazer a siriva, a peneira, para fazer panela de barro”, explica Pofat.

Enquanto o Estado não finaliza o processo demarcatório, os indígenas que permanecem próximos à área, como os da Aldeia Tatuí, enfrentam a violência do desmatamento e da invasão por pescadores e madeireiros. A liderança Porokó Kayabi denuncia que, enquanto o povo originário é impedido de entrar na própria terra, os invasores agem livremente.

“Nós fomos duas vezes barrados no município de Tabaporã. Nunca conseguimos entrar, e eles estão derrubando tudo. Agricultores, pescadores e madeireiros não estão respeitando e isso afeta a nossa comunidade. Pedimos fiscalização ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), mas até agora nada aconteceu”, protesta Porokó.

Um relatório técnico elaborado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN), em parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV), revelou em 2024 que a TI Batelão, que possui 117.193 hectares, tem sobreposição de imóveis rurais em 99.87922 hectares. Ou seja, 85% do território encontra-se inscrito no CAR.

Em 2020, o relatório apontava que haviam 47.380 hectares de sobreposição de imóveis rurais à terra indígena. Os números apresentados confirmam o gigantesco aumento da área sobreposta de imóveis rurais sobre a TI Batelão, chegando a 110% de aumento num período de três anos, entre 2020 e 2023.

Imóveis rurais com registro no CAR sobrepostos à TI Batelão

No Ministério da Justiça, as lideranças foram recebidas por Marcos de Almeida Matos, coordenador-geral de Direitos Indígenas. “Estamos aqui para levar a resposta para a nossa base e nossas lideranças. Eles estão ansiosos para saber da demarcação da nossa terra”, pontuou Dionísio Mairaiup, da Aldeia Tatuí. O cenário apresentado é de uma complexa batalha jurídica que já dura quase duas décadas.  

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/04/11/pelo-direito-de-voltar-para-casa-povo-kayabi-cobra-demarcacao-do-territorio-batelao/