Indígenas convivem com a presença permanente de pessoas estranhas, em motos e carros, rondando a aldeia. Foto: Comunidade Truká-Tupan.
Levadas ao hospital, vítimas não receberam atendimento completo. Povo Truká Tupan acumula histórico de perseguições e atentados
Por Assessoria de Comunicação – Cimi Regional Nordeste
Com histórico de perseguições e ameaças, os Truká Tupan denunciam que dois jovens indígenas, um de 19 anos e outro de 16 anos, foram atropelados de forma criminosa, na noite do último dia 5 de maio, enquanto pilotavam uma motocicleta na região do povoado Alto do Araticum, em Paulo Afonso (BA), local onde fica a Terra Indígena do povo. A Polícia Civil iniciou as investigações.
O caso foi registrado inicialmente como tentativa de homicídio simples (art. 121 do Código Penal Brasileiro c/c art. 14, inciso II), aguardando-se agora o laudo definitivo do Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Paulo Afonso. O episódio não é inédito: há outros casos contra o povo da violência se dar através de perseguições automobilísticas com tentativas de atropelamento (leia mais abaixo).
De acordo com o boletim de ocorrência registrado na 1ª Delegacia Territorial (DT) do município, as vítimas seguiam em uma moto Honda/CG 125 Fan, cor preta, quando perceberam que estavam sendo seguidas por uma caminhonete modelo Strada, de cor branca. Após cerca de 130 metros de perseguição, o jovem de 19 anos teria dado sinal para que o veículo ultrapassasse. Foi quando, segundo o relato, o motorista da Strada acelerou propositalmente e colidiu contra a lateral da moto.
Ao menos desde 2017, o MPF instaura procedimentos para apurar denúncias de que a Terra Indígena retomada teria sido invadida por desconhecidos
Com o impacto, os dois caíram ao chão. A caminhonete fugiu em direção ao centro da cidade, sem que os ocupantes fossem identificados. Parentes das vítimas prestaram socorro e as levaram ao Hospital Geral de Paulo Afonso (HGPA). No entanto, de acordo com o registro policial, a dupla não foi atendida no hospital; foram orientados a voltar para casa e comprar os medicamentos por conta própria. Os remédios foram adquiridos pelos próprios indígenas.
A Polícia Militar foi acionada e fez diligências na aldeia, mas até o momento não localizou os autores da investida. A Polícia Civil requisitou exame pericial de lesão corporal para constatar a extensão dos ferimentos, considerando também a perspectiva de gênero e a materialização do tipo penal.
Ao menos desde 2017, o Ministério Público Federal (MPF) instaura procedimentos para apurar denúncias de que a Terra Indígena retomada teria sido invadida por desconhecidos, com tiros, pedras atiradas para quebrar telhados e destruição das roças. Um histórico que reforça as suspeitas de tentativa de homicídio.
Histórico de perseguições, atentados e ameaças
Alzeni Tomáz, da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH), saía da Terra Indígena Truká Tupan, em agosto de 2023, após atividades com o povo, quando seu veículo passou a ser seguido por um outro, que de forma ofensiva a perseguiu pelas ruas de Paulo Afonso. A pesquisadora e ativista, conduziu seu carro para a delegacia. Quando perceberam a armadilha, abandonaram a perseguição.
Em fevereiro de 2022, a então cacica Erineide Truká Tupan foi alvo de uma tentativa de assassinato na Terra Indígena. Sentada na porta de sua casa, ela conversava com parentes e crianças da comunidade quando homens passaram de moto atirando. Em anos anteriores, e posteriores, disparos de arma de fogo, morte de animais, intimidações e práticas racistas são registrados.
Há cerca de 14 anos, os indígenas negociam a compra do território, uma área pública, com pouco mais de 3 mil metros quadrados
Em agosto de 2021, o hoje cacique Adriano Rodrigues Truká Tupan foi agredido por um dos posseiros enquanto aguardava atendimento em um banco no centro da cidade. Após o caso, ele e outras lideranças, incluindo a cacica Erineide, foram incluídos no Programa de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos (PPDDH).
Há cerca de 14 anos, os indígenas negociam a compra do território, uma área pública, com pouco mais de 3 mil metros quadrados, por meio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Um posseiro afirma ser dono das terras, mesmo não havendo documentos em cartório que comprovem tal posse e tendo perdido três vezes na Justiça as ações de reintegração de posse.
Fonte: https://cimi.org.br/2026/05/jovens-truka-tupan-sao-atropelados-durante-perseguicao/
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