Foto: Ila Verus
Terminou no dia 30 de novembro, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), em Rio Branco, o XXXV Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas, que reuniu 25 participantes de oito povos – Nukini, Shanenawa, Manxineru, Huni Kuĩ, Yawanawá, Shawãdawa, Ashaninka e Jaminawa-Arara, entre eles, cinco mulheres.
Os agentes agroflorestais desempenham um papel fundamental nos territórios indígenas do Acre. São eles que animam e fortalecem a gestão territorial e ambiental, estimulando debates comunitários e buscando soluções para os desafios enfrentados em seus territórios, contribuindo para redução do desmatamento, no monitoramento dos recursos naturais e na implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), desenvolvidos na formação.
A presença feminina nos cursos tem crescido nos últimos anos e o CFPF vem trabalhando para ampliar essa participação. O fortalecimento das mulheres é essencial para a vida e a autonomia dos povos indígenas, especialmente em temas como segurança alimentar, preservação cultural e transmissão de conhecimentos tradicionais.
A aluna Neuride Napoleão Manchineri, da Terra Indígena (TI) Mamoadate e uma das primeiras mulheres a integrar a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), compartilhou seus aprendizados: “Agora eu já estou aprendendo uma outra visão: juntar o lixo lá na aldeia, por que é importante? Importante não juntar lixo para não poluir a água. Esse é um outro conhecimento que tive na CPI… Eu já estou pensando, quando eu chegar, como é que eu vou reflorestar minha aldeia, porque já está tudo desmatado…”
AAFI Neuride Napoleão Manchineri, da aldeia Extrema, Terra Indígena (TI) Mamoadate. Foto: Ila Verus
A metodologia da formação, que tem duração de sete anos, combina períodos de aulas presenciais no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), em Rio Branco, com oficinas e assessorias técnicas nas aldeias, garantindo que conteúdo e prática dialoguem diretamente com a realidade de cada território.
Um dos elementos centrais da formação são os diários de trabalho, nos quais os agentes registram atividades como implantação de SAFs, construção de viveiros, manejo de roçados, pesquisas sobre plantas, ações de proteção territorial e atividades escolares. Por meio de desenhos e textos (tanto em português como em língua indígena), os registros reforçam a autoria indígena e ajudam na preservação e na transmissão desses conhecimentos.
Nesta última etapa de 2025, realizada em novembro, os alunos estudaram agroecologia, com foco em sistemas agroflorestais, criação de aves e segurança alimentar, cartografia indígena, fundamentos da função de agente agroflorestal, língua portuguesa e línguas indígenas, matemática, artes e ofícios, história indígena e arqueologia, ecologia indígena e mudanças climáticas. Também foram implementados modelos demonstrativos de captação de água da chuva, seguindo princípios da agroecologia, conhecimentos tradicionais e as cosmovisões dos povos.
A coordenadora do PGTA, Elke Lima destaca que a interculturalidade, que sustenta a metodologia do curso, reforça o protagonismo de cada povo e o compromisso com a gestão territorial feita “de dentro”, baseada nas necessidades das próprias comunidades: “Esta foi mais uma etapa da formação dos agentes agroflorestais indígenas e, junto com os intercâmbios, as oficinas e as consultorias, tem como objetivo estimular a segurança alimentar, o acesso à água potável, a valorização e o sentimento de pertencimento, contribuindo com o fortalecimento da cultura e da identidade de cada povo”, destaca Elke.
Elke Lima, coordenadora do PGTA, durante as aulas de viveiro da disciplina de Agroecologia. Foto: Ila Verus
Ainda como parte da formação, a turma realizou quatro intercâmbios: nas áreas de horta e produção de mudas do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (UFAC); no Museu da Borracha, aprofundando conhecimentos de história e economia; na Unidade de Tratamento de Resíduos Sólidos do Acre (UTRE), com debates sobre contaminação das águas e rios; e uma visita à exposição “A Madeira me Contou – Estamos esculpindo nossa história”, no Museu dos Povos Acreanos.
O Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Florestais Indígenas é realizado pelo Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), uma escola que reúne áreas demonstrativas com sistemas agroflorestais, viveiros de mudas e unidades experimentais de criação animal (meliponicultura, avicultura, piscicultura e quelonicultura), compondo um ambiente de aprendizado que integra manejo tradicional e inovação comunitária.
Com resultados concretos para os territórios e para as comunidades indígenas, a formação é um processo contínuo, que se fortalece a cada ano. Agradecemos a todos os que participaram e se emprenharam na conclusão deste ciclo. Ano que vem tem mais. (Comunicação CPI-Acre)
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