Evento histórico em Belém reuniu mais de 100 comunicadores de 62 povos para fortalecimento da rede e planejamento da cobertura colaborativa da COP 30
Realizado entre os dias 28 e 31 de agosto de 2025 na Casa Maraká, em Belém (PA), o 1º Encontro Nacional de Comunicação Indígena estabeleceu um marco histórico ao reunir mais de 100 comunicadores indígenas de 62 povos de todos os biomas do Brasil. O evento, promovido pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) em parceria com o Coletivo Mídia Indígena, teve como objetivos centrais fortalecer uma rede nacional de comunicadores, alinhar a estratégia de cobertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP 30, e celebrar os dez anos de criação do Coletivo, a primeira associação de comunicação indígena com CNPJ do país.
No dia 31 de agosto, último dia do encontro, foi apresentado e consolidado o Plano de Comunicação da Mídia Indígena para a COP 30. O documento definiu uma cobertura que funcionou como um instrumento político e cultural, projetado para ecoar as vozes indígenas dentro das negociações oficiais, nas ações paralelas, nos territórios conectados virtualmente e na opinião pública global. “O objetivo central é assegurar que os povos indígenas sejam reconhecidos e ouvidos como protagonistas das discussões climáticas globais”, afirmou o texto da carta contendo o plano.
A estratégia foi colaborativa, criativa e descentralizada, com produção multimídia e multiplataforma, abrangendo desde transmissões ao vivo em redes sociais até rádios comunitárias e podcasts. Foram lançadas campanhas específicas, como “A resposta somos nós” (reafirmando a demarcação como solução para crises múltiplas) e “Indígenas presentes” (demarcando simbolicamente o território da COP). O cronograma incluiu três fases: preparatória (setembro-outubro), com formações e campanhas de mobilização; a cobertura intensiva durante o evento (novembro), com boletins diários e lives; e a fase pós-evento (dezembro a fevereiro), focada na publicação de um dossiê, exibições comunitárias e a formação de um arquivo audiovisual indígena permanente.
Abertura e debates consolidam uma “teia viva” de comunicação
Na abertura do encontro, dia 28, a secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do MPI, Giovana Mandulão, classificou o evento como um “divisor de águas”. Ela definiu a rede de comunicadores como uma “teia viva, feita de laços, parentescos e solidariedade”, fundamental para a defesa dos direitos indígenas. Durante sua fala, a secretária também divulgou a prorrogação das inscrições para o Prêmio Mre Gavião de fotografia.
Os debates do evento foram guiados por cinco eixos centrais: memória e identidade da comunicação indígena; formação política e técnica de comunicadores; articulação de uma rede nacional; estratégias de comunicação para a COP30; e criação de campanhas de impacto e diálogo com a sociedade. Puyr Tembé, secretária estadual de Povos Indígenas do Pará, destacou o momento como uma oportunidade para os povos definirem que comunicação desejam em um cenário desafiador. “Comunicação também é território, é mobilização e proteção.”
Base de atuação fortalecida e contexto histórico celebrado
O encontro foi possível após um mapeamento inédito de comunicadores indígenas realizado pelo Coletivo Mídia Indígena entre novembro de 2024 e março de 2025. A pesquisa recebeu 1.095 inscrições, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, e contou até com inscrições de comunicadores indígenas da Colômbia, Panamá, Equador e Peru, evidenciando o alcance e a inspiração da comunicação indígena. Dos inscritos, foram selecionados os mais de 100 participantes do encontro.
Durante as discussões, foi traçado um panorama histórico da comunicação indígena. Ricardo Ykarunī Nawa, da Articulação Brasileira dos Indígenas Jornalistas (ABRINJOR), citou marcos como as assembleias nos anos 1970, o mandato do deputado Juruna (Xavante), o Programa de Índio da Rádio USP (1985) e a consolidação do Acampamento Terra Livre (a partir de 2004).
No dia 30, a ministra Sonia Guajajara integrou a mesa “Participação Indígena em Espaços Internacionais de Negociação Climática”. O evento não só fortaleceu uma rede estratégica para um momento crucial como a COP 30, mas também consolidou a comunicação como um território fundamental de luta, resistência e afirmação da autonomia narrativa dos povos indígenas.
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