Indígenas do Baixo Tapajós no porto da Cargill em Santarém (PA) – Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns – Baixo Tapajós/instagram.com/citabt
- Governo fala em soberania, mas entrega recursos estratégicos às multinacionais
- Mais de 3.000 quilômetros de rios amazônicos estão em programa de privatizações
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Povos indígenas ocuparam nesta quinta-feira (22) o porto da Cargill em Santarém (PA) contra a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.
A ocupação visa denunciar irregularidades no processo de dragagem que avança sem licenciamento e sem consulta a esses povos. A decisão do governo Lula de incluir esses rios no PND mostra como o neoliberalismo instaurou-se no Brasil, subordinando a política ao interesse do capital, tratando o meio ambiente e a vida indígena como mercadoria.
O decreto 12.600/2025 formalizou a inclusão de mais de 3.000 quilômetros de rios amazônicos no programa de privatizações, sendo 250 km do Tapajós. A justificativa oficial é ampliar a logística e reduzir custos para escoar commodities do Centro-Oeste para portos do Norte.

Esse modelo segue a lógica de que a venda de ativos públicos é frequentemente justificada por um discurso de eficiência; mas ela resulta na perda de soberania e na concentração de riquezas. As hidrovias do Tapajós servirão principalmente a gigantes do agronegócio como Cargill e Bunge, que já operam na região, consolidando o Arco Norte, um corredor logístico voltado à exportação.
O processo de privatização viola a Convenção 169 da OIT, que garante o direito à consulta prévia, livre e informada. Líderes indígenas denunciam a imposição autoritária do projeto, destacando que o rio não é uma simples via logística, mas território vivo, fonte de identidade, cultura e sobrevivência para suas comunidades.
Essa violação institucionalizada mostra como políticas de desestatização frequentemente ignoram os interesses das populações mais vulneráveis em nome de uma suposta racionalidade econômica. Como nos diz Alessandra Munduruku: “Essa hidrovia não é para a gente, é para a soja, é para as grandes transportadoras mundiais. Que desenvolvimento é esse, sem a participação dos ribeirinhos, dos pescadores, dos indígenas?”.

As contradições do governo são evidentes. Internacionalmente, faz um discurso ambientalista, mas na prática age com políticas predatórias e intensifica o modelo extrativista; promete proteger os povos indígenas, mas não realiza a consulta prévia; utiliza a retórica da soberania nacional, mas entrega recursos estratégicos a multinacionais.
As consequências são devastadoras: a dragagem ameaça ecossistemas e áreas de reprodução de peixes; o aumento do tráfego causará mais poluição, afetando a soberania alimentar e práticas culturais. Esse cenário reflete um futuro onde o valor de troca supera o valor de uso, e os bens comuns viram fonte de acumulação para poucos. Como alerta Auricélia Arapiun, “receber uma notícia dessa de quem deveria proteger nossos rios (…) é, para nós, povos indígenas que sobrevivem e dependem da amazônia, um golpe, uma traição”.
Os impactos são múltiplos: alteração do leito do rio, destruição de habitats e poluição; perda de acesso ao rio pelas populações que sempre viveram ali, restrições à pesca e êxodo rural; rompimento de relações ancestrais e perda de saberes tradicionais; concentração de benefícios nas corporações e precarização da economia local.
Diante de tantas ameaças, os povos indígenas ocupam a Cargill e ecoam: o Tapajós não está à venda!
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/01/o-rio-tapajos-nao-esta-a-venda.shtml
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