Cerimônia de entrega do Prêmio Mre Gavião de Fotografia – Foto: Gustavo Alcântara

Marco na visibilização de narrativas construídas a partir do interior das comunidades, cerimônia no Memorial dos Povos Indígenas reconhece trabalhos fotográficos produzidos por indígenas com valor total de R$ 90 mil

A cerimônia de Premiação do Prêmio Mre Gavião: Fortalecimento da Comunicação Indígena, realizada na quarta-feira (21), no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, consagrou 42 fotógrafos e comunicadores indígenas de 17 estados brasileiros. Organizado pela Assessoria Especial de Comunicação (ASCOM) do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o evento materializou o objetivo central do concurso: reconhecer e fomentar a produção audiovisual autóctone, premiando trabalhos que, através de uma rigorosa metodologia de seleção, destacaram-se por sua relevância temática, força narrativa e qualidade estética.

Os vencedores, provenientes de comunidades indígenas de norte a sul do país, foram selecionados conforme os critérios estabelecidos no edital público lançado em agosto de 2025. A premiação, com valor global de R$ 90 mil, distribuiu recursos em nove categorias distintas. Os primeiros colocados de cada categoria receberam R$ 5 mil, os segundos lugares, R$ 2 mil, e os terceiros, quartos e quintos colocados foram agraciados com menções honrosas no valor de R$ 1 mil cada.

A metodologia de avaliação, conduzida por uma Comissão Julgadora, ponderou não apenas a qualidade técnica e a originalidade das obras, mas também sua capacidade de valorizar culturas, territórios e lutas indígenas, comunicando história e contexto sociocultural com impacto de representantes dos seguintes estados: Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Tocantins, Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.

Dentre os premiados, destacaram-se nomes como Piratá Waurá, que obteve o primeiro lugar nas categorias Infâncias e Juventudes Indígenas e Vida Cotidiana Indígena, e ainda um segundo lugar em Rituais, Jogos e Cosmovisão. Outro vencedor múltiplo foi Takumã Kuikuro, primeiro colocado em Resistência e Defesa de Direitos, demonstrando a potência do registro documental engajado.

Já Débora Anacé, mulher indígena da comunidade Taba do Anacé, na Terra Indígena Anacé, no Ceará, foi uma das vencedoras do Prêmio MRE Gavião, conquistando o quinto lugar na categoria Resistência e Direito à Defesa dos Direitos. Sua atuação se destaca pelo uso da fotografia como ferramenta de narrativa e resistência, garantindo que a história de seu povo seja contada por sua própria perspectiva, um ato político e cultural de grande relevância.

Ao receber o reconhecimento em nível nacional, Débora enfatizou o significado coletivo da honraria e a importância de uma mulher indígena estar entre os premiados. “Por muito tempo a gente não pode contar nossa própria história. Ser mulher e ter a oportunidade de contar a história do meu povo através da fotografia é muito importante. Isso não só para mim, porque a gente não defende só o nosso, mas defende o nosso povo e os povos indígenas do Brasil todo.”

A categoria Retratos e Identidades foi liderada por Mayane Ramos dos Santos, que também conquistou um segundo lugar em Infâncias e Juventudes Indígenas. Já Damião da Paz venceu as categorias Inovação Visual e Experimentação Técnica e Territórios, Natureza e Sustentabilidade, evidenciando a diversidade de abordagens e técnicas premiadas.

Flávia Correa Xakriabá, de 28 anos, é uma fotógrafa indígena da Aldeia Barreira do Xakriabá, em Minas Gerais, que representa uma comunidade de aproximadamente 13 mil pessoas. Ela foi destaque no Prêmio MRE Gavião de Fotografia, conquistando a quarta colocação em duas categorias distintas: Retrato e Identidade, e Inovação Visual e Experiência Técnica, sendo esta sua primeira premiação no segmento da fotografia.

“Eu acho importante e necessário o Prêmio porque a gente tem um olhar diferente, um olhar que atravessa a lente. Quando são os parentes que estão ali premiando percebemos que estamos fazendo o certo, porque eles estão vendo que estamos fazendo um bom trabalho quando estamos falando de nós mesmos.”

