Segundo a liderança Kaingang Adão Salvador, a ocupação segue os costumes tradicionais do povo indígena| Crédito: Arquivo pessoal
Iniciada no domingo (21), ocupação entre Lami e Restinga enfrenta o marco temporal e a negação da demarcação no RS
A retomada indígena Re-Sī, do povo Kaingang, iniciada na madrugada de domingo (21), na zona sul de Porto Alegre, entre os bairros Lami e Restinga, reafirma a luta dos povos originários pelo direito ao território em meio ao avanço do marco temporal, à pressão do agronegócio e à histórica negação da demarcação de terras indígenas no Rio Grande do Sul.
Segundo a liderança Kaingang Adão Salvador, a ocupação segue os costumes tradicionais do povo indígena, que reconhecem como legítima a retomada de áreas sem função social. “A gente fez essa retomada aqui porque viu que esse espaço estava vazio. O costume dos índios é assim: onde a terra está vazia, o índio faz a retomada”, afirmou.
O território, abandonado há mais de 15 anos, segundo a liderança, reúne condições essenciais para a reprodução da vida indígena, como plantas medicinais, materiais naturais e um açude com peixes. Para Salvador, o espaço permite que crianças e jovens mantenham o vínculo com o modo de vida Kaingang.
“O índio não é de morar em cidade, em prédio. A gente se sente muito preso. Nossos filhos gostam de espaço livre, de correr, de pescar. Aqui tem peixe para nossos filhos e netos pescarem”, relatou.
No momento da fala, a retomada completava cerca de 48 horas e seguia de forma tranquila, com apoio de aliados. “Nós temos apoio para fazer a retomada nesse lugar. Estou feliz pelos apoiadores. Nós vamos até o fim”, disse a liderança.
Ele também destacou a relação entre território e saúde. “Daqui a pouco a gente vai no mato colher remédio para dar para nossos filhos. A gente está aqui e vai até o fim.”
Retomada por direito
Para a advogada popular e militante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Fernanda Pegorini, a ação se insere em um contexto de intensificação das ofensivas contra os povos indígenas. “A retomada Re-Sī nasce como mais uma resposta firme do povo Kaingang ao conflito fundiário e aos ataques constantes contra os povos originários”, afirmou.
Segundo ela, o contexto político e econômico agrava a disputa por território. “Em meio às ameaças do marco temporal, ao avanço do agronegócio e da lógica de apropriação privada da terra, o povo Kaingang só quer retomar o que é seu de direito”, disse.
Pegorini destacou ainda a gravidade da situação no Rio Grande do Sul, onde, segundo ela, cerca de 1% das terras são oficialmente demarcadas como indígenas. “Trata-se de uma luta concreta pela vida, pela memória e pelo direito ao território”, concluiu.
Situação indígena no RS
Atualmente, conforme dados do Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais de 36 mil indígenas no Rio Grande do Sul, sendo cerca de 15 mil distribuídos nas 50 terras indígenas. Conforme relatório da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), gerado em agosto de 2024, das 50 terras indígenas, 20 destas estão em estudo; cinco constam como declaradas; três delimitadas; 19 regularizadas, e três constam como reservas indígenas.

Relação com a terra
De acordo com com a advogada, a mobilização reúne trajetórias distintas. “Há famílias que vieram do interior em busca de respostas ao conflito fundiário que se acirra, na região Metropolitana de Porto Alegre, além das que já viviam na cidade e que se encontram agora nesse espaço de luta em um terreno que antes da ocupação estava sem função social há anos.”
Pegorini comenta que o nome escolhido para a retomada expressa a relação ancestral com a terra. “Re-Sī significa ‘Capim da ponta fina’ e expressa a relação ancestral com o território retomado”, afirmou. E concliu: “Apoiar as retomadas é enfrentar o marco temporal, defender os povos originários e afirmar a justiça histórica”.
Editado por: Marcelo Ferreira
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