Maysa Benites, moradora da Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo – Karime Xavier – 30.jan.24/Folhapress
- Enquanto essa caneta não for usada, o sangue indígena continuará sendo derramado
- O Estado continua escolhendo o lucro em vez da vida
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Para quem ainda hesita, para quem pode assinar, para quem tem o poder de devolver o que nunca deveria ter sido tirado:
Eu sou Txai Suruí, mulher indígena, moradora da Terra Indígena Jaraguá, casada com o líder guarani Thiago Karai Djekupe, filho desta terra que o governo chama de “em análise”, que os gananciosos empreendimentos especulam e cujos ancestrais e nossos filhos chamam de lar.
Venho falar do meu peito, onde a esperança e o cansaço moram lado a lado. Venho falar do território que há décadas espera. O laudo está pronto. As análises comprovaram. A demarcação foi aprovada, os estudos estão concluídos, as pendências técnicas há muito foram sanadas. Não há mais nenhum impedimento legal, nenhum dado novo, nenhuma interdição de verdade. O Estado, que um dia foi contrário, afirmou em juízo que não se opõe mais. Resta apenas a vontade política.
É essa falta de vontade que me atravessa os ossos todas as manhãs. É ela que me faz acordar e lembrar que, enquanto nosso território dorme numa gaveta em Brasília, a especulação cresce sobre a pouca mata que nos resta e os empreendimentos que prometem trazer a poluição do ar e a degradação ambiental ameaçam nossa existência. Enquanto uma caneta pode mudar nosso futuro, a ganância continua decidindo nosso presente. Não peço esmola, peço justiça. Não peço privilégio, peço o cumprimento da Constituição que desde 1988 reconhece o nosso direito originário sobre as terras.
Ao sr. ministro da Justiça, à sra. ministra da Casa Civil, ao exmo. sr. presidente da República:
Homologar nosso território não cria uma terra indígena nova. Apenas reconhece o que sempre existiu. A caneta que assina a homologação não tira terra de ninguém, ela devolve a dignidade a quem foi confinado, expulso e silenciado.
Eu, mulher indígena, não tenho mais tempo para desculpas políticas. Tenho parentes ameaçados por proteger seu território contra empreendimentos que nos cercam cada dia mais. Tenho anciãos que morrem sem ver o papel assinado. Tenho crianças que perguntam por que o rio está doente e a mata encolhendo. Eu mesma tenho a alma cansada de lutar.
Então, senhores e senhoras que detêm o poder da caneta: o que falta? O laudo? Pronto. O parecer? Concluído. A decisão judicial? Favorável. O marco temporal? Derrotado no STF. O direito humano? Reconhecido pela ONU. O que falta então? Coragem? Empatia?
Homologar nosso território não é um favor. É uma obrigação. E a única coisa que impede hoje esse ato é a ausência de decisão política. Nada mais. Enquanto essa caneta não é usada, o sangue indígena continua sendo derramado, a floresta continua queimando e o Estado continua escolhendo o lucro em vez da vida.
Mas eu ainda acredito. Não em promessas. Acredito na força da nossa luta. Acredito que, se esta carta chegar às mãos certas, talvez lembrem que do outro lado do papel não há um processo, há um povo. Minha alma tem pressa, presidente. Nosso território tem nome. E não há mais desculpas.
Com a força de nossos ancestrais, da primeira cacica guarani, Jandira Kerexu, avó deste território, a memória da nossa aldeia e a urgência do nosso futuro, eu clamo: homologue a TI Jaraguá!
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/04/homologar-nosso-territorio-nao-e-favor-e-obrigacao.shtml
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