Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Daniel Lima \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
Mais de 100 mulheres Apurinã do polo-base Tumiã, em Lábrea (AM), reúnem saberes sobre plantas medicinais da floresta e lançam a cartilha Sytuwakuru: Mulheres que Curam
Por Daniel Lima, do Cimi Regional Norte 1 – equipe Lábrea
No dia 19 de março de 2026, mês dedicado às mulheres e às suas lutas, a aldeia Morada Nova, localizada na Terra Indígena Acimã, em Lábrea (AM), foi cenário de um momento histórico para o povo Apurinã: o lançamento da cartilha Sytuwakuru: Mulheres que Curam. O evento reuniu mulheres de diversas aldeias e territórios que integram o polo-base Tumiã, celebrando não apenas a conclusão de um trabalho coletivo, mas também a força, a resistência e a sabedoria das mulheres indígenas.
Fazem parte do polo-base Tumiã as Terras Indígenas Curriã, Acimã, Igarapé Micuim, parte da Terra Indígena Itãnury Pupỹkary (antiga Baixo Seruini/Baixo Tumiã), Igarapé Grande e Tumiã. Para o lançamento, estiveram presentes mulheres do coletivo Sytuwakuru, vindas das aldeias Morada Nova, Patoá (Apukathy), Ilha da Índia, Vila da Paz, Raiz, Aldeinha (Pataky) e Kanakuri — todas protagonistas dessa construção.
“Na língua Apurinã, Sytuwakuru significa ‘coletivo de mulheres fortes’”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Daniel Lima \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
Na língua Apurinã, Sytuwakuru significa “coletivo de mulheres fortes”. O grupo existe desde 2016, quando mulheres do polo-base Tumiã decidiram se reunir para dialogar sobre seus desafios, fortalecer sua organização e afirmar seus direitos enquanto mulheres indígenas. Hoje, o coletivo reúne mais de 100 mulheres, que seguem tecendo caminhos de luta, cuidado e resistência.
A cartilha é fruto direto desse processo coletivo. Não se trata apenas de um material informativo, mas de um registro vivo de saberes ancestrais, especialmente relacionados à medicina tradicional indígena. São conhecimentos transmitidos entre gerações, que fortalecem a identidade cultural e a autonomia das comunidades.
“Estou muito feliz com essa cartilha de remédios tradicionais. Minha mãe, dona Alaíde Apurinã, me passou esse conhecimento e o trabalho de preparar as medicinas do mato”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Kauê Melo \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
Dauzira Cabral Apurinã, da aldeia Patoá (Apukathy), na Terra Indígena Acimã, destacou a importância da cartilha como instrumento de continuidade dos saberes:
“Estou muito feliz com essa cartilha de remédios tradicionais. Minha mãe, dona Alaíde Apurinã, me passou esse conhecimento e o trabalho de preparar as medicinas do mato. Agora, com esse livro, nós, mulheres mais velhas, podemos repassar todo esse saber às mais jovens e também às futuras gerações”, afirmou, sorrindo, ao lado da mãe.
A presença das jovens também marcou o processo de construção da cartilha. Para Natalina Souza Apurinã, da aldeia Morada Nova, a participação ativa das novas gerações fortalece ainda mais o coletivo:
“É muito importante receber esse conhecimento das plantas medicinais que nossas anciãs nos passaram, agora também por meio da cartilha. Esse saber já vem sendo transmitido de geração em geração, e nós, jovens Sytuwakuru, podemos continuar passando para nossos filhos. Foi muito importante participar desse trabalho. Receber o livro e ver o fruto das nossas próprias mãos, junto com as mãos das anciãs, nos deixou muito felizes”, disse, emocionada.
“Esse saber já vem sendo transmitido de geração em geração, e nós, jovens Sytuwakuru, podemos continuar passando para nossos filhos”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Kauê Melo \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
Entre as anciãs, a cartilha também representa um compromisso com a continuidade da cultura. Maria Laura Lopes Apurinã, da aldeia Kanakuri, na Terra Indígena Tumiã, ressaltou o valor dos remédios tradicionais e a necessidade de manter viva essa prática:
“Fiquei muito feliz em participar da construção desse livro, que é tão importante para nós, mulheres Apurinã do polo-base Tumiã. Esses remédios do mato, que nós mesmas preparamos com plantas que cultivamos, são muito valiosos e funcionam de verdade. Eu mesma estive doente recentemente e me curei com chá feito de casca de azeitona, folha de goiabeira e folha de manga. Por isso, sabemos que esses remédios são bons. Vamos continuar fazendo e ensinando às nossas netas, porque todas precisam aprender. Esse conhecimento precisa seguir vivo”, declarou.
