Pery Teixeira (1945-2026) – Divulgação Abep
- Pery Teixeira coordenou censo pioneiro do povo sateré-mawé entre 2002 e 2003
- Amigos e familiares lembram de Pery como crítico, alegre e apaixonado por música e cinema
São Paulo
O demógrafo Pery Teixeira reuniu, entre 2002 e 2003, um grupo de alunos da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) com o objetivo de organizar um censo da população indígena sateré-mawé. A metodologia da pesquisa foi desenvolvida com as lideranças indígenas, de modo que os pesquisadores evitassem desvios nos resultados.
Para a amiga Marta Azevedo, 71, demógrafa especializada em povos indígenas, a coordenação de Pery foi central para o sucesso do projeto. “Ele estava sempre refletindo sobre como determinada pergunta é feita e qual a influência dela sobre o resultado da pesquisa”, afirma.
O censo dos sateré-mawé mostra quem foi Pery Teixeira: crítico e aglutinador. Para o demógrafo Gelson de Oliveira, primeiro orientando do professor no mestrado da Ufam, Pery foi um guru. O ex-aluno diz que as críticas eram duras, mas o apoio dado a ele e aos colegas era muito grande: “Ele chegou a dar dinheiro do próprio bolso para ajudar estudantes a se manterem pesquisando”.
Virgínia Teixeira, 69, sobrinha do professor, diz que ficava com dó dos orientandos do tio. “Ele corrigia todos os erros de português, e só depois falava sobre a dissertação”, afirma. Segundo Virgínia e Marta, Pery se preocupava mais com as produções dos alunos do que com as próprias.
Mineiro de Araxá, Pery nasceu em 1945 e foi o caçula de sete irmãos, todos com nomes de origem indígena. Aos 16 anos, foi viver na casa do irmão Guaraci —pai de Virgínia— em São Paulo. Formou-se em matemática pela USP e foi funcionário do Banco do Brasil.
Em 1972, aos 27 anos, viajou a Paris na companhia da namorada, que faria mestrado. Pouco antes, ficou dois dias detido no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão da ditadura. No apartamento em que vivia em São Paulo, a polícia havia encontrado panfletos de oposição ao regime militar. Na França, onde viveu por três anos, Pery conheceu a demografia ao ingressar em uma pós-graduação na área, sob influência de uma amiga.
As críticas de Pery não se restringiam aos trabalhos acadêmicos. O demógrafo era fã de música e cinema. “Ele gostava de MPB, samba e música clássica. Escolhia os filmes pelo diretor, não pelo ator”, conta Virgínia. Ela encontrou, em 1995, um caderno com anotações feitas pelo tio na adolescência a respeito dos filmes vistos por ele.
No início dos anos 2000, mudou-se para Manaus ao passar no concurso da Ufam. Nesse período, Pery teve cadeira cativa nas confraternizações familiares do aluno Gelson. Passavam o dia cantando, bebendo cachaça e batendo papo. “Ele gostava muito de conversar, era muito alegre. E sempre encerrava a festa com o violão no colo, tocando sambas antigos”, descreveu ele. A alegria é mais um ponto de convergência nos relatos sobre o professor.
Pery Teixeira morreu dia 7 de abril, aos 81 anos, em sua cidade natal, após sofrer um AVC. Deixa sobrinhos, amigos e companheiros de crítica, pesquisa e boas conversas.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/05/mortes-professor-foi-referencia-em-demografia-dos-povos-indigenas.shtml
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