Vherá Poty Benites da Silva, também conhecido como Arapoatinga Benites da Silva, é um fotógrafo indígena de 38 anos da comunidade Tekoa Jekupe Amba (Morada do Guardião), localizada em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Ele se destacou como um dos maiores vencedores do Prêmio MRE Gavião de Fotografia, conquistando o quinto lugar na categoria Infâncias e Juventudes Indígenas, o segundo lugar na categoria Território, Natureza e Sustentabilidade e o terceiro na catergoria Vida Cotidiana Indígena. Com uma trajetória que começou aos 14 anos e inclui a publicação do livro “Os Guarani Mbya”, ele vê na fotografia uma ferramenta poderosa de registro e luta.

Para ele, o prêmio possui um significado especial por ser promovido por um ministério voltado aos povos indígenas. Sobre o olhar único da fotografia indígena, ele afirma: “Eu acredito que a foto dos indígenas, dos fotógrafos indígenas, de modo geral, tem um significado, tem uma expressão bem diferente. Porque já tem uma visão, uma cosmovisão já desenhada na forma de olhar. Isso traz uma forma de registrar todo o processo, seja no processo de luta, no processo cotidiano, no processo espiritual. Tem uma expressão muito gigantesca nesse sentido.”

A exibição de um vídeo dedicado a Kumreiti Cardoso Kiné, o Mre Gavião, relembrou a trajetória do fotógrafo oficial do ministério, cujo olhar sensível e criativo, iniciado nas coberturas do Acampamento Terra Livre, serve de inspiração para os novos talentos agora premiados.

Assim, o Prêmio Mre Gavião se estabelece não apenas como um mecanismo de incentivo financeiro, mas como um marco na visibilização de uma narrativa construída a partir do interior das comunidades. Ao exigir fotografias inéditas, autorais e livres de manipulações significativas ou inteligência artificial, o concurso reforçou o valor do testemunho e da autoria indígena. Além disso, a exigência de uma declaração de liderança atestando o vínculo comunitário dos proponentes assegurou que as vozes premiadas são, efetivamente, as que emergem dos territórios.

– Confira a íntegra das categorias e os nomes dos vencedores:

Fotografia Mobile (Celular) 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Otávio Junior Costa490,40
Willian Matos Braz483,60
Barbára Rehkayie Kaxuyana  Inglez de Souza478,60
Jonatan Braz Cunha472,80
Iago da Costa Silva456,40

Infâncias e Juventudes Indígenas 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Piratá waurá496,00
Mayane Ramos dos Santos479,60
Yrerewa Braz de Oliveira Cunha477,00
Itamar Neco Araújo474,00
Vherá Poty Benites da Silva470,00

Inovação Visual e Experimentação Técnica 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Damião da Paz462,80
Sérgio Luis Rodrigues Silva460,20
Yrerewa Braz de Oliveira Cunha Silva451,40
Flávia Corrêa433,60

Jovens Comunicadores(as) – até 25 anos 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Wey Marques Tenente482,80
Ryan Guilherme Soares de Melo430,60
João Pedro Carqueija Nunes  Tupinambá401,20

Resistência e Defesa de Direitos 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Takumã Kuikuro490,60
Vitor Vulga dos Santos489,80
Sônia Maria Inácio Belfort Rocha474,80
Bruna Sirayp Kayabi458,80
Débora Evellyn Silva de Lima453,40

Retratos e Identidades 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Mayane Ramos dos Santos493,80
João Victor Silva Nascimento492,80
Jonatan Braz Cunha489,80
Flávia Corrêa Franco486,80
Ana Beatriz Rosa Lima484,20

Rituais, Jogos e Cosmovisão 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Junior Okario’i Tapirape488,40
Piratá Waurá485,00
Iago Costa Silva485,00
Takumã Kuikuro478,60
Thacio de Oliveira Coelho478,20

Territórios, Natureza e Sustentabilidade 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Damião da Paz482,40
Vherá Poty Benites da Silva475,20
Nadiely Vitória Matos Benites466,40
Arankié Pires Tenório452,00
Tawaiku Juruna443,20

Vida Cotidiana Indígena 

PosiçãoNome/Nome SocialNota
Piratá Waurá491,20
Juvenilson Burum Crixi486,60
Vherá Poty Benites da Silva479,40
Takumã Kuikuro470,20
Sônia Maria Inácio Belfort Rocha462,40

Fonte: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2026/premio-mre-gaviao-consagra-olhares-indigenas-da-fotografia