Comunidade Nativa de Monte Salvado, na região de Madre de Dios, no Peru. Foto: Lucas Manchineri

Indígenas povo Manxineru, da aldeia Extrema, Terra Indígena Mamoadate, participaram entre os dias 4 e 8 de novembro do Intercâmbio Manxineru–Yine 2025, realizado na Comunidade Nativa de Monte Salvado, na região de Madre de Dios, no Peru. O encontro teve como principal objetivo promover o diálogo e estabelecer parcerias entre comunidades fronteiriças que compartilham desafios e responsabilidades para contribuir com a proteção dos povos indígenas isolados e a conservação da floresta amazônica.

O encontro reuniu representantes de comunidades e associações do Peru e do Brasil, entre elas: a Associação Manxineru Ptohi Phunputuru Poktshi Hajene (MAPPHA), do Acre; lideranças da Comunidade Yine de Monte Salvado; a Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (FENAMAD), do Peru; representantes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), de Atalaia do Norte (AM); além de membros da nação Yine, lideranças locais e aliados do movimento indígena.

Durante o intercâmbio, foram discutidos e acordados compromissos conjuntos para o fortalecimento do monitoramento territorial, a proteção dos povos indígenas isolados e o reconhecimento das responsabilidades compartilhadas para a proteção da floresta. Nas atividades também abordaram estratégias e protocolos comunitários de ação em situações de possível contato com povos isolados, reforçando a importância da cooperação transfronteiriça.

De acordo com a liderança indígena, Lucas Manchineri, presidente da MAPPHA, o encontro representa um marco na formação e no fortalecimento do monitoramento comunitário: “A importância desse intercâmbio para o povo Manxineru é fortalecer o trabalho dos nossos agentes e monitores da aldeia Extrema. Aqui, eles têm a oportunidade de aprender e trocar experiências com os agentes de proteção da Comunidade de Monte Salvado, no Peru. Todo esse conhecimento adquirido será colocado em prática no território, reforçando nosso trabalho de vigilância e proteção. Também é um momento importante para entender melhor os protocolos de convivência com os povos isolados — ou como chamamos, os ‘parentes desconfiados’. Aqui, estamos aprendendo que os Yine têm um protocolo tradicional muito importante para se defender, dialogar e agir com respeito. Isso é um grande aprendizado para todos nós”, destacou.

Desde 2011, a comunidade da aldeia Extrema, na Terra Indígena Mamoadate, mantém um coletivo de monitoramento e vigilância indígena, criado para acompanhar os movimentos dos chamados “parentes desconfiados” — termo utilizado para se referirem aos povos isolados que transitam na região. Esse trabalho é reconhecido como uma importante ação preventiva e de respeito à autodeterminação desses povos. O povo Manxineru tem histórico de avistamentos e mantém uma permanente atenção à situação de possível aproximação desses grupos que vivem em isolamento voluntário na região da fronteira, visto que estão chegando perto das aldeias com mais frequência. O episódio mais recente ocorreu em novembro de 2024, quando um grupo de isolados saqueou uma das casas da aldeia, levando ferramentas, roupas e cobertores. O fato reforçou a urgência de fortalecer as ações comunitárias de vigilância nos dois lados da fronteira, buscando evitar possíveis confrontos, sempre respeitando a política de não contato e os protocolos de segurança tradicional.

Segundo dados da Survival International, existem 196 povos e grupos indígenas em isolamento voluntário no mundo, distribuídos em 10 países das regiões da América do Sul, Ásia e Pacífico. A Amazônia concentra cerca de 95% desses grupos, e o Brasil abriga a maior parte, com 114 registros de povos indígenas isolados na Amazônia Legal, dos quais 28 são confirmados, conforme informações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Esses povos mantêm, voluntariamente, pouca ou nenhuma relação com o mundo externo, vivendo de forma autônoma em áreas de floresta que garantem sua sobrevivência. A política de não contato é uma diretriz essencial para assegurar sua proteção e preservação cultural.

No lado peruano, destaca-se o povo Mashco-Piro, considerado o maior grupo de indígenas isolados do mundo, com uma população estimada entre 750 e 800 pessoas que vivem de forma seminômade entre a Reserva Territorial Madre de Dios e áreas próximas à fronteira com o Brasil, segundo dados da Survival Brasil. Nos últimos anos, os Mashco-Piro têm sido avistados com maior frequência nas margens dos rios Las Piedras e Tahuamanu, ambos localizados em território peruano, próximos às cabeceiras do rio Iaco, que banha toda a Terra Indígena Mamoadate, no Acre, e atravessa os limites internacionais em direção ao Peru. Essa proximidade reforça a urgência de ações integradas de vigilância e proteção entre os dois países.

O intercâmbio Manxineru–Yine surge como resposta a uma demanda das comunidades do povo Manxineru, em parceria com a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) e o Observatório dos Povos Isolados (OPI). Essa agenda faz parte de um esforço permanente de fortalecimento da cooperação entre os povos Yine e Manxineru, reafirmando o protagonismo indígena na proteção da vida e dos territórios amazônicos.

Destaca-se como um dos resultados concretos, a assinatura de um Acordo de Cooperação de Trabalho entre a MAPPHA, a comunidade Yine de Monte Salvado e a FENAMAD, que estabelece novas bases para os próximos intercâmbios, trocas regulares de informações, o fortalecimento do monitoramento territorial indígena e o apoio mútuo entre as organizações. (Comunicação CPI-Acre)

Fonte: https://cpiacre.org.br/intercambio-fortalece-acoes-de-protecao-aos-povos-indigenas-isolados-entre-manxineru-e-yine/