Foto: Ila Verus

Entre os dias 1º e 6 de dezembro de 2025, o Centro de Formação dos Povos da Floresta, da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), realizou a 3ª Oficina de Mulheres Indígenas, Gênero e Gestão. O encontro reuniu dez mulheres de seis povos indígenas do Acre — Huni Kuῖ, Jaminawa Arara, Apolima Arara, Manxineru, das Terras Indígenas Jaminawa Arara do Rio Bagé, Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu, Arara do Rio Amônia, Arara do Igarapé Humaitá, Mamoadate e Praia do Carapaná.

A oficina integra uma estratégia mais ampla da CPI-Acre voltada ao fortalecimento das mulheres indígenas, com foco na autonomia e no protagonismo feminino nas comunidades, associações e organizações indígenas.

O processo formativo está organizado em um ciclo de cinco oficinas, que articulam práticas de gestão com reflexões sobre a vida cotidiana e o papel das mulheres em seus territórios. As participantes tiveram aulas e rodas de conversas nas quais compartilharam experiências, desafios e aprendizados sobre temas como trabalho doméstico, acesso à água, participação nas associações e responsabilidades familiares e comunitárias. Momentos de escuta são de suma importância e ajudam a compreender a realidade de cada território e a orientar as ações coletivas a partir das demandas e sonhos das próprias mulheres.

Ao longo dos encontros, as participantes identificaram necessidades comuns e estruturam, juntas, um projeto voltado ao bem coletivo. Em 2024, o grupo desenvolveu uma ação voltada à produção e comercialização de artesanato com miçangas. Este ano, o tema escolhido foi a segurança alimentar nos territórios: as mulheres indígenas elaboraram um plano de trabalho para 2026, que prevê a criação de aves e a implantação de hortas comunitárias nas aldeias.

O plano busca ampliar o acesso a alimentos, garantir fontes de proteína de origem animal e fortalecer práticas de manejo e higiene que assegurem uma alimentação suficiente e de qualidade para cerca de 75 famílias. Como parte das ações para viabilizar a execução do projeto, o grupo recebeu um recurso de R$10.000,00. O objetivo é fortalecer a autogestão, o aprendizado prático e a participação das feminina na condução de projetos em suas comunidades.

As participantes atuarão como pontos focais dessas ações em seus povos, articulando a atividade com o eixo de segurança alimentar do Programa de Gestão Territorial e Ambiental da CPI-Acre, contando ainda com apoio técnico e logístico da instituição.

Malu Ochoa, assessora do Programa de Politicas Públicas e Articulação Regional da CPI-Acre, destaca alguns pontos essenciais do trabalho:

Foto: Ila Verus

Nesta oficina, foi fundamental o debate sobre os direitos dos povos indígenas, direitos das mulheres, especialmente o direito aos seus territórios e à manutenção e desenvolvimento de suas formas de vida. São territórios conquistados por pais e avós e que, atualmente, encontram-se ameaçados por aqueles que deveriam cumprir e fazer cumprir as leis que os protegem. No relato de cada uma delas, percebemos que, aos poucos, elas vêm assumido um papel protagonista junto às suas comunidades, participando nos últimos tempos das discussões sobre a proteção de seus territórios, a segurança alimentar e as reflexões sobre como mitigar os impactos das mudanças climáticas, das quais são diretamente afetadas.

Malu ressalta ainda o reconhecimento e o apoio que esse grupo de mulheres já recebe de suas comunidades:

Foi importante ouvir, quando elas compartilharam informações sobre o trabalho que realizam. Apesar dos muitos desafios, tem o apoio da comunidade e das lideranças, o que fortalece o sentimento de pertencimento e empoderamento coletivo. As discussões sobre segurança alimentar resultaram na construção de uma proposta de ações a serem desenvolvidas em seus territórios, assumindo o compromisso de dar continuidade a essas reflexões junto às suas comunidades, envolvendo jovens e outras mulheres. São novos tempos para as mulheres indígenas.

Um diferencial na oficina é  a presença da equipe administrativo-financeiro da CPI-Acre no processo formativo. Ao participar das oficinas e dialogar diretamente com as mulheres indígenas, esse setor vivenciou de perto a realidade dos territórios e compreendeu o impacto concreto dos recursos que sustentam a instituição. A aproximação deixa claro que os procedimentos administrativo-financeiros não têm caráter de neutralidade: eles existem para transformar favoravelmente uma realidade humana.

Para Nelcilene Costa, gerente administrativa da CPI-Acre, a experiência vai além do trabalho, além da função, além do cargo”:

Foto: Ila Verus

Esse já é o nosso terceiro encontro com o coletivo de mulheres e o que sinto é pura alegria.  Deixar as planilhas por um instante e sentar para conversar, ouvir e trocar. Estar com elas é aprender duas vezes: compartilhar os conhecimentos em gestão administrativa e financeira e, ao mesmo tempo, aprender sobre a vida, o território, a força e a sabedoria que brotam da terra. Conviver esses dias com as mulheres indígenas é um privilégio. É gratificante num nível que não cabe em relatório. Fico sempre com o coração cheio e com a certeza reafirmada e a convicção de que compartilhar conhecimento tambéé um ato de cuidado, respeito e transformação.

A oficina também contou com a presença de convidadas que contribuíram com informação e debate em diferentes áreas. Participaram Soleane Manchineri, da Ouvidoria da Defensoria Pública; Francisca Arara, da Secretaria de Povos Indígenas (Sepi); Germina Xiu Shanenawa, da SITOAKORE; e Yoka Manchineri, da CASAI.

Tailândia Varela Shawadawa nos contou um pouco de sua experiência na oficina:

Debatemos muito sobre saúde, direitos indígenas e fortalecimento das mulheres. Falamos sobre plantio e criação de aves e peixes, porque hoje a caça está mais distante por causa da mudança climática. A gente precisa mitigar os efeitos, mas também se adaptar, fazer o que antes não fazia. Queremos fortalecer a produção de alimentos nas aldeias e trabalhar junto, em parceria com a comunidade. Tivemos também a presença da Soleane Manchineri, da Defensoria Pública, que veio falar com a gente sobre violência doméstica, emocional e econômica, e da Francisca Arara, secretária dos Povos Indígenas. Para nós, foi muito importante discutir o fortalecimento das mulheres. Antes, a gente não tinha voz, não participava. Hoje, participamos mais, viajamos, falamos, estamos em reuniões e eventos.

A 3ª Oficina Mulheres Indígenas, Gênero e Gestão reafirma seu compromisso com o fortalecimento do caminho das mulheres indígenas, no sentido de empoderar suas ações. Para a CPI-Acre, investir na formação das mulheres indígenas é investir na segurança e na autonomia dos povos indígenas.

O trabalho iniciado nas oficinas segue nos territórios. As participantes retornam às suas comunidades levando os aprendizados, o recurso e o compromisso de fortalecer outras mulheres, além da responsabilidade da execução completa do projeto de segurança alimentar, definido por elas. (Comunicação)

Fonte: https://cpiacre.org.br/3a-oficina-de-mulheres-indigenas-genero-e-gestao-fortalece-autonomia-e-protagonismo-feminino-nos-territorios/