Plenária no primeiro dia de ATL debate Memória, verdade e Justiça para os povos indígenas | Crédito: @ya.gaviao

Debate integrou o primeiro dia de programação da maior mobilização indígena do país

Ana Beatriz Assenço

O debate sobre Memória, verdade e Justiça para os povos indígenas marcou o primeiro dia do Acampamento Terra Livre (ATL). Organizada pelo Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas, a plenária realizada na tarde desta segunda-feira (6) debateu a importância do estudo e pesquisa para investigar documentos e relatos que retratam a violência e o apagamento de povos indígenas desde a colonização do Brasil até os dias de hoje.

De acordo com o Relatório da Verdade, finalizado em 2014, estima-se que pelo menos 8 mil indígenas foram mortos pelo governo militar. A discussão da plenária também enfatizou a importância da criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade.

Para o representante da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (MPF), Marlon Alberto Weichert, a instalação da Comissão Nacional Indígena da Verdade é necessária para afirmar a centralidade de povos indígenas sobre os mais de 500 anos de violação de direitos. “Nós não-indígenas precisamos conhecer a outra versão da história, a verdadeira versão da história, daqueles que sofreram as violações e sofrem as consequências até hoje”.

“Essa reparação integral começa com a produção da verdade, contar a história do que aconteceu, até para acabar com essas mentiras de que existe um marco temporal na violação dos direitos, de que há uma incapacidade do modo de viver dos povos indígenas”, pontuou o representante do MPF.

Uma minuta com a proposta de criação da Comissão foi entregue por representantes do Fórum ao Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), em outubro de 2025.  De acordo com o MPI, o ministério seguirá conduzindo os diálogos necessários para que esse passado seja reconhecido, reparado e para que essa violência, que ainda se repete nos dias de hoje, deixe de ser uma realidade.

Memória e Justiça

A pesquisadora indígena Braulina Baniwa relata que construiu uma metodologia de escuta para ouvir povos que sofreram com a violência e a repressão, além de trazer desafios da pesquisa dentro dos territórios. “Há 20 anos atrás todas as narrativas em busca de direito foram inscritas por não-indígenas. Para este trabalho, são parentes construindo com parentes”, observa.

Baniwa também enfatiza a importância da documentação da violência e violação de direitos humanos com o objetivo de trazer propostas para diminuir os casos de opressão contra povos indígenas.

“Nós, enquanto pensadores, precisamos trazer essa narrativa para que nunca mais o Judiciário brasileiro e o judiciário internacional construam uma narrativa sem a nossa essência”.

A plenária também ouviu relatos de representantes de territórios indígenas que relataram violação de direito pelo desmatamento de terra e pela mineração até o último século. Dentre eles, o Cacique Agamenon Toá, do povo Kraunã, de Alagoas, ressaltou a importância de discutir os relatos de apagamento da cultura da sua comunidade por conta da construção de hidrelétricas do Rio São Francisco. “Nossos cemitérios ficaram submersos, sem levar em consideração a importância que aquele cemitério tem para nós. Cemitério também é vida, é história e é comunicação entre nossos ancestrais”, lamenta.

Daiara Tukano, do povo Tukano dos Amazonas, enfatizou a importância de contar a história dos antepassados que sofreram opressão com a chegada da igreja católica na época da invasão do Brasil. “O meu povo sofreu uma política que a igreja católica se encarregou de proibir as línguas, torturar crianças. Precisamos saber quantas pessoas passaram por essa experiência também, porque faz parte da história da nossa família”, denunciou.

22ª edição do Acampamento Terra Livre acontece em Brasília até 11 de abril
22ª edição do Acampamento Terra Livre acontece em Brasília | Crédito: Adriano Arantos (@arantosfotografia)

A programação oficial do ATL iniciou nesta segunda-feira (6) e segue até o dia 11 de abril. Nesta terça-feira (7) a partir das 9h será realizada a primeira marcha da mobilização: Congresso inimigo dos povos: Nosso futuro não está à venda. A programação completa está disponível no link.

Sobre o ATL

O Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena da América Latina, acontece em Brasília (DF) a partir deste domingo (5) com o tema “Nosso futuro não está à venda: A resposta somos nós”. A programação traz diferentes eixos temáticos para mobilizar a comunidade diante do agravamento da crise climática e das propostas legislativas.

Organizado pela Articulação de Povos Indígenas do Brasil (Apib), a mobilização chega à sua 22ª edição e deve reunir milhares de indígenas das cinco regiões do país, que ficarão localizados no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte). O tema deste ano foi definido durante o Fórum de Lideranças Indígenas da entidade e reforça a resistência frente a interesses econômicos e institucionais que ameaçam territórios e modos de vida tradicionais.

Ao longo de sete dias, a programação será dividida em mesas para escutar as principais demandas regionais, plenárias e marchas públicas até o Congresso Nacional com temas ligados à demarcação de Terras Indígenas.


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Editado por: Flavia Quirino

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2026/04/07/plenaria-no-atl-defende-criacao-de-comissao-indigena-da-verdade-para-investigar-violencias-contra-povos-indigenas/