Indígenas ocupam terminal da Cargill no porto de Santarém (PA) – Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns – Baixo Tapajós/instagram.com/citabt
- Cargill ignora sistematicamente a presença do povo munduruku na região
- Lula, revogue o decreto! Queremos o Madeira, o Tapajós e o Tocantins vivos
Um rio não pode ter dono. A água é sagrada e essencial para a existência de todos os seres. Há 30 dias os povos indígenas do Baixo Tapajós ocupam o porto da Cargill em Santarém (PA) em protesto contra a dragagem do rio e a ausência de consulta prévia. Não é por acaso que a escolha recaiu sobre a Cargill, uma das maiores empresas privadas da América.
Essa gigante transnacional simboliza, para nós, o apagamento da nossa existência. Em seus estudos de impacto para o terminal de Miritituba, a empresa ignorou sistematicamente a presença do povo munduruku em toda a região da Mundurukânia, limitando-se a citar apenas duas aldeias isoladas. Esse apagamento geográfico é uma estratégia deliberada para fugir da responsabilidade sobre os danos à saúde e à segurança alimentar das nossas comunidades.
A gigante do agronegócio, sediada nos EUA, é uma das principais operadoras do escoamento de grãos pelo rio Tapajós e simboliza um modelo de desenvolvimento baseado na transformação dos rios em meros corredores de exportação. A empresa estruturou um sistema agrícola industrial global que converte florestas em monoculturas. A partir de 2019, com a ascensão de governos antiambientalistas, as leis que antes poderiam limitar seu poder deixaram de existir. A Cargill passou a atuar nesses países adquirindo commodities com baixo compromisso ecológico e utilizando mão de obra barata.
No centro da disputa no Tapajós está o projeto de dragagem do rio, cuja execução foi parar nas mãos de uma empresa com histórico de infrações ambientais. A DTA Engenharia, líder do pregão do DNIT, acumula R$ 1,9 milhão em multas aplicadas pelo Ibama. Em maio de 2018, a empresa foi autuada em Paranaguá (PR) em duas ocasiões: uma multa de R$ 21 mil e outra de R$ 1,5 milhão. Em abril de 2023, nova autuação em São Sebastião (SP), no valor de R$ 311 mil. O tipo de serviço descrito nessas infrações é exatamente o mesmo que está em disputa no Tapajós: retirada de sedimentos do fundo de rios para permitir a passagem de embarcações maiores.
É fundamental destacar o histórico de abusos da corporação que lidera esse modelo de exploração. A Cargill apresenta um padrão recorrente de fraudes e violações, que vão desde manipulação de mercado e falsificação de relatórios comerciais —tendo sido já multada em US$ 10 milhões— até a distribuição de alimentos contaminados. Ainda mais graves são sua negligência com normas sanitárias e sua conivência com trabalho infantil e escravo em sua cadeia produtiva. Apesar das promessas de sustentabilidade, a empresa segue destruindo biomas vitais como o cerrado e a amazônia.
A Cargill é uma ameaça clara e iminente para os biomas mais sensíveis do planeta. O decreto 12.600/2025 draga não apenas o leito do rio, mas a própria existência dos povos que dele dependem. “O rio é parte do nosso povo. O rio é como a veia do nosso povo. O rio está triste e ferido por causa da ganância”, disse a líder Alessandra Munduruku.
Lula, revogue o decreto 12.600/25 já! Queremos os rios Madeira, Tapajós e Tocantins vivos!
Esta coluna teve a colaboração da jornalista Catharina Apolinário
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/02/queremos-o-rio-tapajos-vivo.shtml
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