Com esperança renovada, destacando o desejo de continuidade do trabalho:“É importante continuar. Podemos fazer uma nova cartilha, com outros remédios da mata e novas receitas. Já temos muito conhecimento guardado. Precisamos deixar essa sabedoria para os mais novos, para as crianças”, alertou.
“Fiquei muito feliz em participar da construção desse livro, que é tão importante para nós, mulheres Apurinã do polo-base Tumiã”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Daniel Lima \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
A força do coletivo também se expressa nas trajetórias de quem percorreu longas distâncias para estar presente nesse momento. Dona Luzia Apurinã, da aldeia Raiz, no rio Tumiã, na Terra Indígena Itãnury Pupỹkary, falou com emoção sobre sua participação:
“Saí da minha aldeia para estar aqui no lançamento da nossa cartilha de medicina tradicional. Vim para ver as outras mulheres Sytuwakuru, ver o Cimi e todos os parentes nessa festa do nosso livro. A viagem foi difícil, cheguei no escuro, mas estou aqui agora, falando e agradecendo. Eu não falo muito bem em português, falo mais Pupỹkary Sãnkyry, mas estou falando porque estou feliz com esse livro da nossa tradição”, disse, partilhando o sentimento de acolhimento e pertencimento proporcionado pelo coletivo:
“Aqui eu posso falar. Em outras reuniões, eu quase não falo, mas aqui, com as mulheres Sytuwakuru, eu posso me expressar. Posso dizer que ensino meus filhos e que, lá na minha aldeia, conversamos com as mulheres mais velhas, que nos passam os conhecimentos”, declarou.
“Saí da minha aldeia para estar aqui no lançamento da nossa cartilha de medicina tradicional. Vim para ver as outras mulheres Sytuwakuru, ver o Cimi e todos os parentes”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Kauê Melo \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
Ao compartilhar sua experiência, Dona Luzia reafirmou a eficácia e a importância da medicina tradicional:
“Minha netinha estava muito doente, quase morrendo, mas eu fiz um remédio tradicional com mel de abelha, banha de cobra, copaíba e casca de jatobá. A gente cozinha e faz um lambedor, que cura tosse e febre. Estou ensinando as meninas mais novas, e elas estão aprendendo. Antes não sabiam, agora já sabem. Para diarreia, usamos casca de cajuí, que também serve para inflamação e para cortes, porque estanca o sangue na hora. Temos muitos remédios bons. Às vezes, a gente esquece, mas agora está tudo registrado na cartilha”, disse, orgulhosa.
Para Suelly Apurinã, da aldeia Ilha da Índia, na Terra Indígena Igarapé Micuim, a cartilha vai além das receitas:
“O lançamento dessa cartilha é de suma importância. Ela não traz apenas receitas, mas também história, espiritualidade e ancestralidade. É um presente para as novas e futuras gerações do povo Apurinã. Foi um privilégio fazer parte desse trabalho junto com tantas outras mulheres do polo-base Tumiã.”
“Minha netinha estava muito doente, quase morrendo, mas eu fiz um remédio tradicional com mel de abelha, banha de cobra, copaíba e casca de jatobá”
Lançamento da cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Kauê Melo \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
A construção da cartilha Sytuwakuru: Mulheres que Curam foi marcada por desafios — como as distâncias entre as aldeias, dificuldades logísticas e o tempo necessário para reunir, sistematizar e registrar os conhecimentos. Ainda assim, a força do coletivo prevaleceu. Foram as próprias mulheres que, em seus encontros, decidiram dar forma a esse trabalho e solicitaram apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Norte 1, que contribuiu apenas na organização do material, respeitando a autonomia e o protagonismo das mulheres.
A cartilha não tem caráter comercial. Seu propósito é outro: ser instrumento de partilha, formação e resistência cultural. Não pertence a nenhuma instituição, mas às mulheres do polo-base Tumiã — às suas histórias, práticas e modos de cuidar da vida.
“O lançamento da cartilha é mais do que um evento. É a celebração de um processo coletivo de afirmação cultural e resistência”
Cartilha “Sytuwakuru: Mulheres que Curam”. Foto: Daniel Lima \ Cimi Regional Norte 1 – Equipe Lábrea
O lançamento da cartilha é, portanto, mais do que um evento. É a celebração de um processo coletivo de afirmação cultural e resistência. É o testemunho de que as mulheres Apurinã seguem firmes, como raízes profundas que sustentam o território e como sementes que garantem o futuro.
Em cada página, pulsa a certeza de que o conhecimento ancestral não apenas resiste — ele cura, ensina e continua a florescer nas mãos das mulheres Sytuwakuru.
Fonte: https://cimi.org.br/2026/03/mulheres-que-curam-cartilha-apurina-medicina-ancestral/
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