Jovens do Tumucumaque reunidos para a primeira etapa da oficina de audiovisual, em novembro de 2024, na aldeia Missão Tiriyó (Foto: acervo Iepé)
Processo coletivo de formação, captação e edição de imagens fortalece o protagonismo dos povos do território na construção da história da organização indígena do Tumucumaque oeste, parceira do Iepé desde a sua criação
Texto: Angélica Queiroz
Para se aprender a fazer vídeos, não basta aprender as ferramentas técnicas, é preciso desenvolver o pensamento narrativo e a construção coletiva de sentido. Com esse foco, jovens indígenas do Tumucumaque participaram, entre 2024 e 2025, de uma formação que envolveu captação e edição de imagens. O processo resultou em um vídeo que celebra os 20 anos da Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikuyana (APITIKATXI), disponível no canal da organização indígena no YouTube.
O vídeo de sete minutos retrata a trajetória da associação e valoriza a ponte entre a memória dos mais velhos e os jovens, que representam o futuro e a continuidade da luta em defesa de seus direitos.
Assista em português no Youtube da APITIKATXI:
Assista, com legenda em inglês, no Youtube da APITIKATXI:
Para a jovem comunicadora do Tumucumaque, Jacilene Kaxuyana, que participou das oficinas, o processo foi importante para conhecer um pouco mais a história da associação. “Nesses 20 anos, a APITIKATXI conquistou muitos projetos, que beneficiam os jovens e a nossa comunidade, como o Fundo Pakará”, comenta. Ela também destaca como o aprendizado em audiovisual contribui para fortalecer o protagonismo indígena: “O audiovisual é muito importante para que os jovens possam ajudar nossos caciques e também para mostrar a nossa cultura. Além disso, aprender me ajuda a ensinar outros jovens”, relata.
O trabalho começou em novembro de 2024, quando diversas lideranças do território se reuniram na aldeia Missão Tiriyó para a assembleia que celebrou os 20 anos da APITIKATXI. Antes, durante e depois do evento, os jovens aprenderam as etapas básicas de idealização, organização e realização de uma filmagem que daria origem ao vídeo comemorativo. Celulares e microfones foram disponibilizados aos comunicadores, que foram incentivados a analisar o material captado a partir de suas próprias percepções, o que também ajudou a promover reflexões sobre como cada um enxerga e interpreta os elementos visuais ao seu redor.
“Logo no início, ficou evidente o grande interesse dos participantes em fazer registros. Assim que os celulares foram configurados, eles começaram a fotografar e gravar, incluindo cenas de bastidores, registrando uns aos outros e as atividades em andamento. Esse entusiasmo revelou uma vontade coletiva de trabalhar com audiovisual e um interesse pela fotografia e pelo vídeo. Embora alguns tivessem mais experiência do que outros, o interesse era unânime”, relata o facilitador Fred Rahal, que conduziu a formação.

“Técnica como meio, não como fim”
As gravações ocorreram ao longo de todo o período da assembleia, da manhã ao pôr do sol, em diferentes locais, desde as sombras das mangueiras, até áreas abertas e a beira do rio. Segundo Fred, cada escolha de cenário integrou o aprendizado prático da oficina, permitindo que os participantes experimentassem diferentes enquadramentos, luzes e perspectivas. “Esse método foi fundamental para preservar e valorizar o olhar individual de cada participante, sem impor uma visão externa. A ideia central era adaptar a técnica ao olhar único de cada comunicador, e não o contrário”, explica.
Em abril de 2025 teve início a segunda etapa da formação, voltada ao trabalho com o material captado na fase anterior e ao aprofundamento dos aspectos técnicos e subjetivos do olhar de cada participante. A proposta incluiu a edição do vídeo sobre a assembleia e os 20 anos da associação, além da curadoria e organização das fotografias produzidas no período para a criação de um banco de imagens. “O trabalho com as entrevistas (assistidas, discutidas e editadas em grupo) revelou-se um caminho de reconexão com a história da associação, despertando curiosidade, sentimento de pertencimento e compreensão mais profunda por parte dos participantes”, comenta Fred.

Para o professor, a técnica está sempre a serviço da história. “Mais do que aprender a operar um software, é fundamental entender o que se quer contar, por que se quer contar e para quem”, explica. “Aos poucos, ficou claro que o vídeo que estávamos montando era também um caminho de aproximação com a própria história e que essa é uma forma de descobrir (ou redescobrir) o papel da associação, os desafios enfrentados e as conquistas alcançadas. Esse tipo de envolvimento é difícil de planejar, mas, quando acontece, revela a potência real do audiovisual: não apenas como ferramenta de comunicação, mas como espaço de pertencimento, escuta e fortalecimento da memória coletiva”, conclui.
O ex-presidente da Apitikatxi, Aventino Tiriyó, é um exemplo de como o audiovisual pode ser um caminho para que os jovens se apropriem da história e da luta de seus territórios. Ele iniciou sua trajetória política a partir de uma formação em audiovisual. À época, com 15 anos, começou a atuar como cineasta indígena e, depois, como tradutor, funções que o aproximaram de organizações como o Iepé, parceiro da associação desde a sua fundação, e também do Conselho de Caciques do Tumucumaque. Anos depois, foi eleito presidente da organização indígena, cargo que ocupou por dois mandatos, até o final de 2025. “É uma longa caminhada e eu vejo que a APITIKATXI tem conseguido um bom trabalho junto com o Iepé. Nossa organização vem crescendo e ajudando a comunidade. Fico feliz de fazer parte dessa história!”, comenta.
O trabalho não se encerra com a finalização do vídeo. As oficinas marcaram apenas o início do processo de formação desses jovens. A proposta é dar continuidade às formações, valorizando e incentivando os participantes que se envolveram na iniciativa, com novos formatos e temas de interesse, pensados para potencializar os diferentes talentos que começaram a se revelar nessa primeira etapa.
A formação de jovens do Tumucumaque em audiovisual foi apoiada pelo Iepé, por meio de um edital de projetos da Ford Foundation, e contou também com o apoio do Bezos Earth Fund e da Nia Tero.
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