Yaiku Suya. Foto: Larissa Silva/Rede Juruena Vivo

Neste Abril Indígena, lideranças dos povos Tapayuna, Kawaiwete (Kayabi) e Xavante relataram crimes cometidos durante a ditadura militar e exigem reconhecimento do genocídio indígena ocorrido no período

Por Helena Corezomaé/OPAN, com contribuições de Larissa Silva, da Rede Juruena Vivo

“Todo dia meus anciãos choram para voltar ao seu território. Eu preciso do apoio de vocês para que possamos retornar à nossa terra”, declarou o cacique Yaiku Suya Tapayuna durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, realizada na última quarta-feira (8).

Durante o Abril Indígena, sobreviventes e descendentes dos povos Tapayuna, Kawaiwete (Kayabi) e Xavante relataram crimes cometidos pelo Estado e pelo governo de Mato Grosso durante a ditadura militar, exigindo que a Justiça de Transição no Brasil finalmente reconheça o genocídio indígena.

A audiência expôs as feridas de comunidades vitimadas por uma política sistemática de remoção forçada e extermínio para dar lugar ao “progresso” e ao agronegócio.

Em seu relato, a liderança Yaiku também descreveu como a introdução proposital de doenças foi usada como arma biológica para tirar o seu povo do território em 1970, no noroeste de Mato Grosso.

“Para expulsar os Tapayuna, usaram a doença. Fizeram o ‘mau contato’ e houve envenenamento. Depois, levaram pessoas doentes para acabar com o povo. De mil pessoas, sobraram apenas 41. Muitos desapareceram e não tivemos tempo de enterrar nossas lideranças. Hoje, os fazendeiros lucram em cima do nosso cemitério”, denunciou.

Foto: Larissa Silva/Rede Juruena Vivo

A advogada Brisa Souza, da Operação Amazônia Nativa (OPAN), classificou o período como uma verdadeira “engrenagem de extermínio”. Segundo ela, as reparações atuais são insuficientes.

“Esses povos não são apenas sobreviventes, são testemunhas vivas. Sofreram horrores indizíveis: foram envenenados por arsênico no açúcar, carne de anta com veneno e usados como mão de obra escrava. Não podemos falar de justiça de transição sem o reconhecimento desses horrores e a demarcação de seus territórios”, afirmou Brisa.

Brisa defendeu, ainda, a reivindicação do movimento indígena de que seja criada uma Comissão Nacional Indígena da Verdade, passo essencial para a reparação moral, psicológica e financeira dessas comunidades.

Para o povo Xavante, a transferência do território ancestral de Marãiwatsédé para a reserva de São Marcos em 1966 culminou na morte de centenas de parentes. Na audiência, o Cacique Damião Paridzané relembrou o cenário de devastação que se seguiu à remoção forçada.

“Fomos levados para a reserva de São Marcos. Um dia depois, apareceu a doença. Morreram 150 irmãos nossos, fizeram um buraco grande onde jogavam as pessoas durante o dia e a noite. A ditadura foi feita só para sacanear o povo brasileiro. Retomamos nossa terra [Marãiwatsédé], mas foi difícil, e a encontramos devastada”, lamentou Damião.

Damião Paridzané. Foto: Larissa Silva/Rede Juruena Vivo

Já o cacique Dionísio Kayabi trouxe o testemunho da violência militar direta, relatando o trauma de ver seu povo ser embarcado à força em aeronaves sob a mira de armas.

“Levaram o nosso pessoal em um avião com arma na cabeça, e isso dói para nós. Hoje, não podemos visitar nosso cemitério nas terras de origem porque os grandes fazendeiros não deixam. Eles se beneficiam da nossa terra sagrada, plantando lavouras em grande escala e retirando madeira. Somos os verdadeiros donos do Brasil e queremos que respeitem nosso direito de voltar”.

Dionísio Kayabi. Foto: Larissa Silva/OPAN

A liderança Kayabi encerrou com um apelo ao governo federal e ao Legislativo para que o discurso de defesa dos direitos indígenas se transforme em ações concretas.

A demarcação da TI Batelão (Kayabi) e o retorno dos Tapayuna ao território tradicional permanecem como as principais dívidas de um Estado que ainda precisa aprender a ouvir e reparar as violações cometidas contra os povos originários.

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/04/14/liderancas-indigenas-denunciam-horrores-da-ditadura-e-cobram-reparacao-na-camara/