- Série policial de Sterlin Harjo traz Ethan Hawke em êxtase e lado dos EUA menos visto nas telas
- Roteirista costura cultura pop e ironia social em trama passada em Oklahoma
Pouca gente tem o tino do roteirista, diretor e produtor americano Sterlin Harjo para costurar problemas sociais, cultura pop e humor cortante em uma série de TV. Isso já seria motivo suficiente para apreciar seu trabalho, que sobressai sem esforço de marketing excessivo entre tantas produções medianas catapultadas por campanhas incessantes.
Em “Verdade Oculta”, série policial da Hulu que estreou no fim do ano na Disney+, ele lança mão dessas qualidades para construir um conjunto de personagens cada vez mais raro nas telas. Não se deixe enganar pelo título clichezento em português: o enredo é instigante e há uma irresistível influência de David Lynch (1946-2025) com seus tipos muito peculiares a vagar pelo miolo esquecido dos EUA.
Ethan Hawke, há muito desinteressado do papel de galã que lhe impulsionou a carreira, está arrebatador como Lee, um livreiro-jornalista (ou “verdadeirista”, como ele diz) que apura o possível crime por trás do aparente suicídio de um milionário.
O morto é Dale Washberg (Tim Blake Nelson, excelente como de costume), o irmão desgarrado de uma família dona de terras e aspirações políticas em Oklahoma, um estado onde a presença indígena resiste ainda hoje e não são poucos os atritos com a população branca local. É claro que tudo isso vai aflorar na história.
Pouco lembrado por governos em geral e por produtores culturais, salvo em caso de atentado e massacre, Oklahoma paira nas últimas posições de IDH (índice de desenvolvimento humano) entre os estados americanos. Foi lá que nasceu Harjo, cujo talento já havia dado as caras em “Reservation Dogs”, uma comédia de amadurecimento que tem adolescentes indígenas como protagonistas.
Com ascendência indígena seminole e muskogee, Harjo sabe do que fala. Seus personagens são apresentados como a escória da sociedade, sejam eles os heróis ou os vilões —como no mundo de Lynch, não há lugar para maniqueísmos em sua imaginação.
Esse não é o único elemento lynchiano em cena —há uma certa transcendentalidade, com Dale relatando a própria história a Lee, depois de morto—, nem Lynch é sua única referência. Seu estilo guarda semelhanças com o dos irmãos Coen, sobretudo no registro cômico autodepreciativo, além de referências estéticas a produções dos anos 1970.
Não é coincidência que os Coen tenham nascido em Minnesota, e Lynch, em Montana, estados de status similares. A escolha de elenco deixa claro o parentesco criativo: Blake Nelson é um dos rostos mais constantes no trabalho dos irmãos Ethan e Joel; de Lynch, Harjo trouxe ninguém menos do que Kyle MacLachlan, imortalizado como o policial de “Twin Peaks” (chamado Dale, aliás), para interpretar o irmão mais poderoso do morto, Donald.
Essa junção, que inclui Peter Dinklage (o Tyrion de “Game of Thrones”) em participação divertidíssima, Jeanne Tripplehorn e Keith David, é um daqueles momentos sublimes em que elenco e roteirista se entrosam com tanta abnegação que os personagens assombram o espectador por dias.
Em inglês, a produção de oito episódios com segunda temporada já contratada recebeu o nome de “The Lowdown”, que pode significar os meandros de um acontecimento ou “escória”. É um prenúncio melhor o que a série entrega do que “verdade oculta”.
‘Verda Oculta’
Duração Primeira temporada, oito episódios de 45 minutos (em média)
Onde Disney+/Hulu
Autoria Sterlin Harjo
Elenco Ethan Hawke, Kyle MacLachlan Keith David, Jeanne Tripplehorn, Tim Blake Nelson, Ryan Kiera Armstrong, Michael Hitchcock e Peter Dinklage
Direção Sterlin Harjo, Macon Blair e Danis Goulet
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