Celebração teve apresentações de diversos povos indígenas que vivem no Território Wayamu (Foto: Angélica Queiroz – Iepé)
Povos do Wayamu reúnem gerações na aldeia Santidade após décadas de mobilização
Texto: Angélica Queiroz
Nos dias 10 e 11 de fevereiro, a aldeia Santidade foi palco de uma grande celebração: a homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, oficializada durante a COP 30, em Belém, no dia 17 de novembro de 2025. De avião, ou após longas horas de viagem por rios encachoeirados, incluindo trechos onde é preciso descer para a canoa ser “puxada”, parentes de diferentes povos, lideranças, parceiros e autoridades chegaram para comemorar. O difícil acesso, parte do cotidiano e da própria história do território, acabou reforçando o sentido do encontro, que reuniu mais de quinhentas pessoas.
Passados 57 anos desde a remoção de parte desses povos, durante a ditadura militar, para o então Parque Indígena do Tumucumaque, os habitantes de ao menos 16 yanas, distribuídos em cerca de dois milhões de hectares puderam finalmente celebrar juntos. Foram dias de cantos, danças, homenagens, narrativas compartilhadas, abraços e choros, marcados sobretudo por reencontros entre quem esteve fora ou permaneceu na região. O território nunca deixou de ser habitado, incluindo a presença de grupos em isolamento voluntário. Conforme evidências históricas e registros da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), os vínculos de ocupação se mantiveram ao longo do tempo e sustentaram o processo de reconhecimento.
Além das comunidades e lideranças em geral do Território Wayamu, participaram representantes dos territórios vizinhos do Tumucumaque e Waimiri-Atroari, bem como das organizações indígenas locais: Associação dos Povos Indígenas Wai Wai de Roraima (APIW), Associação Indígena dos Povos Xowyana – Aymara, Conselho Geral do Povo Hexkaryana (CGPH), Associação dos Povos Indígenas do Alto Rio Nhamundá – ASPIARIN, Associação dos Povos Indígenas do Mapuera (APIM), Associação dos Povos Indígenas Trombetas-Mapuera (APITMA), Associação das Mulheres Indígenas da Região do Município de Oriximiná (AMIRMO) e Associação Indígena Katxuyana, Tunayana, Kahyana (AIKATUK), anfitriã da celebração junto ao Cacique da Aldeia Santidade.
A comemoração também contou com a presença de instituições governamentais, como a Funai, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), e de organizações da sociedade civil, entre elas o Iepé, que acompanhou o processo ao longo dos anos em apoio às iniciativas conduzidas pelas associações indígenas da região. Também participaram a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), o Fundo Podáali, a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), a Fundação Moore, a Rainforest Foundation da Suécia e o Observatório dos Povos Isolados (OPI).


Um processo que atravessa gerações
A conquista celebrada na aldeia Santidade começou há mais de duas décadas. Em 2003, lideranças Katxuyana, Kahyana e Tunayana formalizaram junto à Funai o pedido de reconhecimento de sua terra tradicional. A partir de 2008, foi instituído por este órgão um Grupo de Trabalho, cujos estudos resultaram na publicação do Relatório de Identificação e Delimitação da TI Kaxuyana-Tunayana, em 2015 e, posteriormente, na Portaria Declaratória emitida pelo Ministério da Justiça, em 2018.
No decorrer desse período, diferentes órgãos federais e estaduais participaram de reuniões técnicas e administrativas relacionadas à regularização territorial, refletindo a complexidade de uma região marcada pela presença histórica de diversos grupos e formas de uso tradicional da terra. Com a homologação, o Estado brasileiro efetivou o direito desses povos às terras que tradicionalmente ocupam, conforme assegura a Constituição Federal de 1988.
“Foram muitos desafios, mas muitas alegrias”
Angela Kaxuyana, liderança da TI Kaxuyana-Tunayana, esteve à frente das homenagens durante a celebração. Em sua fala, lembrou diversas lideranças que tiveram papel fundamental na longa luta pelo reconhecimento do território, algumas presentes na festa, outras que não puderam estar no evento ou que perderam a vida antes de ver a homologação se concretizar. “O que eu chorei dava para formar esse rio. Foram muitos desafios, mas também muitas alegrias, porque cada passo avançado foi um momento de esperança e resistência, não só para nós, povos da Kaxuyana-Tunayana, mas para todos os povos indígenas do Brasil que seguem em constante violência diante da não demarcação de seus territórios”, ressaltou.
Emocionada, Angela agradeceu a todos os que contribuíram para a homologação, indo a Brasília ou a Belém, mas também aos que permaneceram nas aldeias, acreditando que aqueles que viajaram poderiam voltar com alguma notícia. “Somos uma teia de relações aqui dentro deste território. Obrigada por terem resistido”, afirmou. Ela também destacou o simbolismo de a homologação ter ocorrido no mandato de uma mulher indígena à frente do MPI, Sônia Guajajara, que esteve presente na comemoração.

