Foto: André Corrêa
Em cerimônia no Instituto Rio Branco, 28 indígenas dos seis biomas receberam certificados; acordo com CNPq e Itamaraty viabiliza até 8 bolsas de R$ 30 mil para candidatos indígenas ao concurso de diplomacia
O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) encerrou, na terça-feira (31), o Programa Kuntari Katu: Líderes Indígenas na Política Global, em cerimônia realizada no Instituto Rio Branco, em Brasília. Além da entrega dos certificados aos 28 participantes da primeira turma do curso, o evento marcou a assinatura do edital que viabiliza a concessão de até 8 bolsas-prêmio de R$ 30 mil cada para candidatos indígenas ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), em uma parceria inédita entre o MPI, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“O programa Kuntari Katu nasceu com o sonho de preparar lideranças para a COP, mas se revelou muito maior: é a materialização do nosso chamado para aldear o Estado. Não se trata de uma ocupação simbólica, mas de uma transformação real e significativa. Estamos falando de indígenas assumindo cargos estratégicos no primeiro Ministério dos Povos Indígenas, na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), na Sesai (Secretaria de Saúde Indígena), e agora, por meio dessa parceria com o Instituto Rio Branco e o Ministério das Relações Exteriores, ocupando espaços jamais imaginados. Nossa presença é significativa e transformadora, e vocês, formandos, são agentes dessa mudança que já serve de exemplo para outros países”, declarou a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, durante o encerramento do evento.
A conclusão do Kuntari Katu consolida um processo iniciado em 2023 com a criação doMPI e reforça a estratégia do governo federal de ampliar a incidência de lideranças indígenas nos fóruns multilaterais. Durante a COP 30, os jovens formados pelo programa atuaram ativamente nas negociações, integrando grupos técnicos e a Plataforma de Povos Indígenas e Comunidades Locais (LCIPP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
A ministra também destacou o significado histórico da iniciativa e a trajetória que levou à formação da primeira turma do programa, cujo nome significa “aquele que fala bem” nas línguas Nheengatu e Tupi.
“A formação que vocês receberam é uma via de mão dupla: vocês levaram para o Estado o conhecimento tradicional, e o Estado aprendeu com vocês. Esse diploma representa o compromisso de multiplicar esse aprendizado, mostrando que nossa língua, nossa cultura e nosso jeito de chegar nos lugares precisam ser reconhecidos como fundamentais, não apenas como símbolos. Em um momento de guerras e ódio, a resposta é investir em informação, alegria, solidariedade e coletividade. Este curso foi feito a muitas mãos, e só com muitas mãos, com amor e dedicação, a gente vence o ódio e transforma a sociedade.”
Ação afirmativa para a diplomacia
O edital assinado durante a cerimônia estabelece as regras do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco para Pessoas Indígenas (PAA/IRBr Indígenas) 2026, que oferecerá bolsas pagas em parcela única pelo CNPq. Os recursos devem ser utilizados para custeio de material bibliográfico e cursos preparatórios para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata.
“O Itamaraty, por meio do Instituto Rio Branco, reafirma seu compromisso com a promoção da diversidade e da igualdade. Hoje, assinamos o primeiro edital conjunto com o Ministério dos Povos Indígenas e o CNPq para conceder bolsas de estudo a candidatos indígenas que desejam ingressar na carreira diplomática. É um passo inédito: pela primeira vez, destinamos recursos do nosso orçamento para apoiar financeiramente essa preparação, com oito bolsas no valor de R$ 30 mil cada, respeitando a paridade entre mulheres e homens”, afirmou a Embaixadora e diretora do Instituto Rio Branco, Mitzi Gurgel
Conforme a embaixadora, no início do concurso de 2026 para o cargo de diplomata, houve 88 candidatos autodeclarados indígenas inscritos, sendo que no ano passado o total de candidatos indígenas foi 57. “Esperamos, com novas parcerias e aportes, fortalecer esse programa e, em breve, empossar uma turma de diplomatas que contará com muitos indígenas”, acrescentou.
As vagas estão divididas em quatro bolsas para candidatos homens e quatro para candidatas mulheres, conforme a classificação obtida pelos participantes no CACD 2025. Os 18 candidatos convocados para o procedimento de verificação documental complementar à autodeclaração – 14 homens e 4 mulheres – terão seus pertencimentos étnicos avaliados por uma comissão majoritariamente indígena, composta por cinco integrantes, que também realizará entrevistas por videoconferência.
“O CNPq tem muito orgulho de participar desta ação afirmativa, uma das mais antigas do Estado brasileiro, agora ampliada para incluir os povos indígenas. Mas quero dizer a vocês, indígenas que iniciam essa jornada de estudos: não venham com timidez, achando que só têm a aprender. Vocês são portadores de um saber ancestral que se expressa em cada um de vocês, e essa é uma grande bagagem que devem trazer para esta casa. O Itamaraty é uma das instituições mais longevas do Estado brasileiro, onde se forjou a vocação pacífica do Brasil. Mas a diplomacia é, antes de tudo, a arte de buscar acordos sem abrir mão da luta e isso os povos indígenas aprendem no cotidiano, desde a adolescência. Então, meu recado é: cabeça erguida, concentração. Vocês trazem um saber que será amplificado aqui, na preparação para a carreira diplomática”, refletiu o professor Olival Freire Jr., presidente do CNPq.
Iniciativa pioneira
O Kuntari Katu foi lançado em agosto de 2024, a partir de uma parceria entre o MPI, o MRE e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O programa teve duração de 18 meses e combinou módulos presenciais no Instituto Rio Branco, atividades virtuais, mentorias e aulas de inglês: idioma oficial das negociações climáticas.
Foram selecionadas 30 lideranças indígenas, representando 25 povos e todos os seis biomas brasileiros: Amazônia (11), Caatinga (6), Cerrado (4), Mata Atlântica (4), Pampa (4) e Pantanal (1). Ao longo do curso, os participantes tiveram acesso a aulas ministradas por diplomatas experientes e especialistas do MMA, abordando temas como financiamento climático, mitigação, adaptação, perdas e danos, transição justa, gênero e mercados de carbono.
A formação incluiu ainda experiências práticas em negociações internacionais. Parte dos alunos participou da COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia, em 2024; outros estiveram na COP29 do Clima, em Baku, no Azerbaijão, no mesmo ano; e 23 integrantes do programa marcaram presença na Conferência de Bonn, na Alemanha, em junho de 2025, como etapa preparatória para a COP30, realizada em Belém (PA) em novembro daquele ano.
Bekwikako Paiakan, 21 anos, do povo Kaiapó, no Estado do Pará, estudante de gestão de políticas públicas na Universidade de Brasília, foi uma das jovens formadas pelo Kuntari Katu. “O Kuntari Katu abriu muito meu horizonte. Comecei a valorizar cada vez mais espaços de incidência e pensar: um dia eu quero estar ali, um dia eu quero estar representando. Não havia indígenas ocupando esses lugares, e essa é a oportunidade de ocuparmos de fato. É um plano para o meu futuro. Sou muito grata por ter tido essa oportunidade, por ter acessado lugares e pelas pessoas que me ajudaram. Vou lembrar a minha vida inteira.”
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