Registros da expedição ao igarapé Mamoadate – fev, 2026.

Por Branca Medina e Elizabeth Bylaardt

Em fevereiro deste ano, depois de um período em que o monitoramento territorial comunitário vinha sendo realizado de forma separada, indígenas Jaminawa e Manxineru realizaram uma expedição conjunta no Igarapé Mamoadate, na Terra Indígena Mamoadate. Esse movimento representa um avanço importante na gestão e proteção territorial da TI.

Historicamente, os dois povos vivem na mesma terra indígena, mas vinham organizando os trabalhos de monitoramento de forma independente. Mesmo quando atuavam no mesmo rio, cada equipe Manxineru e cada equipe Jaminawa percorria trechos distintos. A expedição que aconteceu em fevereiro passado marca uma retomada do trabalho conjunto e fortalece o processo de aproximação, fundamental para a proteção do território.

Por estar situada na faixa de fronteira entre o Brasil, no estado do Acre, e Madre de Dios, no Peru, a TI Mamoadate enfrenta dinâmicas transfronteiriças que impactam diretamente os povos do território.

Entre as principais ameaças estão as invasões na TI, atividades ilícitas, propostas de abertura de ramais e estradas e, do lado peruano, empreendimentos petrolíferos e madeireiras ilegais. Outra preocupação é o risco para os povos indígenas isolados na região. Há registros de aumento de vestígios desse grupo, conhecido como Mashco Piro. Nesse contexto, fortalecer o monitoramento, por meio da união dos povos da TI, é uma medida estratégica de segurança territorial.

Soma-se a isso o fato de que a construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental e do Protocolo de Consulta da TI Mamoadate já vinha promovendo essa aproximação entre os dois povos. Em outubro do ano passado, durante a Oficina de Atualização do Plano de Monitoramento Territorial — realizada em parceria entre a Associação MAPPHA (Manxinerune Ptohi Phunputuru Poktshi Hajene) e a Comissão Pró-Indígenas do Acre, e que envolveu tanto os Manxineru quanto os Jaminawa —, a expedição ao Igarapé Mamoadate começou a ser organizada.

O processo ampliou o espaço de diálogo entre as aldeias e definiu encaminhamentos para a atuação conjunta. Para os mais jovens que monitoram o território, é como se fosse a primeira vez que o trabalho acontece dessa forma, envolvendo ambos os povos.

Participaram da expedição lideranças, jovens, AAFIs e mulheres das aldeias Betel, Cujubim e Salão, do povo Jaminawa, e Peri e Jatobá, do povo Manxineru. Antes da saída a campo, as equipes se reuniram com caciques, professores, agentes de saúde e monitores para planejar a atividade. Quatro grupos de cada povo foram formados para avaliar vestígios, registrar informações e percorrer diferentes trechos do igarapé Mamoadate. A atividade, que durou seis dias, transcorreu sem identificação de invasões ou cortes ilegais.

Juraci Alves Jaminawa, monitor da aldeia Betel, na TI Mamoadate, explica que o planejamento é parte essencial do trabalho:

“Sempre que a gente faz uma expedição de monitoramento, a gente faz um planejamento com os monitores, com as aldeias, com os caciques, com a liderança, com os professores e com agente de saúde. Nessa etapa são definidos materiais, rotas e organização dos grupos.”

Para Juraci, a atuação conjunta trouxe aprendizados:

“Foi a primeira vez que a gente fez um trabalho junto com os monitores Manxineru. Eles ensinaram algumas coisas que eles sabiam, e a gente também mostrou como a gente faz esse trabalho.”

Joseima Manchineri, da aldeia Jatobá, na TI Mamoadate, participou da expedição e destacou a importância da presença das mulheres na atividade:

“Essa expedição que a gente fez com o pessoal do Jaminawa e do Peri foi importante para nós mulheres também. Aqui do Jatobá foram duas mulheres, do Peri foram cinco e do Jaminawa foi uma. É importante para nós conhecer como os homens andam, pegar chuva, chuva de noite. Fica um pouco difícil para nós, como mulheres, mas a gente aprende também. Se a gente vê rastro de mashco piro e invasão, é para ajudar os homens a defender o território, saber discutir e fazer relatório também. Para mim, o mais importante é isso.”

Registros da expedição ao igarapé Mamoadate – fev, 2026.

Demarcada em 1986 e homologada em 1991, a TI Mamoadate possui 313.646 hectares e está localizada nos municípios de Assis Brasil e Sena Madureira, no rio Iaco, afluente do rio Purus. No território vivem os povos Manxineru, da família linguística Arauak, organizados em 12 aldeias, e Jaminawa, da família linguística Pano, distribuídos em quatro aldeias.

Nas décadas de 1970 e 1980, a liderança Zé Correia Jaminawa reunia os dois povos para esse trabalho de proteção e monitoramento, com o objetivo de segurar o território e evitar que fosse tomado por interesses não indígenas. Essa integração deixou de existir por um período, mas agora está sendo retomada, uma vez que é essencial para o fortalecimento da gestão da TI. Não há dúvidas de que esse movimento de retomada fortalece o monitoramento, amplia a proteção do território e pode trazer avanços para todos.

Fonte: https://cpiacre.org.br/manxineru-e-jaminawa-unem-esforcos-no-monitoramento-da-ti-mamoadate/