A Ministra Sônia, por sua vez, relembrou seu engajamento no processo, iniciado em 2018, quando visitou pela primeira vez a TI e ficou impressionada com a diversidade de povos e com a história de remoção forçada durante a ditadura militar. “Voltei com aquele compromisso que eu tinha que assumir e lutar por esse território junto com vocês”, contou. Ela detalhou as negociações com o presidente Lula para que a homologação fosse oficializada durante a COP 30. “Foram mais de 30 anos, com a participação de muita gente”, lembrou. “Vocês conseguiram porque lutaram com muita sabedoria, sempre falando do território com muito respeito. Então, sabedoria, para mim, é a palavra que resume todo esse processo. Agora, a dignidade foi devolvida porque vocês voltaram para seu território de origem. Isso é resultado de uma luta coletiva, de muita resistência e esperança. E a gente precisa realmente comemorar”, completou.
Juventino Pesirima Kaxuyana, vice-presidente da AIKATUK e uma das primeiras lideranças a retornar para o território, também agradeceu à ministra: “Nós pedimos e você cumpriu. Gratidão em nome dos povos da região”, afirmou. Já a presidente da AIKATUK, Ana Kahyana, comentou que se sente como se estivesse em um sonho que agora é realidade e chamou os mais velhos (amus) para cantar. “Agora esse cantar está de volta para casa, para dizer que somos daqui e nosso espírito faz parte desse território, para dizer que estamos em casa”.

João do Vale, uma das lideranças indígenas que reabriram a aldeia Santidade, uma das primeiras no processo de retomada, relembrou a retirada forçada e o retorno ao território e afirmou estar muito emocionado com a festa. “Foi muito difícil conquistar essa terra de volta, mas nós conseguimos, sim. Eu fico muito feliz. Hoje é dia de comemoração, vamos dançar com alegria, todos os parentes de várias etnias que estão aqui”, comemorou.
O antropólogo Ruben Caixeta, coordenador do Grupo de Trabalho da Funai, de Identificação e Delimitação da TI Kaxuyana Tunayana, acompanhou todo o processo e também foi homenageado durante a festa. “Essa história começa no primeiro dia em que os Kaxuyana saíram daqui e foram levados para o Parque do Tumucumaque, em 1968. Desde então, os mais velhos já se preparavam para retornar ao seu local de origem. E hoje eles conseguiram!”.
Denise Fajardo, coordenadora do Programa do Iepé que atua na região (Programa Tumucumaque-Wayamu), destacou: “Por muito tempo viemos às assembleias para falar do que ainda faltava. Estar aqui para celebrar o que foi alcançado é motivo de muita alegria e emoção. Com o reconhecimento da terra, a pauta deixa de ser provar a existência e passa a ser decidir o futuro.”

Diversos yanas estiveram presentes para celebrar, com muita música e dança, a homologação (Foto: Angélica Queiroz – Iepé)
A homologação e o que ela inaugura
A chegada da comitiva da Funai, liderada pela presidenta Joenia Wapichana, marcou o encerramento da programação. Em sua fala, Joenia destacou o papel de lideranças como Angela Kaxuyana, e de parceiros como o Iepé, relembrando o percurso coletivo que levou ao reconhecimento oficial. A homologação, afirmou, expressa a persistência das comunidades em manter seus vínculos com a terra ao longo do tempo e a responsabilidade do Estado em assegurar esse direito, relembrando que a homologação corresponde à etapa final de um procedimento administrativo já concluído nas instâncias técnicas do Estado brasileiro.
Com o território oficialmente reconhecido, o sentido dos encontros também se transforma. Inserida em uma região onde diferentes povos vizinhos compartilham histórias e espaços de vida, a homologação cria as condições para que os entendimentos necessários sobre convivência e cuidado com o território sejam conduzidos a partir de direitos igualmente assegurados.
A celebração foi organizada pela AIKATUK, com apoio do Iepé e dos parceiros Bezos Earth Fund e Nia Tero.
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