Material reúne resultados e lições de cinco anos de formação e está disponível, em português e espanhol, na Infoteca do Iepé

Texto: Angélica Queiroz

A emergência climática é uma realidade global, e os impactos das transformações ambientais nas Terras Indígenas têm se tornado cada vez mais evidentes em toda a Amazônia. Como os povos indígenas têm percebido essas mudanças a partir de seus modos de vida e sistemas próprios de conhecimento? Que ações de adaptação estão em andamento para lidar com esse cenário? Essas são algumas das perguntas discutidas na publicação “Percepções indígenas sobre mudanças climáticas: uma experiência de formação intercultural”, disponível, em português e espanhol, na Infoteca do Iepé.

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De autoria dos antropólogos Luis Donisete Benzi Grupioni e Rita Becker, o trabalho detalha o ciclo de formação de jovens, homens e mulheres indígenas em transformações ambientais e mudanças climáticas, experiência piloto de formação intercultural. Construída e executada a partir do diálogo com as lideranças indígenas na região do Oiapoque, no Amapá, o processo foi conduzido pelo Iepé com apoio do Projeto Terrindígena, apoiado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e o Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM). Foram cinco anos de formação, dedicados a pesquisas indígenas nas aldeias, entrevistas com anciões, registro de dados pluviométricos, elaboração de gráficos e reflexões teóricas, fundamentadas nas percepções indígenas sobre as transformações ambientais.

“Os dados das pesquisas evidenciaram que eles têm percebido mais instabilidade e imprevisibilidade nos padrões da sazonalidade conhecidos e retratados pelos mais velhos, o que tem incidido diretamente em aspectos da vida cotidiana, como o feito das roças”, destaca o texto, que  apresenta as etapas da formação, as atividades realizadas, os resultados alcançados e as lições aprendidas ao longo do processo.

“A experiência da formação trouxe outro olhar para a discussão das mudanças climáticas. Um olhar minucioso, atento e cotidiano dos indígenas do Oiapoque, que foi se revelando a cada módulo do curso. Em sua maioria jovens, os estudantes foram pesquisando com seus parentes sobre os ‘marcadores do tempo’, sinais das mudanças esperadas, dos ciclos anuais que são muito marcados no Oiapoque, como o período das chuvas em que os campos ficam alagados, e o tempo da seca em que os peixes se concentram nos rios”, comenta a Coordenadora do Programa Oiapoque, Rita Becker Lewkowicz. “Os jovens também foram percebendo a importância de sistematizar esses conhecimentos e dialogar sobre mudanças climáticas a partir desse outro lugar”, completa.

Rita destaca ainda que a pandemia, que impactou todo o mundo durante o ciclo de formação do projeto, foi um desafio, mas ao mesmo tempo fortaleceu a autonomia dos estudantes na realização de suas pesquisas nas aldeias e no diálogo virtual com os professores orientadores. “Foi uma inovação que deu certo”, ressalta.

Quem participou do ciclo de formação também dá o seu depoimento no trabalho. “O curso de mudanças climáticas para mim foi muito bom porque eu tive um aprendizado sobre as causas das mudanças climáticas que vêm ocorrendo no mundo e como ela nos afeta no nosso território, impactando a nossa vida, cultura e etc. Eu posso dizer que fez diferença não somente na minha vida, mas como também na minha comunidade de poder compartilhar um pouco do que eu aprendi ao longo do curso, principalmente as atividades desenvolvidas, como o reflorestamento de áreas de capoeira e sobre o cuidado com o fogo”, afirma o indígena do povo Galibi Marworno, Ronaldo Narciso Anica, da Aldeia Tukay, um dos participantes.

Essa publicação foi organizada e impressa graças ao ProjetoTerrindígena, apoiado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e o Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM).

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/01/publicacao-destaca-percepcoes-de-indigenas-do-oiapoque-sobre-mudancas-climaticas/