A raspagem e destalagem das fibras de arumã e bacaba são etapas importantes no processo de produção da cestaria Paumari. Foto: Talita Oliveira/OPAN

Encontros entre gerações fortalecem a transmissão dos saberes tradicionais e ampliam as oportunidades de geração de renda para as mulheres do povo Paumari

Por Talita Oliveira | OPAN

Cada cesto, abano ou paneiro produzido pelas mulheres Paumari carrega muito mais do que beleza e habilidade manual. Em suas fibras estão entrelaçados os conhecimentos ancestrais de um povo, a memória de suas antepassadas e o compromisso de manter viva uma tradição que atravessa gerações. “O artesanato traz uma lembrança de antes, das nossas mães e das nossas avós”, resume Deusilene Paumari, coordenadora do grupo de mulheres da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA). Há pelo menos três anos, ela e outras mulheres Paumari do rio Tapauá (AM) promovem encontros que aproximam jovens e anciãs para fortalecer a transmissão dos saberes do teçume e da cestaria tradicional.

Articuladas pela AIPA, as reuniões envolvem mulheres de sete aldeias do território Paumari. Os primeiros encontros foram dedicados à retomada das técnicas do teçume, reunindo diferentes formas de trançado, grafismos e conhecimentos tradicionais que, ao longo do tempo, corriam o risco de se perder.

“Foi muito importante essa mobilização porque hoje a gente consegue ver o avanço da produção do artesanato. Antes já não se falava mais disso, não era mais tão importante para as pessoas. Mas agora a gente entende a importância dessa valorização, reconhecendo que isso faz parte da nossa cultura e da nossa identidade”, avalia Ana Paula Paumari, presidenta da AIPA.

Das mães para as filhas, das avós para as netas

Uma das professoras que se dedicam a repassar o conhecimento do teçume é a Deisinha Lopes Paumari. Hoje com 51 anos, ela começou a tecer quando tinha apenas dez, observando tudo que sua mãe Bernadina fazia. “Eu via minha mãe tecendo assim e dizia ‘mamãe, eu não consigo’, mas ela continuava me incentivando. O primeiro balaio que eu fiz ficou um pouco torto, mas eu fiquei tão feliz que eu acertei”, relembra Deisinha.

Deisinha Lopes se dedica a repassar o conhecimento ancestral do teçume para as mulheres mais jovens do povo Paumari. Foto: Talita Oliveira/OPAN
 

Seguindo o exemplo da mãe, ela hoje ensina a prática do teçume às jovens mulheres do povo Paumari e também à filha, de apenas oito anos. “Ela já sabe tirar talinha e sabe tecer alguns tipos de balaio. Ela vai aprender tudo, igual eu aprendi com a mamãe”, afirma.

Fortalecimento da cultura e geração de renda

À medida que a prática do teçume foi sendo retomada, surgiu também a possibilidade de fortalecer seu potencial econômico. No encontro mais recente, realizado em abril, as participantes discutiram formas de precificar e comercializar as peças, compreendendo que o artesanato, além de fortalecer a cultura e a organização social, também pode representar uma importante fonte de renda e autonomia financeira para as mulheres e suas famílias.

A raspagem e destalagem das fibras de arumã e bacaba são etapas importantes no processo de produção da cestaria Paumari. Foto: Talita Oliveira/OPAN

Na oficina, as mulheres percorreram todas as etapas da produção das cestarias e utilizaram essa experiência para definir critérios de precificação e estabelecer padrões de tamanho que auxiliem no processo de comercialização. A atividade começou com a coleta das talas de arumã e bacaba na floresta, seguida pela raspagem e destalagem das fibras. Em seguida, as participantes confeccionaram os cestos e, ao final, refletiram sobre as etapas do trabalho, o tempo empregado e os custos envolvidos na produção.

Esse processo vem sendo apoiado pelo projeto Raízes do Purus, realizado pela OPAN em parceria com a Petrobras, que incentiva iniciativas voltadas ao protagonismo das mulheres Paumari e ao fortalecimento de suas organizações. “Um dos objetivos é ampliar as oportunidades de geração de renda por meio da comercialização do artesanato, complementando a renda dessas mulheres e de suas famílias. Estão previstas várias reuniões e, com o apoio do projeto, oferecemos acompanhamento técnico, além de contribuir para a mobilização e a estruturação de tudo o que é necessário para esse processo”, explica Diogo Giroto, coordenador do Programa Amazonas da OPAN.

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/07/23/tecume-paumari-memoria-cultura-e-identidade/