Indígenas interceptam balsas em protesto contra plano de hidrovias no rio Tapajós, em Santarém (PA) – Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação

  • OUTRO LADO: Governo federal afirma que decreto não autoriza obras nem privatiza hidrovia; Cargill diz não ter ingerência sobre tema
  • Decisão obriga a retirada de grupo da sede da empresa em Santarém (PA), cuja entrada está ocupada desde 22 de janeiro

Jorge Abreu

São Paulo

Cerca de 400 indígenas interceptaram, nesta quinta-feira (19), balsas no rio Tapajós, em Santarém (PA). O protesto pede o fim do plano de hidrovias, do governo federal, para escoar produtos em rios da amazônia. As embarcações, segundo os manifestantes, são da Cargill. A empresa nega.

O grupo, em quatro barcos, se aproximou de balsas que transportavam mercadorias agrícolas. Alguns manifestantes pularam no rio e nadaram até as embarcações, onde levantaram faixas de protesto. A Polícia Federal e a Marinha acompanham a mobilização fluvial.

Desde o dia 22 de janeiro, 14 povos indígenas do oeste do Pará ocupam, em protesto, a sede da Cargill em Santarém contra o decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantis no Programa Nacional de Desestatização (PND).

Na sexta (13), a Justiça Federal acatou pedido da Cargill e determinou a desocupação forçada, no prazo de 48 horas, de vias de acesso ao complexo portuário de Santarém, onde fica a sede da empresa. O MPF (Ministério Público Federal) recorreu e conseguiu derrubar a decisão. Contudo, no domingo (15), o recurso do MPF foi anulado, e a determinação da Justiça voltou a valer.

Em uma nova decisão, na tarde desta quinta, a Justiça reforçou o prazo de 48 horas para a saída dos manifestantes.

“Nós realizamos esse ato em defesa do rio Tapajós, principalmente contra o agronegócio que tem invadido nossos territórios. A manifestação é contra o decreto de privatização dos rios. Então vamos continuar pressionando o governo para revogar [decreto federal sobre hidrovias]”, afirma a líder indígena Auricélia Arapiun.

O governo federal disse, em nota, que o decreto não autoriza obras nem privatiza a hidrovia do rio Tapajós. “O normativo trata exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade.”

Ainda segundo a gestão Lula (PT), qualquer decisão futura dependerá do cumprimento das exigências legais, ambientais e sociais, incluindo a realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades, conforme determina a Convenção nº 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

A Cargill afirmou que as balsas interceptadas nesta quinta-feira não são da empresa, mas os indígenas afirmam que as embarcações estavam em seu porto. A companhia declarou, anteriormente, que respeita o direito à manifestação e que cumpre as leis brasileiras. Também afirmou que não tem ingerência sobre a pauta apresentada pelos manifestantes.

Em quase um mês de ato, os indígenas se reuniram com representantes do governo federal e bloquearam vias (entre elas, a de acesso ao aeroporto do município). As discussões, porém, não levaram ao fim do plano do governo federal, como pedem os manifestantes.

O governo Lula suspendeu, no último dia 6, a licitação que habilitou uma empresa para a dragagem do rio Tapajós, medida que é considerada insuficiente pelos indígenas.

A decisão de cancelar o edital para dragagem foi assinada pelos ministros Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência da República), Sílvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas).

Os ministérios afirmam ainda que instituíram um grupo de trabalho interministerial, com representantes do governo e indicados pelos povos indígenas da região do rio Tapajós com a finalidade de discutir, sistematizar e orientar os processos de consulta livre, prévia e informada.

Já o Cita (Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns), entidade representante de 14 povos do Baixo Tapajós, afirma que a contraproposta dos manifestantes busca, além da anulação do pregão, a revogação do decreto e a publicação dos atos no Diário Oficial.

Como mostrou a Folha, o governo Lula (PT) selecionou uma empresa para dragagem a um custo de R$ 61,8 milhões sem obter a licença ambiental –e sem protocolar um pedido com esse propósito– para a retirada de material em sete pontos do rio, entre Itaituba e Santarém, no Pará.

Documentos da Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) do governo do Pará, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) apontam impactos considerados “significativos” a partir de dragagem no Tapajós.

Entre esses impactos estão alteração da qualidade da água, assoreamento do leito do rio, prejuízo à pesca, alteração de rotas de transporte usadas por comunidades ribeirinhas e indígenas, risco de insegurança alimentar nessas comunidades e alteração em ciclos de reprodução da tartaruga-da-amazônia, numa área que é a segunda maior em reprodução da espécie.

projeto de hidrovias já foi alvo de protestos na COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara e a Marina Silva, do Meio Ambiente, afirmaram que a consulta prévia com as comunidades seria feita. Contudo, a promessa até agora não foi cumprida.

O Ministério dos Povos Indígenas declarou, em nota, que “reconhece a legitimidade das preocupações apresentadas e reafirma que nenhuma iniciativa relacionada à dragagem, manutenção hidroviária ou qualquer outro empreendimento no rio Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente, conforme a convenção nº 169 da OIT e a Constituição Federal.”

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/02/indigenas-interceptam-balsas-da-cargill-em-protesto-contra-dragagem-de-rios-da-amazonia.shtml