Ivanira dos Santos da Silva (1942 – 2026) – Arquivo pessoal

  • Ivanira lutou pelo direito à terra do seu povo potiguara em Baía Formosa (RN)
  • Mantinha saberes tradicionais indígenas atuando como parteira e rezadeira da comunidade

Adriano Alves

Juazeiro (BA)

Há muitos anos, o povo potiguara do Rio Grande do Norte luta pela demarcação de suas terras. No entanto, com o passar do tempo, a área ao redor da aldeia Sagi Jacu, em Baía Formosa, começou a sofrer com a especulação imobiliária e o agronegócio. Por isos, Ivanira dos Santos da Silva, nascida e criada no território indígena, esteve à frente de muitas batalhas e virou símbolo de resistência.

Entre o final da década de 1970 e os anos 1980, presenciou momentos difíceis. Quando um fazendeiro se apossou de áreas na região, os indígenas passaram a ser ameaçados. Em suas memórias ficaram imagens de parentes sendo puxados pela estrada amarrados em cavalos pelas mãos. Foi necessária força para retomar as terras.

E a luta nunca parou. Já com mais de 70 anos, em 2017, a matriarca da aldeia foi com um grupo bloquear o acesso ao aeroporto de Natal. Com faixas e pneus, o protesto era contra o fechamento da unidade da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) no estado. Ivanira levou a família, dos adultos até as crianças.

“Ela foi um símbolo de uma matriarca que estava na frente de uma retomada. Ela levou uma bala de borracha nas costas que ficou [alojada] para a vida toda”, diz a cacica Eva Claudino, 48, sua filha.

Nos últimos anos, era a conselheira da comunidade. Compartilhava saberes sobre costumes de seu povo que guardava desde pequena. Tinha aprendizados do trabalho na agricultura com seus pais e os seis irmãos. Sabia os segredos de plantar e fazer beiju, além de pisar pilão para ter farinha de mandioca e cuscuz.

Casou-se muito nova, aos 13 anos. Zé Marreca era vizinho de uma tia que morava na Paraíba, onde ela passou alguns anos. Voltou para casa já no final da adolescência, acompanhada do então marido.

Tiveram 11 filhos, mas dois morreram ainda bebês. “Era tudo muito difícil. Mulher carregava água na cabeça e ralava mandioca o dia todo na casa de farinha. Era muito peso e muito sofrimento, elas tinham as crianças no meio disso e nem todas sobreviveram”, conta a filha.

Ivanira, que criou tantos filhos, acabou sendo também parteira. Ajudou muitas crianças a nascerem, entre netos e netas.

Também foi benzedeira e curandeira para seu povo. O ofício foi herdado do pai, João dos Santos da Silva, rezador que morreu aos 115 anos. Com ele aprendeu o que chamava de “reza forte”.

Ano passado, descobriu um câncer na mucosa da boca. A avaliação médica estimou que ela já convivia com a doença havia mais de duas décadas. Morreu no dia 25 de janeiro, aos 83 anos.

Deixa nove filhos, Verônica, 63, Vânia, 60, Antônio, 58, Mônica, 54, Betânica, 51, Eva, 48, Ana, 46, Djalma, 44, e Silva, 37. Também ficam 46 netos e 20 bisnetos.

“Mesmo passando para a ancestralidade e estando com os nossos antepassados, a minha mãe deixou o seu legado para os filhos darem continuidade”, afirma Eva.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/mortes-matriarca-da-aldeia-sagi-jacu-foi-simbolo-de-resistencia.shtml